Síndrome de fim de ano: esgotamento físico e emocional

O fim de ano simboliza o fechamento de um ciclo, quando,  num curto período de tempo, fazemos a leitura de tudo que vivemos nos últimos 12 meses e idealizamos resolver problemas pessoais e profissionais, pendências, de forma a nos organizarmos para o próximo ano.

As festas de fim de ano representam um tempo limite para o encerramento de uma etapa que traz consigo desgastes físicos e emocionais, que geram aumento significativo do quadro de ansiedade, depressão e estresse, de forma geral.

A síndrome de fim de ano, também conhecida como “Dezembrite”, tem crescido muito entre a população, pois assim como o fim do ano representa alegria, conquistas e comemorações, também pode trazer tristeza, frustração, decepção, entre outros sentimentos, que interferem diretamente no desempenho pessoal e na qualidade de vida.

Por isso, é importante estar atento aos sinais que o nosso corpo e nossa mente vêm nos dando sobre as pressões e expectativas que criamos no fim do ano, de que precisamos encerrar esse ciclo com sucesso e suprir todas as expectativas próprias e também do outro.

É importante destacar que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país que mais sofre com ansiedade, sendo esse um dos sintomas mais presentes nessa época do ano.

A ansiedade se apresenta com sintomas como irritabilidade, falta de ar, palpitação,  náuseas, dores de cabeça, pensamentos acelerados, atitudes compulsivas, angústia, entre outros, que interferem diretamente no cotidiano. Diante de tais sinais, precisamos estar atentos para que o quadro de ansiedade não avance para um quadro depressivo e/ou, no contexto de trabalho, para a Síndrome de Burnout.

A Síndrome de Burnout não é exatamente uma doença, mas uma alteração psicológica que está relacionada com a exaustão física e mental, e pode ser desenvolvida por estresse crônico, tensão emocional, problemas no trabalho, excesso de obrigações e questões familiares. Seus principais sintomas são: cansaço excessivo, dores de cabeça frequentes, fadiga e dores musculares, pressão alta e alteração dos batimentos cardíacos, alteração de apetite, perda na produtividade e alteração de sono.

Diante disso é importante estar atento aos sinais que o corpo vai dando de que algo não está bem. Não é um mês ou uma época do ano que vai nos dizer se alcançamos ou não nossos objetivos, mas a forma como vivemos cada etapa, e como nos sentimos ao longo de cada conquista.

Por isso, estipule pequenas metas, priorize sua saúde, pratique atividade física e busque ajuda profissional ao perceber sinais que têm interferido em seu bem-estar, pois nossa saúde é um bem precioso e precisamos colocá-la como prioridade.

 

Aline Tayná de Carvalho Barbosa Rodrigues é psicóloga escolar no Instituto Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP).




E sua ideia, deu match?

 

A transformação de ideias abstratas em formas tangíveis é uma etapa essencial no processo criativo. Em suma, as ideias são a matéria-prima da criatividade. Portanto, pergunto: como você se conecta com suas ideias?

Antigamente, diziam: quem casa quer casa. No entanto, em tempos nômades, digitais, com mobilidade em ascensão, surge a indagação. Queremos casa? Queremos casar? No campo dos relacionamentos afetivos, as perguntas são um fato, desafiando visivelmente o coração de quem ama.

Estamos dispostos a descobrir e expressar nossa forma de viver com o outro. Mas e quanto à nossa relação com nossas ideias, com nossos pensamentos? Como anda esse vínculo entre você e a fonte de sua criatividade?

Existe espaço para compromisso? Você e suas ideias querem uma casa, ou preferem ter experiências por aí? Entraram em um relacionamento sério ou ficarão disponíveis em aplicativos, imersos no mundo virtual? Essas são decisões que frequentemente adiamos. Adiar, deixar para depois, é comum em escolhas importantes e com pessoas próximas, presenças garantidas.

Dada a proximidade que cada um tem consigo mesmo, o que é sem dúvida importante, frequentemente deixamos nosso relacionamento com os nossos pensamentos de lado, saindo pelo mundo resolvendo problemas e construindo castelos onde moram pensamentos alheios. Estamos ocupados, certamente, mas por quem? Qual ideia faz morada em nossos dias?

