O músculo entra nessa conta
Outra preocupação ganhou destaque conforme os medicamentos passaram a produzir perdas cada vez maiores de peso: o que exatamente está sendo perdido?
Em uma análise de composição corporal do estudo SURMOUNT-1, com tirzepatida, aproximadamente três quartos da redução de peso corresponderam à gordura e cerca de um quarto à massa magra.
Massa magra não significa exclusivamente músculo, inclui também água e outros tecidos, mas o resultado reforçou a necessidade de acompanhar força e composição corporal durante grandes perdas de peso.
O músculo participa do metabolismo da glicose, da capacidade física, da autonomia e da proteção contra fragilidade ao envelhecer.
Por isso, perder peso e ficar progressivamente mais fraco não deveria ser considerado o resultado ideal de um tratamento.
“Se o paciente está 20 quilos mais leve, mas perdeu força, interrompeu exercícios porque se sente cansado e passou a consumir proteína insuficiente, existe um problema que a balança sozinha não consegue mostrar”, diz Dr. Gustavo de Oliveira Lima.
A orientação atual para preservar massa muscular combina alimentação adequada com treinamento de resistência. Apenas aumentar proteína sem estímulo muscular não resolve toda a equação.
Constipação, náusea e fadiga não devem virar uma coleção automática de potes
Náusea, vômitos, constipação, dor abdominal e fadiga estão entre os efeitos adversos descritos para medicamentos como a semaglutida. É justamente nessa área que o mercado de suplementos encontrou espaço.
Fibras para o intestino. Eletrólitos para fraqueza. Magnésio para diferentes sintomas. Colágeno para pele e cabelo. Probióticos para desconfortos digestivos. O problema é transformar todos os pacientes em candidatos ao mesmo pacote.
Constipação, por exemplo, pode exigir ajustes na ingestão de água, fibras, alimentação e atividade física, mas sintomas persistentes ou intensos também podem exigir avaliação médica.
Fadiga pode estar relacionada a ingestão calórica muito baixa, deficiência nutricional, desidratação, redução abrupta da alimentação ou outros problemas que não serão necessariamente resolvidos por uma vitamina comprada nas redes sociais.
“Suplemento deve responder a uma necessidade. Não deveria ser uma taxa obrigatória cobrada de todo mundo que usa GLP-1”, afirma o especialista.
E a queda de cabelo?
Esse é outro sintoma que alimentou uma grande quantidade de produtos direcionados aos usuários das canetas.
Queda de cabelo apareceu em estudos com medicamentos para perda de peso, mas o mecanismo não está totalmente estabelecido.
Uma das explicações possíveis é o chamado eflúvio telógeno, queda temporária que pode acontecer após grandes perdas de peso, dietas muito restritivas, doenças ou outros estresses fisiológicos.
Ou seja, em alguns casos, o problema pode estar menos relacionado a uma ação direta do medicamento sobre o cabelo e mais à velocidade da mudança corporal e à redução da ingestão nutricional. Isso muda a abordagem.
Antes de comprar biotina, colágeno ou qualquer fórmula prometendo recuperar os fios, o paciente pode precisar investigar ferro, alimentação, proteínas, tireoide e outras possíveis causas.
O erro de tratar cada sintoma separadamente
É aqui que a nova indústria dos suplementos revela algo maior sobre o tratamento moderno da obesidade. O paciente emagrece. Surge fraqueza: compra um produto. O intestino trava: compra outro. O cabelo cai: acrescenta outro. A energia diminui: procura uma vitamina.
De repente, o tratamento que começou com uma caneta termina acompanhado por seis potes diferentes.
Para Dr. Gustavo de Oliveira Lima, esse cenário mostra por que a medicina do emagrecimento precisa ir além da prescrição. “O acompanhamento deve perguntar se o paciente está perdendo gordura, preservando músculo, comendo adequadamente, treinando, dormindo bem e mantendo disposição. Quando avaliamos tudo isso em conjunto, conseguimos tratar a causa de muitos problemas antes de criar uma lista enorme de correções.” |