Rejeição do eleitorado aos candidatos é sinal de alerta

Por Samuel Hanan

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O atual presidente da República e candidato à obtenção de um quarto mandato, foi eleito em 2022 com apenas 38,56% dos votos dos eleitores aptos. Foi um sinal claro de que os candidatos que se apresentaram naquele pleito não eram os mais desejados pelo povo brasileiro. Haja vista, também, que a abstenção e os votos brancos e nulos somaram mais de 24% do eleitorado, conforme a apuração final feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso correspondeu a praticamente um quarto do eleitorado e o número se igualou a 40% dos votos obtidos pelo vencedor.

Naquela eleição, as pesquisas do DataFolha para o segundo turno já identificavam a insatisfação da maioria dos eleitores, expressada pela rejeição aos dois candidatos: Lula, 45%, e Jair Bolsonaro, 50%. Um movimento crescente, pois em agosto de 2022 os índices de rejeição eram, respectivamente, de 36% para Lula e de 47% para Bolsonaro. Vale lembrar que rejeição significa a decisão do eleitor de não votar de jeito nenhum em determinado candidato (o que um instituto de pesquisa chega a qualificar de ojeriza àquele postulante específico), por ter desconfiança e/ou repulsa às atitudes comportamentais do candidato, especialmente às mentiras e atos de suspeição de corrupção.

Passados quatro anos, a situação não é diferente. Pesquisas do DataFolha e do Ipec/Ipsos mostram que a maioria dos eleitores aptos a votar em outubro (158.864.999 brasileiros, de acordo com dados mais recentes do TSE) mantém seu descontentamento com a classe política brasileira. O sentimento é de que os partidos insistem em manter e priorizar os mesmos candidatos ou aqueles que levam o nome de família, já rejeitados no último pleito. A comprovação do descontentamento está na constatação de que a rejeição aos candidatos permanece elevadíssima.

Há razões para esse cenário. Por exemplo, a análise das últimas avaliações do terceiro governo Lula, segundo pesquisas Ipec/Ipsos de junho e julho, comentada pela CNN-Brasil, mostra que a avaliação ruim ou péssima é altíssima em setores essenciais: saúde (46%), segurança pública (47%), combate à inflação (49%) e economia e controle de gastos (57%).

A última pesquisa do Atlas/Intel, de junho de 2026, corrobora o grau de insatisfação do eleitorado brasileiro, com resultados ainda mais expressivos. Segundo esse levantamento, na área de Educação 49% dos eleitores consideram o governo “ruim ou péssimo”. Na saúde, a reprovação é de 46%; na segurança pública, de 54%, no combate à inflação, também de 54%, e é ainda maior quando o assunto é economia e corte de gastos, com 55% de insatisfeitos.

A reprovação poderia ser ainda maior se todos os brasileiros tivessem conhecimento de que a corrupção retira dos cofres públicos de R$ 340 bilhões a R$ 540 bilhões por ano, o correspondente a 2,5% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo estimativa da FGV-Ibre. O estrago é ainda mais expressivo na estimativa do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que calcula o rombo da corrupção duas vezes maior, entre R$ 675 bilhões e R$ 945 bilhões anuais.

São números que dão a dimensão do volume de recursos que os corruptos e corruptores reiteradamente retiram dos serviços essenciais à população. Somente a título de exemplo, o SUS, que presta serviços de saúde amplos à população em todo o território nacional, tem custo total de R$ 220 bilhões/ano. Esse investimento poderia ser dobrado com o dinheiro sugado pela corrupção. O mesmo poderia acontecer com a segurança pública, que hoje registra mais de 35.000 homicídios/ano. A injeção de mais R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões por ano nesse segmento, seria reforço substancial no combate mais efetivo às facções e organizações criminosas que hoje desafiam o Estado e tiram a tranquilidade e o sono das pessoas de bem.

O Índice de Percepção da Corrupção (IPC), criado pela Transparência Internacional, mostra de maneira inquestionável a decadência ética-moral e de honestidade no Brasil. Nesse índice, o Brasil ocupava a 45ª posição em 2002 e hoje amarga a 108ª colocação. Queda substancial. E o que isso significa? Que existem 107 países com o setor público mais honesto que o do Brasil. Uma vergonha nacional!

Agora no mês de julho, o Poder Data divulgou sua mais recente pesquisa popular. O resultado: para 49% dos entrevistados a corrupção cresceu no governo atual e segundo o Atlas-Intel 85,9% da rejeição ao governo atual se deve à corrupção avassaladora; daí a reprovação ao governo atual.

Nesse aspecto, vale lembrar o que disse o humorista, dramaturgo e apresentador Jô Soares a respeito dessa praga que aflige o país há tanto tempo: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade tem muito a ver com o Brasil”.

É triste – e, especialmente, preocupante – ver a corrupção crescendo exponencialmente, a impunidade tolerada, e a indignação já praticamente inexistente. Nossas prisões estão superlotadas, mas não por causa dos corruptos, que são raríssimos no cárcere. Cúmulo do absurdo, hoje já temos até alguns corruptos com crachá de autoridade.

A situação geral do país provoca desaprovação relativa a todas as esferas de poder. Pesquisa realizada pelo instituto Futura-Apex entre 7 e 11 de julho mostra que é alta a rejeição do brasileiro em relação às cúpulas dos três poderes: Executivo (49,7%), Legislativo (67%) e Judiciário (52,3%). Metade – e até mais – da população está insatisfeita com o desempenho do presidente da República, dos senadores e deputados federais, e dos juízes e ministros dos tribunais superiores, STF principalmente, em razão de sua maior exposição na mídia, que noticia e repercute suas decisões.

Vale rebater o senso comum de que o brasileiro não sabe votar. Esse pensamento é rebatido pelas pesquisas que atestam elevados percentuais de rejeição – sempre acima de 48% – a candidatos à Presidência da República e ao Congresso Nacional. Na realidade, o eleitor sente a falta de informações confiáveis, sem viés ideológico ou partidário.

Falta à classe política fazer a leitura do que os eleitores estão expressando por meio das pesquisas, dizendo “não” aos nomes resultantes da polarização (já reprovados) e se mostrando ansiosos por novos nomes como opção de escolha.

Ainda é tempo dos políticos voltarem a priorizar o país e os 213 milhões de brasileiros. O Brasil tem jeito. Mas depende de um despertar, necessita de um grande concerto nacional com menos conformismo e mais indignação, ações assertivas e a certeza de que o cidadão merece muito mais do que hoje lhe é oferecido. A rejeição já expressada em relação aos pré-candidatos é maior sinal disso. O alerta foi ligado.

Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br

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