Atualmente, há um fluxo de informação confundido com o fluxo de ideias. No entanto, há diferenças que podem desfazer essa confusão. A principal é o afeto. Você ama uma ideia e utiliza uma informação. Podemos rolar a tela no celular, transitando de uma informação para outra com facilidade. No entanto, diante dos fatos verdadeiros sobre filhos, amigos e questões que nos importam, nos demoramos, comentamos, ponderamos, cuidamos… Isso é amor, e fica impossível rolar a tela.

Amar as próprias ideias é atravessar esse portal do afeto. Quando amamos alguém, temos a obrigação de educar esse sentimento, não cedendo a todos os desejos, mas também sem negligenciar, cuidando afetuosamente e ao mesmo tempo com responsabilidade. As ideias frequentemente são ricas, profundas, abundantes, até brilhantes; outras são tolas, desvairadas, abusivas, ilusórias, mas todas essas características exigem que sejamos responsáveis e conscientes do nosso relacionamento com elas.

Entendendo que uma lâmpada que se acende revela coisas que não víamos antes, cria sombras e pode ser intensa demais a ponto de cegar; tocar no interruptor é uma decisão que demanda atenção e tempo.

Ao amar e educar as próprias ideias, você valoriza a criatividade não apenas em momentos de crise ou paixões, mas a incorpora no dia a dia, como uma habilidade constante e treinável. Isso assusta? Claro que sim. Contudo, da mesma forma que não saímos casando com quem não conhecemos, é melhor levar sua ideia para passear primeiro, verificar se “dá match”, como dizem, e seguir para as próximas decisões. Se terão uma “casa” ou não dependerá do relacionamento. Bons passeios!

Thais Boulanger, mestre em artes e autora de Para Você, Criativo (Hanoi Editora)




O músico

 

A música tem a capacidade de motivar, alegrar, emocionar, despertar sentimentos, abrir a caixa das lembranças. A música reúne, provoca risos, e acompanha o choro.

A música faz com que as pessoas possam abrir os seus corações para o sagrado, aproxima a alma de Deus. Através da sua beleza podemos “tocar o céu”!

Mas a música nada poderia fazer por si. Ela precisa ser composta, arranjada, pensada, sonhada. Posso dizer que ela precisa ser gestada sem tempo definido para o seu nascimento. E, depois que ela nasce, aí sim o trabalho começa, porque ela vai precisar de instrumentos, pautas, batutas, vozes. E, principalmente, de sentimentos que existiam antes mesmo dela provocá-los.

Assim, é fundamental um coração que a intérprete e uma alma que faça a experiência com ela., para então, após todo esse trabalho, ser apresentada, apreciada. E quem trabalhou tanto, corre o risco de nem ser lembrado…

Fico pensando, se a música fosse uma pessoa, quanta gratidão traria por aquele que a fez acontecer, aparecer, soar. A esse que podemos chamar de músico! Aquele que dá vida à música, afinal não existe música sem músico. Hoje é dia da música agradecer o músico!

Mas essa relação entre músico e música vai além de agradecimento,. é uma relação de vida. A música é o presente do músico e vice e versa, um sempre estará unido ao outro. O que então a música faz para o músico nessa relação tão intrínseca? A música torna o músico um ídolo, uma referência, faz com que ele ultrapasse seus limites, aprenda algo novo a cada dia. Leva o músico aos grandes palcos, aos mais belos eventos, a viajar o mundo, a ver olhos brilharem, os corações vivos, a alegria contagiante diante de poucas ou milhares de pessoas, às vezes, até mesmo sozinho.

A música é dom, e dom é presente de Deus, irrevogável. O Dom vem em virtude de uma missão. E a missão do músico cristão é revelar a beleza de Deus através da sua música. Por isso, a música tem tanto poder, pois, através dela, Deus alcança profundamente os corações e atinge lugares que as palavras já não têm acesso. E revelando Deus, o músico multiplica seu dom!

Já em mãos erradas, a música pode fazer um estrago imenso! Por isso, o músico precisa sempre cantar como se fosse a última canção da sua vida, uma oportunidade de por as pessoas no colo de Deus, para receber seus carinhos.

Muito mais que uma profissão ou “passa tempo”, ser músico é uma missão! Ele está sempre em guerra contra as coisas ruins da vida, as realidades que desmotivam. Os acordes, as notas, saem sempre com uma missão, e não retornam mais, pois encontram ouvidos e corações.

