Assis tem a chance de levar o SUS até a casa de cada idoso acamado da região
Novo programa federal financia equipes multiprofissionais para atendimento domiciliar e pode transformar o cuidado à pessoa idosa no Vale do Paranapanema

Por: Humberto Tobé e Fátima Christine
Toda cidade tem uma parte da população que quase não aparece nas estatísticas de atendimento. São os idosos que, por causa de uma doença crônica, de uma fratura mal recuperada ou da perda de memória, deixaram de frequentar a unidade de saúde. Em Assis, cidade de 101.409 habitantes segundo o Censo 2022 e referência para o Vale do Paranapanema, essas pessoas estão espalhadas por todos os bairros e por todas as cidades vizinhas que dependem do polo regional.
O Ministério da Saúde lançou em 2026 um programa feito sob medida para elas. O Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil, financia equipes multiprofissionais da Atenção Primária para atender em casa pessoas com 60 anos ou mais que não conseguem sair do domicílio. A expectativa nacional é que cerca de 1,5 milhão de idosos, mais da metade dos que hoje estão acamados, passem a ter acompanhamento em casa.
Para participar, a prefeitura solicita o credenciamento pelo e-Gestor, a plataforma de gestão da Atenção Primária. O município precisa ter equipes multiprofissionais (eMulti) cadastradas, um veículo para as visitas com a identidade visual da Atenção Primária e o compromisso de registrar os atendimentos no sistema nacional.
Em troca, o Governo Federal repassa um incentivo mensal adicional de R$ 5 mil a R$ 10 mil por equipe, conforme a modalidade, e uma parcela única para a implantação. Até junho de 2026, 2.733 municípios brasileiros já tinham pedido adesão, somando 3.677 equipes. O investimento previsto é de cerca de R$ 500 milhões até 2027.
Na prática, o idoso passa a receber em casa uma equipe que pode reunir enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, assistente social e médico. Essa equipe faz uma avaliação completa, que vai das doenças e medicamentos à capacidade de se alimentar sozinho, à memória e aos riscos de queda no próprio quarto. Com base nela, monta um plano de cuidados individual e orienta a família.
Assis tem perfil de cidade universitária e concentra serviços de saúde que atendem municípios menores do entorno. Essa combinação favorece a formação de equipes qualificadas e a construção de protocolos que podem ser replicados na região. Quando o polo organiza bem o cuidado domiciliar, os municípios vizinhos ganham um modelo a seguir e uma rede de referência mais preparada para receber os casos que exigem atenção especializada.
O idoso restrito ao domicílio que fica sem acompanhamento não deixa de precisar de cuidado. Ele apenas passa a recebê-lo tarde demais. A hipertensão sem controle vira AVC. A desidratação não percebida vira confusão mental e queda. A escara não tratada vira infecção grave. Cada um desses desfechos termina, quase sempre, em uma internação hospitalar mais longa, mais cara e mais arriscada do que o acompanhamento que poderia tê-la evitado.
E há o custo invisível: o de famílias exaustas, que tentam dar conta sozinhas de curativos, sondas, remédios e noites mal dormidas, sem saber a quem perguntar. O Padi Brasil coloca uma equipe ao lado dessas famílias.
No Brasil, 80% das pessoas idosas dependem exclusivamente do SUS. No estado de São Paulo, a população com 60 anos ou mais cresceu 60,3% entre 2010 e 2022, ritmo mais acelerado que a média nacional. Os números deixam claro que o cuidado domiciliar deixou de ser uma necessidade futura: ele já é urgente.
Para Assis e para o Vale do Paranapanema, o programa federal representa a oportunidade de transformar essa urgência em uma política estruturada, financiada e permanente.
Sobre os autores:
Humberto Tobé é pós-graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.
Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.





