A menopausa também pode doer: estudo com 93 mil mulheres revela sintoma frequentemente ignorado após os 40

Existe um sintoma da menopausa sobre o qual ainda se fala muito pouco: a dor.

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Não são apenas as ondas de calor, a dificuldade para dormir ou o ganho de gordura abdominal. Para muitas mulheres, a transição hormonal chega acompanhada de joelhos doloridos, mãos rígidas ao despertar, ombros que parecem perder a mobilidade e uma sensação desconcertante de que o próprio corpo envelheceu de repente.

E a ciência começa a dimensionar melhor esse problema.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em janeiro de 2026 no periódico científico JBJS Open Access reuniu 37 estudos envolvendo 93.021 mulheres de 22 países. Os resultados mostraram que 57% das mulheres na perimenopausa e 59% na pós-menopausa apresentavam dores musculares ou articulares, contra 40% das mulheres na pré-menopausa.

Os dados reforçam uma discussão que vem ganhando espaço na medicina: a chamada síndrome musculoesquelética da menopausa, expressão proposta em uma revisão científica publicada em 2024 na revista Climacteric para reunir alterações que podem acompanhar a redução do estrogênio, incluindo dores articulares, perda muscular e alterações na saúde óssea.

O assunto voltou ao debate científico em outubro de 2026, com uma publicação na Nature Reviews Rheumatology que destacou a necessidade de reconhecer melhor esses sintomas, investigar suas causas e desenvolver tratamentos baseados em evidências.

Para a endocrinologista e metabologista Dra. Ully Fernandes, a questão merece atenção porque muitas mulheres ainda interpretam essas mudanças como consequências inevitáveis da idade.

“Existe uma diferença enorme entre envelhecer e aceitar perder qualidade de vida. Uma mulher não deveria considerar normal acordar com dores, perder força ou deixar de fazer atividades que sempre fez apenas porque passou dos 40 anos. A menopausa pode ser uma peça importante desse quebra-cabeça, e ignorá-la significa deixar de investigar uma possível causa dos sintomas”, afirma.

O estrogênio faz muito mais do que regular a menstruação

Embora seja conhecido principalmente por seu papel na reprodução, o estrogênio participa da regulação de diversas funções do organismo.

Existem receptores estrogênicos em músculos, ossos, cartilagens e outros tecidos envolvidos no movimento. O hormônio também participa de mecanismos relacionados à remodelação óssea, à função muscular, à modulação da inflamação e à percepção da dor.

Durante a perimenopausa, seus níveis começam a oscilar de maneira significativa, antes mesmo da interrupção definitiva dos ciclos menstruais.

Essas mudanças podem contribuir para alterações musculoesqueléticas, embora ainda não seja possível atribuir toda dor nessa fase diretamente à redução hormonal.

“Costumamos associar estrogênio à fertilidade, mas ele também participa da biologia do músculo, do osso e das articulações. Quando sua produção se modifica, não é apenas o ciclo menstrual que sente os efeitos. O corpo inteiro precisa se adaptar a um novo ambiente hormonal”, explica a Dra. Ully.

Segundo a especialista, essa é uma das razões pelas quais algumas mulheres passam a perceber desconfortos que antes não existiam, especialmente quando as alterações hormonais se somam a outros fatores metabólicos.

Não são apenas os hormônios: o metabolismo também entra nessa história

Um dos pontos que a Dra. Ully considera fundamentais é compreender que o organismo não funciona em compartimentos isolados.

A mulher que chega à meia-idade pode apresentar simultaneamente alterações hormonais, redução da massa muscular, aumento da gordura abdominal, resistência à insulina e piora da qualidade do sono.

Esses fatores podem contribuir para a intensidade dos sintomas e para a perda de capacidade física.

“A mulher começa a dormir pior, movimenta-se menos porque sente dor, perde condicionamento muscular e pode ganhar gordura abdominal. Esse conjunto de alterações pode aumentar a sobrecarga sobre as articulações e reduzir ainda mais sua disposição para se exercitar. É um ciclo que precisa ser interrompido”, observa.

A endocrinologista chama atenção especialmente para a relação entre composição corporal e saúde musculoesquelética.

A gordura visceral, localizada profundamente no abdômen, está associada à produção de mediadores inflamatórios e a alterações metabólicas. Já a redução da massa muscular pode comprometer a força e o suporte funcional das articulações.