Nessa missão, o coração do músico se expressa nas notas agudas, nas distorções, nos graves acentuados, nas batidas marcantes, nas notas longas ou riffs intensos, nos melismas, nas apogiaturas. Poucos sabem como um músico sai do palco, após uma apresentação. Lá ele entrega tudo e, às vezes, as horas e horas de ensaio, os anos de estudo, uma vida dedicada, as lágrimas, os sorrisos, os esforços, tudo se esgota em uma apresentação de cinco minutos. Em raros casos, duram um pouco mais. E, quando a música acaba, resta o som dos aplausos ou o silêncio de um quarto. Tudo muito intenso!

Se a música pudesse agradecer ainda mais, talvez ela diria: Obrigado músico por me fazer existir, entender minha métrica, meus compassos, por me enxergar e seguir nas linhas de uma pauta. Obrigado pelas nuances, pelas pausas, pelos ataques e pelas fermatas. Obrigado por mesmo nos momentos difíceis onde eu não sou tão aplaudida, você continua firme no seu propósito. Obrigado por me reinventar, criar um arranjo novo.

Obrigado músico, por me dar a oportunidade de fazer aquilo para o qual eu fui criada.

Dia 22 de novembro, dia do mundo parar para agradecer a Deus pela vida dos seus soldados valentes, que enfrentam duras batalhas com a sua poderosa arma: a música. Parabéns músico!

André Florêncio é músico e missionário da Comunidade Canção Nova

 




O Brasil tem capacidade de combater o terrorismo?

 

Essa é uma pergunta que suscita reflexões sobre as medidas e estratégias adotadas para enfrentar essa ameaça global. Neste cenário, é fundamental destacar a importância da cooperação internacional como um pilar fundamental na luta contra o terrorismo, assegurando a integridade e a segurança da nação. Através dessa colaboração, fortalecemos nossa capacidade de prevenir, investigar e neutralizar ameaças.

Nosso país tem demonstrado uma resistência efetiva a essas ameaças, construída por meio da união de esforços com agências de segurança de diversos países ao redor do mundo. A cooperação internacional, protagonizada pela Interpol e pela Polícia Federal, revela-se crucial no monitoramento de organizações extremistas e na troca de informações vitais. Essa colaboração, representando uma verdadeira força-tarefa, possibilita rastrear suspeitos e potencializa investigações.

No tabuleiro da segurança nacional, é crucial impedir que o terrorismo ganhe terreno e se estabeleça em nosso território, proliferando como facções criminosas. A rede de cooperação internacional se torna, assim, a base sólida sobre a qual repousa a nossa luta contra o terrorismo.

A espinha dorsal dessa estratégia reside em investimentos robustos em nossa polícia judiciária. Fortalecer e capacitar nossas forças policiais é crucial, proporcionando recursos e treinamentos adequados para enfrentar essa ameaça com eficácia. A segurança é um compromisso inabalável, e não podemos permitir que a negligência prevaleça.

Manter um monitoramento incansável, sem baixar a guarda, é uma obrigação para proteger nossa nação. Estamos vivendo em um mundo interconectado, onde as fronteiras não são barreiras para o terrorismo. Portanto, o controle e o monitoramento constantes são os verdadeiros guardiões da segurança do Brasil.

 

Raquel Gallinati, é delegada de polícia, diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil mestre em Filosofia, Ppós-graduada em Ciências Penais, Direito de Polícia Judiciária e Processo Penal.




Mulheres no comando: cooperativismo e ampliação do acesso ao crédito 

 

 

 

 

O Prêmio Nobel de Economia foi concedido a mulheres apenas três vezes, a última delas em 2023. Para receber o prêmio, a professora Claudia Goldin, da Universidade de Harvard, estudou a situação feminina no mercado de trabalho, debruçando-se em mais de 200 anos de história. Das extenuantes jornadas nas lides agrícolas do século 18 até as primeiras duas décadas dos anos 2000, as transformações na atuação feminina têm sido significativas. No início do século 20, as mulheres já eram mais escolarizadas do que os homens. Hoje, a cadeira almejada por elas nas empresas é a de presidente, e não mais um papel predestinado como auxiliar. Mas quantas grandes mulheres ficaram à sombra da história?

No Brasil, as mulheres foram autorizadas a ingressar em colégios para estudar além da escola primária em 1827. O direito ao voto só viria em 1932. Em 2023, apesar de representarem 52% do eleitorado, apenas 12% delas comandam prefeituras, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O mundo corporativo, ao contrário das hostes políticas, começa a delinear um cenário mais promissor. De acordo com o Panorama Mulheres 2023, um estudo realizado pelo Talenses Group e Insper, as mulheres representam 17% das CEOs em empresas brasileiras. Em 2017, elas eram 8%. De modo geral,  a pesquisa indica que a presença feminina conquista duas vezes mais espaço em todos os cargos de liderança quando a presidência das organizações é ocupada por uma mulher.

