A Lógica do descarte e a fragmentação polarizada: a perda da Totalidade

Diocese de Assis

image_pdfimage_print

 

Continuando a série de 4 artigos, que dialoga e põe em questão o Humanismo do Encontro e a Crise do Século XXI, trago para você o terceiro artigo, pondo em relevo, elementos mais sensíveis que evidenciam nossa perda de horizonte.

Vamos fazer revisões pessoais?

 

A Lógica do descarte e a fragmentação polarizada: a perda da Totalidade

A lógica que rege grande parte do sistema global é a da eficiência e da obsolescência programada, que deu origem à terrível cultura do descarte.

O Papa Francisco critica veementemente essa mentalidade, que trata o ser humano como um bem de consumo: útil enquanto produz, descartável quando se torna um fardo ou não se encaixa nos padrões do mercado. Essa lógica atinge os extremos da vida, desvalorizando tanto o idoso quanto o nascituro, e marginaliza vastos contingentes de pessoas, as quais são invisibilizadas pelo sistema.

O efeito corrosivo dessa cultura se estende à esfera social e política, alimentando a polarização político-econômica-cultural. Quando as pessoas são tratadas como peças descartáveis, a ideologia adversária também é tratada como algo a ser “descartado” ou aniquilado. O diálogo e a busca por consensos são substituídos pela guerra cultural, onde o outro é visto como um inimigo absoluto, e não como um irmão com quem se discorda. A filósofa

Martha Nussbaum fala sobre a importância de cultivar a “imaginação narrativa”, a capacidade de se colocar no lugar do outro, uma capacidade que a polarização destrói ao insistir na fragmentação da realidade.

A resposta cristã é o reconhecimento da unidade e da totalidade da criação. A Igreja, como Corpo de Cristo, é chamada a ser o fermento da unidade em um mundo fragmentado. Não se trata de uma ingenuidade política, mas de uma fidelidade teológica. O Humanismo Cristão transcende as polaridades ideológicas, pois sua referência não é um partido ou uma doutrina econômica, mas a pessoa de Jesus Cristo, que se fez solidário com os descartados.

São Paulo, ao escrever aos Gálatas, derrubava as polarizações de sua época: “Não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3, 28).

O cristão é, por vocação, um construtor de pontes, alguém capaz de ver o valor intrínseco de cada pessoa e de cada ideia (mesmo as opostas) para além da lógica utilitarista e polarizada. A cultura do descarte exige, como contraponto, a cultura da acolhida e da integralidade.

A lógica do descarte é o oposto da lógica de Deus, que resgata o que é marginalizado.

O cristão deve resistir à tentação da polarização, exercitando a “imaginação narrativa” e a fraternidade para ver no “outro” (político, econômico, cultural) não um inimigo a ser eliminado, mas um irmão a ser acolhido na totalidade da criação.

PE. EDIVALDO PEREIRA DOS SANTOS

Botão Voltar ao topo