“Na minha visão, um dos grandes erros na saúde feminina é concentrar toda a atenção no peso e muito pouca na qualidade da composição corporal. Duas mulheres podem pesar exatamente a mesma coisa e ter condições musculares e metabólicas completamente diferentes. Depois dos 40, preservar músculos é preservar independência”, destaca.

Outras condições, como hipotireoidismo, doenças reumatológicas, distúrbios do sono e determinadas deficiências nutricionais, também podem participar do quadro e precisam ser consideradas durante a investigação.

O erro de colocar toda dor na conta da menopausa

Apesar da associação entre transição hormonal e sintomas musculoesqueléticos, a Dra. Ully alerta para outro extremo: atribuir automaticamente toda dor após os 40 anos à queda do estrogênio.

Dores acompanhadas de inchaço articular, perda importante de mobilidade, rigidez matinal prolongada, fraqueza significativa ou piora progressiva exigem avaliação específica.

Doenças inflamatórias, autoimunes e ortopédicas podem começar ou se manifestar de maneira mais evidente nessa mesma fase da vida.

“Existem dois erros igualmente perigosos: dizer à mulher que sua dor é simplesmente consequência da idade e afirmar que tudo será resolvido com reposição hormonal. Medicina de qualidade não funciona com respostas automáticas. Funciona com diagnóstico, raciocínio clínico e tratamento individualizado”, ressalta.

A investigação pode incluir avaliação da composição corporal, da força e da funcionalidade muscular, além de exames laboratoriais e de imagem selecionados conforme os sintomas e o histórico clínico.

A especialista lembra que nem toda mulher precisa realizar uma extensa bateria de exames hormonais ou inflamatórios. A escolha dos testes deve responder a hipóteses clínicas específicas.

Reposição hormonal resolve essas dores?

A terapia hormonal da menopausa pode ser uma opção para mulheres com indicações clínicas apropriadas, após avaliação individualizada de benefícios e riscos.

Entretanto, a evidência científica ainda não permite afirmar que a reposição hormonal seja um tratamento específico e universalmente eficaz para dores musculares e articulares.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada na revista Post Reproductive Health, reunindo 57 estudos, não identificou benefício global significativo da terapia hormonal sobre a dor musculoesquelética generalizada, embora alguns estudos individuais tenham apresentado resultados favoráveis.

“A reposição hormonal pode fazer uma diferença importante na qualidade de vida de mulheres bem selecionadas, especialmente no controle de sintomas vasomotores e outros problemas da menopausa. Mas não deve ser transformada em solução para qualquer sintoma. O desafio é entender qual mulher realmente se beneficia de cada intervenção”, afirma a endocrinologista.

O que realmente ajuda a mulher a envelhecer com menos limitações?

Para a Dra. Ully Fernandes, a prevenção da perda de capacidade física precisa ocupar um espaço muito maior na medicina voltada à longevidade feminina.

Entre as estratégias estão exercícios de força progressivos, ingestão adequada de proteínas, manutenção de uma composição corporal saudável, tratamento de doenças metabólicas, qualidade do sono e investigação de possíveis deficiências nutricionais.

A especialista também trabalha com estratégias individualizadas de suporte metabólico e nutricional, incluindo a Aminoterapia®, abordagem que desenvolveu para avaliação e reposição direcionada de nutrientes quando clinicamente indicada. Essas intervenções complementares não substituem tratamentos estabelecidos nem constituem terapia específica comprovada para a síndrome musculoesquelética da menopausa.

“A medicina da longevidade precisa deixar de olhar apenas para quantos anos uma mulher vai viver e começar a valorizar como ela vai viver esses anos. O objetivo não é simplesmente chegar aos 70 ou 80 anos. É chegar com força para caminhar, viajar, treinar, trabalhar e continuar fazendo aquilo que dá prazer à vida”, defende.

“Eu não considero uma vitória médica apenas melhorar um resultado de laboratório. Quero que a mulher continue forte, funcional, metabolicamente saudável e dona da própria autonomia. Afinal, envelhecer é inevitável. Perder qualidade de vida sem investigar o motivo não deveria ser”, conclui.

Dra. Ully Fernandes é médica endocrinologista e metabologista, com formação também em Farmácia e Bioquímica, Clínica Médica, Nutrologia e Fitoterapia Clínica, além de aperfeiçoamentos internacionais em medicina do estilo de vida e longevidade.

Sua atuação é voltada à saúde metabólica, ao equilíbrio hormonal, à composição corporal, ao emagrecimento e à longevidade feminina. É criadora da Aminoterapia®, abordagem individualizada de suporte metabólico e nutricional. CRM145754. RQE 111200 e 111201

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