Uma busca rápida na internet é suficiente para encontrar inúmeros estudos que atestam a eficiência das empresas com liderança feminina. Nesses levantamentos, termos como “inclusão”, “diversidade” e “empatia” tendem a se incorporar pouco a pouco ao DNA de pequenas, médias e gigantescas companhias geridas por mulheres.

Com mais executivas à frente dos negócios, as instituições financeiras têm visto um nicho não apenas inclusivo, mas também um expressivo retorno financeiro. Por essa razão, elas vêm ampliando os investimentos em empresas com gestão feminina.

O Sicredi, uma instituição financeira cooperativa com mais de 7 milhões de associados e presença em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal, captou internacionalmente US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões) para destinar a micro, pequenas e médias empresas brasileiras lideradas por mulheres. A iniciativa inclui o fator gênero como critério para o uso dos recursos que foram mobilizados pela International Finance Corporation (IFC), membro do Grupo Banco Mundial, com participação do BNP Paribas e Sumitomo Mitsui Banking Corporation (SMBC).

Na linha de atuação que valoriza as lideranças femininas no Brasil, o Sicredi recebeu o “Título Sustentável do Ano” pelo Global SME Finance Awards 2023. A instituição também conquistou menção honrosa como “Melhor Financiador para Mulheres Empreendedoras”.

As conquistas das mulheres, em todos os âmbitos, foram árduas e não serão menos difíceis daqui para frente. Os passos a serem dados são incontáveis, mas as mulheres estão trilhando um caminho inclusivo, capaz de igualar oportunidades com mais humanidade.

Marcia Helfenstein Koch é diretora-executiva da Sicredi Iguaçu PR/SC/SP.

 




Tecnologia: o uso excessivo e os impactos na saúde mental

 

Pesquisas norte-americanas recentes revelam o quão solitários os americanos se sentem, tendo como prevalência os jovens, que tiveram o tempo de qualidade em suas relações, com amigos e colegas, reduzido por mais de 50%.

Outro estudo, lançado em 2021, sobre o tempo de exposição a telas, de crianças e adolescentes, revelam que o Brasil está em terceiro lugar no ranking dos países que mais utilizam celular ou dispositivos eletrônicos, passando até nove horas diárias consumindo conteúdos pela internet.

Considerando que podemos resolver muitas coisas virtualmente, sem precisar sair de casa, temos poucas motivações para sair do conforto e segurança do lar. Desta forma, temos cada vez mais homens e mulheres, jovens e crianças, com poucas interações sociais e maior isolamento. A pandemia acelerou um processo natural que já vinha acontecendo, e assim, este fenômeno tecnológico foi potencializado.

A vida já estava sendo desenhada para favorecer o isolamento, mas esse caminho não era apresentado como isolamento, mas como privacidade, como algo bom. Porém, a privacidade não pode levar ao isolamento.

Perguntemos para nossos avós, como era a convivência com a vizinhança na época em que eram crianças? Como viviam, brincavam, e como os nossos bisavós viviam? Precisamos resgatar os bons exemplos! A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, sem dúvidas, mas é preciso saber usá-la sem que nos adoeça.

Quanto mais tempo na internet, menos tempo presencialmente teremos com as pessoas e, automaticamente, mais chances de nos sentirmos solitários. Afinal, existe uma diferença muito grande entre o virtual e o real!

As alterações neuroquímicas provocadas pela internet, especialmente pelas mídias sociais, são semelhantes às de uma pessoa que possui um vício, nunca fica satisfeita, sempre quer mais e mais. Nessa busca por mais, muitos caem no vazio, na depressão, sofrem por não conseguir lidar com pequenas frustrações e, às vezes, atentam contra a própria vida.

É como se entrasse em uma roda gigante, onde não se sabe mais o início e o fim dela, pois a busca pelo prazer e realização na internet vai levando ao isolamento, que gera um buraco dentro do peito, que sufoca a ponto de perder o sentido da vida. Repito: Não é que devamos parar de usar a internet e a tecnologia! Afinal de contas, se você está lendo este texto neste momento é graças a essa tecnologia que te alcança, com esse grande benefício. 

Porém, não se pode fechar os olhos para os malefícios de algo vivido de forma desordenada. Faça as seguintes perguntas a você neste momento: Tenho me sentido sozinho(a), mesmo tendo muitas pessoas ao meu redor? Quanto tempo tenho passado na internet? Esse tempo tem me privado de fazer algo importante, de conviver com pessoas que amo? Quando estou em uma roda de conversa, em uma festa, ou até mesmo em casa, com minha família, estou inteiro (a) ou divido minha atenção com a tela mais próxima? Quantas vezes saio de casa durante a semana? Quanto tempo me exponho ao ar livre? Qual foi a última vez que me senti feliz? 

Perguntas “fáceis” que precisam ser respondidas de tempo em tempo, com o objetivo de nos mover para uma vida ativa e rica de sentido, e não uma vida enjaulada dentro de um aparelho em uma casa fria e vazia. Mas atenção! Se você já se percebe com uma dor no peito que parece não ter fim e, mesmo estando rodeado de pessoas, se sente sozinho e não sabe por onde começar para mudar a sua história, procure ajuda! Você não precisa passar por isso sozinho, e nem deve ter vergonha de recorrer a alguém próximo ou a um profissional da área da saúde que possa ajudar.
Viva a alegria de uma vida na verdade!

Aline Rodrigues é psicóloga, especialista em saúde mental, e missionária da Comunidade Canção Nova. Atua com Terapia Cognitiva Comportamental, no campo acadêmico, clínico e empresarial.




Império da impunidade: fraudes em investimentos sugam um sexto do PIB brasileiro 

 

Na era digital, a democratização dos investimentos tem sido uma das marcas do século XXI. A disponibilidade de variados produtos financeiros, como as criptomoedas e as ações, está em ascensão. A barreira de entrada para novos investidores nunca foi tão baixa. No entanto, essa mesma acessibilidade criou uma arena perfeita para fraudadores que prometem altos retornos em curto prazo, mas que na realidade causam perdas significativas aos investidores. 

Os números que cercam este universo de fraudes em investimentos impressionam. De acordo com pesquisas da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o número de brasileiros afetados por investimentos fraudulentos passou de 11%, em 2019, para 13,9%, em 2021, representando um aumento de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas em um único ano. Além disso, um estudo revelador do Instituto de Proteção e Gestão do Empreendedorismo e Relações de Consumo (IPGE) identificou que mais de 1.300 empresas de investimento fraudulentas estão operando no Brasil, coletando aproximadamente R$ 1,07 trilhão nos últimos cinco anos. Para se ter uma ideia da magnitude desse valor, ele equivale a um sexto do Produto Interno Bruto (PIB) do país. 

Se o gigantismo representado por esses dados já choca, o que nos alarma mais é a resposta das autoridades diante desse problema, que ainda tem sido tímida. Entre 2018 e 2022, menos de 60 medidas assecuratórias foram implementadas pela Polícia Federal e polícias estaduais, criando um ambiente propício para o florescimento dessas atividades ilegais. Essa aparente inércia gera uma preocupante sensação de impunidade e que, somada à baixa barreira para entrada de novos investidores, alimenta ainda mais os esquemas fraudulentos. O cenário se complica quando esses fraudadores transferem recursos para contas no exterior, tornando a recuperação dos ativos uma missão quase impossível. 

A complexidade e a lentidão do sistema judicial brasileiro também contribuem para a desistência das vítimas em buscar reparação. Perceba: a mesma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil indica que tão somente 31% das vítimas conseguiram recuperar parte do seu investimento. Deste grupo, apenas 14% o fizeram com prejuízo, e menos de 10% conseguiram recorrer à justiça para tal. A estigmatização social e o desconhecimento sobre o funcionamento do sistema judicial são outros fatores que desencorajam as vítimas e, como resultado, encorajam ainda mais os mentores e operadores de golpes. 

Estamos diante de um cenário desafiador. Se existe interesse em muda-lo, é fundamental que haja uma ação coordenada de todos os setores da sociedade, que começa com iniciativas de educação financeira, de modo que cada brasileiro busque informações e entenda minimamente como funciona os investimentos e suas peculiaridades, passando pelo legislativo e órgãos regulatórios do sistema financeiro, chegando às autoridades policiais e ao judiciário, que necessita endurecer as penas para coibir ou ao menos desencorajar que fraudadores surjam e criem seus impérios com tantas vítimas. 

A impunidade não pode ser o status quo em um país onde milhões de pessoas estão vulneráveis a serem as próximas vítimas. É hora de colocar um fim a esse império da impunidade e restabelecer a confiança na justiça brasileira. 

Jorge Calazans é advogado criminalista, sócio do escritório Calazans e Vieira Dias e especialista na defesa de investidores vítimas de fraudes financeiras 

 




O privilégio de ser casal

Casei-me e tornei-me mãe na década de 1990. Naquela época, ser mãe solteira já era socialmente aceitável e, se intencional, até bem-visto. Era a tal “produção independente”. Ainda assim, reconhecia-se a vantagem de criar filhos com um marido – o que nem sempre é possível. Portanto, era comum me perguntarem como havia conhecido meu marido. Respondia com minha versão da tradicional piada misógina: “Fiz Engenharia. Mas não funcionou. Já estava apelando para o doutorado em Engenharia, quando, finalmente, encontrei um marido! Agora eu posso estudar História…”

É claro que não era essa a intenção quando escolhi minha carreira. Brincadeiras à parte, eu realmente tive sorte de conhecer alguém para casar, capaz de compreender e apoiar minhas escolhas. Afinal, um número crescente de mulheres tem enfrentado uma escassez de “homens casáveis”. Essa é a expressão que a economista americana Melissa S. Kearney usa para se referir aos homens incapazes de contribuírem para a economia da família.  No livro “The Two-Parent Privilege” [O privilégio da dupla parentalide], ela mostra evidências de que, nos EUA, os rendimentos das esposas não costumam ultrapassar os dos maridos e, quando o fazem, há uma maior chance de divórcios.

Ao mesmo tempo em que as normas de gênero tradicionais continuam válidas, a maior escolaridade das mulheres fez com que elas pudessem se tornar economicamente independentes. O resultado é que elas têm menos incentivos econômicos para se casar. Consequentemente, mais crianças crescem em famílias monoparentais.

Fiquei surpresa com a similaridade entre os casos americano e brasileiro no que ser refere à relação entre diploma universitário e casamento. Apesar das diferenças culturais e econômicas, em ambos os países o casamento tornou-se mais comum entre as pessoas com maior instrução e, portanto, mais ricas. De acordo com o Censo Brasileiro de 2010, 83% da população com ensino superior era casada, enquanto apenas 66% das pessoas com nível inferior ao ensino médio eram oficialmente casadas. Kearney mostra que, para os EUA, os números são ligeiramente acima de 70% para indivíduos com diploma universitário e abaixo de 60% para indivíduos sem diploma universitário. Portanto, o que escrevi sobre o meu país também se aplica aos EUA: “Pessoas educadas oficializam suas uniões”.

No entanto, uma distinção intrigante me ocorreu ao ler o livro de Kearney. Ela afirma que “quando as pessoas experimentam um aumento na renda ou na riqueza, elas tendem a ter mais filhos”. Os dados do Brasil mostram uma realidade diferente: a presença de filhos é inversa à renda familiar. Enquanto a maioria (69%) das famílias mais pobres são casais com filhos, apenas uma pequena parcela (6%) é de casais sem filhos. Em contrapartida, entre a classe mais rica, 44% são casais com filhos e 37% sem filhos. Portanto, no Brasil, quanto mais rico você for, maiores serão suas chances de casar e ter menos ou nenhum filho.

Olhando para meus filhos se transformando em adultos, não posso deixar de pensar em como eles são privilegiados por terem sido criados por ambos os pais. E quando olho para tudo que meu marido e eu construímos juntos, percebo o privilégio que é fazer parte de um casal. O paralelo entre os dois países tende a confirmar a tese do “privilégio dos dois pais”. Além disso, chama a atenção para os benefícios de viver junto como casal, mesmo que não seja pai ou mãe. Ser casal é um privilégio, mesmo sem filhos.

Marcia Esteves Agostinho é Doutoranda em História das Emoções e autora do livro Por Que Casamos (ed. Almedina Brasil).




O novo capítulo de um velho conflito

Na manhã de sábado, dia 7 de outubro, combatentes do Hamas lançaram um ataque sem precedentes contra Israel. Nas primeiras horas do conflito, mais de 5 mil foguetes e bombas haviam sido lançados contra alvos israelenses,resultando na morte e captura de dezenas de civis. Esse movimento inédito em termos de força, armamento e coordenação já deixou marcas profundas no Oriente Médio e na geopolítica. 

O Hamas é um grupo político e militar palestino que surgiu na década de 1980. Seu nome é uma abreviação de “Movimento de Resistência Islâmica” em árabe (Harakat al-Muqawama al-Islamiya). O grupo foi criado durante a Primeira Intifada, um levante palestino contra a ocupação israelense nos territórios palestinos. O Hamas tem uma natureza complexa, pois atua tanto como organização política como grupo armado.

Uma de suas principais características é a resistência armada contra Israel, utilizando táticas como atentados suicidas, lançamento de foguetes e confrontos militares. Ao mesmo tempo, o Hamas também participa de eleições políticas. Em 2006, o grupo venceu as eleições legislativas na Faixa de Gaza – o que levou a uma divisão entre o Hamas e a Autoridade Palestina, liderada pela Fatah. Isso resultou em conflitos internos e na tomada de controle do Hamas na Faixa de Gaza em 2007. Desde então, Israel considera o Hamas uma organização terrorista, enquanto alguns países e analistas destacam a complexidade da situação, argumentando que o grupo tem uma base popular significativa na região.

No sábado, dia 7 de outubro, exatamente 50 anos e um dia após a guerra do Yom Kippur – em que uma coalizão de países árabes liderados por Egito e Síria invadiu Israel. Nesse episódio, combatentes do Hamas invadiram dezenas de lugares em Israel, desencadeando o ataque mais grave da última geração. Civis foram alvejados e feitos reféns. Horas depois, Israel respondeu com ataques aéreos em várias regiões da Faixa de Gaza. 

Ainda que esse ataque seja sem precedentes, o conflito entre israelenses e palestinos pela região é bastante antigo, remontando ao final do século XIX e início do século XX. Nesse período, houve um aumento do movimento sionista, que buscava estabelecer um lar nacional judeu na Palestina, então parte do Império Otomano. A Declaração de Balfour, emitida pelo Reino Unido durante a Primeira Guerra Mundial em 1917, expressou o apoio britânico à criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.

Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, o movimento sionista ganhou mais força, e, em 1947,  a ONU propôs a partilha da Palestina em um estado judeu e um estado árabe . A criação do Estado de Israel em 1948 provocou uma guerra entre os estados árabes e Israel. Israel emergiu vitorioso e ampliou seu território, enquanto muitos palestinos se tornaram refugiados. Desde então, houve vários conflitos na região, incluindo guerras, intifadas e confrontos, alimentando a contínua disputa pelo território.

O que estamos testemunhando agora é um capítulo sem precedentes desse conflito antigo: o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, lançou a operação “Espadas de Ferro”, declarando guerra em resposta imediata à incursão do Hamas. Até o momento, mais de 300 mil reservistas israelenses foram convocados – o que também é inédito. Em resposta aos mais de 700 israelenses mortos, o governo de Israel pediu que os moradores da Faixa de Gaza deixem suas casas. Embora a geografia da região seja um complicador, não se descarta uma ação militar israelense em terra na Faixa de Gaza. Os serviços de água, telefonia e energia estão suspensos na região, assim como o envio de alimentos e combustíveis. 

No início desta semana, os mercados repercutem os assustadores ataques de sábado e a incerteza geopolítica do momento. O preço do petróleo está em alta, assim como a volatilidade do mercado energético. Em um momento de inflação elevada, projeta-se um aumento ainda maior nos preços em geral – especialmente em virtude de um possível aumento duradouro no preço do petróleo. 

Outro questionamento frequente após o ataque de sábado é sobre a preparação e o armamento do Hamas. Quem teria armado o grupo e auxiliado na coordenação das ações militares? Enquanto muitos analistas apontam para o Irã, o regime de Teerã nega qualquer envolvimento. Os serviços de inteligência e segurança de Israel também afirmam ainda que há militantes do Hamas infiltrados em seu território, o que indica que a luta continuará nas próximas semanas. 

Certamente, a resposta israelense será bastante forte, aumentando não apenas a tensão no Oriente Médio, mas também as incertezas geopolíticas globais. Deve-se ressaltar que qualquer esforço de guerra continuado por parte de Israel terá impactos até mesmo em Kiev. Afinal, o fornecimento ocidental de armas, que até o momento vinha servindo à Ucrânia, seria dividido com Tel-Aviv.  

João Alfredo Lopes Nyegray é doutor e mestre em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Coordenador do curso de Comércio Exterior e do Observatório Global da Universidade Positivo (UP). Instagram: @janyegray

 




Cannabis medicinal, individualização da prescrição e suas vantagens terapêuticas

 

Um recente estudo do Datafolha revelou que a sociedade brasileira vê com bons olhos as vantagens terapêuticas da cannabis medicinal. De acordo com a pesquisa, 76% são a favor, e 22% contra. Entretanto, apenas 1% da população amostrada  afirma estar usando no momento algum medicamento à base de cannabis e 2% já o fizeram. Ou seja, 97% nunca recorreram a preparados com canabidiol (CBD), tetra-hidrocanabinol (THC) e outros componentes da planta, que vêm sendo receitados para o tratamento de diversas enfermidades que provocam dores crônicas, doenças neurológicas, artrites e até alguns tipos de câncer.

Apesar disso, é alto o grau de informação relatado a respeito da maconha medicinal. Um total de 85% declarou ter certo conhecimento sobre o assunto, com 32% dizendo estar bem informados, 42% mais ou menos e 11% mal informados. Outros 13% afirmaram desconhecer o tema completamente, e 2% preferiram não opinar. O Datafolha entrevistou 2.016 maiores de 16 anos, nos dias 12 e 13 de setembro, em 139 municípios de todo o Brasil. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Ainda segundo o estudo, 2 de 3 brasileiros (67%) defendem autorizar o plantio de cannabis para produzir remédios no Brasil. O uso medicinal da cannabis vem crescendo diariamente, mas, como o cultivo para obter matéria-prima de uso farmacológico é proibido no país, é necessário recorrer à importação, através de empresas especializadas ou por meio individual.

Em 2015, uma resolução colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a RDC 17/2015, liberou a importação de medicamentos à base de canabidiol em caráter excepcional, a partir de prescrição médica. De acordo com dados da Anvisa, já foram emitidas mais de 235 mil autorizações para importação de produtos medicinais derivados da cannabis.

Somente no primeiro semestre de 2023, foram mais de 80 mil. Esses são pedidos direcionados para o tratamento de diversas enfermidades, como, por exemplo, Alzheimer, Parkinson, depressão, autismo e epilepsia

As farmácias de varejo no Brasil oferecem uma série de produtos à base de cannabis, com alto custo e com uma efetividade relativa. Isso porque a prescrição para os tratamentos das doenças com cannabis medicinal precisa ser mais individualizada.

Nesse contexto científico, técnico, qualitativo e de efetividade do fármaco é que se destacam e se inserem as farmácias de manipulação. Diversos pareceres técnicos sobre o uso da cannabis medicinal no Brasil corroboram a tese de que a individualização da medicação é crucial para o sucesso terapêutico e adesão do paciente ao tratamento.

Os profissionais das farmácias de manipulação estão preparados para atuar nesse segmento. Observa-se, com a vivência dos últimos anos, por exemplo, que muitos pacientes não se adaptam apenas com o CBD (Canabidiol) isolado, e precisam ser tratados com doses de THC (Tetrahidrocanabidiol), ativo que responde pela sensação psicoativa da planta. Juntos, os ativos presentes na cannabis produzem o chamado efeito comitiva, ou seja, atuam como uma equipe, de forma a entregar o resultado de melhora no quadro clínico dos pacientes.

Importante destacar também que o efeito está nas várias combinações dos canabinoides da planta, como por exemplo, nos dois mais conhecidos, o tetra-tetraidrocanabinol (THC)  e o canabidiol (CBD) que separados, mostram uma proporção de 50% de seus efeitos máximos, mas juntos, são 10 vezes mais potentes, segundo um estudo fitofarmacêutico. Nesse cenário, diferentes pacientes respondem a doses de CBD/THC variadas, de acordo com as particularidades de cada organismo humano.

Assim, na maioria dos casos os médicos devem realizar o chamado “ajuste de dosagem”, algo especialmente importante no tratamento com cannabis, a depender de cada caso e correspondente tratamento para que a cannabis tenha o efeito e a resposta esperada.

Portanto, as farmácias de manipulação se tornam ainda mais relevantes, pois possuem a capacidade técnica para manipular qualquer dose prescrita pelo médico e, assim, produzir o medicamento adequado em tempo muito curto, auxiliando imensamente o médico prescritor na jornada de definir a dose ideal para cada indivíduo.

 

Danielle Gitti é Diretora Presidente da Farmacann – Associação para Promoção da Cannabis Medicinal Manipulada/Magistral