Qualidade versus quantidade: o dilema dos novos médicos no Brasil

 

 

Em agosto, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu vista e suspendeu o julgamento que discute critérios para abertura de novos cursos privados de medicina. Um dos temas controversos no universo da saúde brasileira: de um lado alega-se que existe a necessidade da formação de médicos que atuem em cidades mais distantes das capitais. De outro, estão os conselhos médicos que são contrários a novos cursos, em razão da necessidade de controlar a qualidade na formação de novos profissionais. Não é demais lembrar que há muitos interesses econômicos envolvendo a abertura de novos cursos particulares. Enfim, mais um dilema brasileiro que foi parar nas Cortes Superiores do Judiciário.

A discussão no Supremo é sobre um dispositivo da lei do Programa Mais Médicos que condiciona a criação de novas graduações a um chamamento público que direciona os cursos a determinados municípios, com base em critérios dos ministérios da Saúde e da Educação.  Esse dispositivo é questionado pela Associação Nacional das Universidades Particulares que discute se é constitucional a previsão de requisitos para a abertura de novos cursos na área.

O relator, Gilmar Mendes, discordou do argumento e votou para validar a regra do Mais Médicos. Na visão do ministro, a sistemática do chamamento público é adequada para a estruturação de políticas públicas. O ministro também determinou que devem ser suspensos os processos administrativos para criação de novos cursos que ainda não passaram da primeira etapa de análise dos documentos.  No caso daqueles que já superaram essa fase, Gilmar apontou que a análise técnica deverá observar se os municípios que receberão a oferta de vagas cumprem as exigências do programa. Os cursos de medicina já instalados deverão ser mantidos, de acordo com o ministro.

O ministro Edson Fachin divergiu em seu voto e ponderou que a manutenção dos processos administrativos em curso sem chamamento público esvaziará o interesse de instituições a se submeter aos requisitos do Mais Médicos, cujo objetivo é reduzir desigualdades na área de saúde. Os dois ministros só discordaram em um ponto: a continuidade dos processos pendentes que pedem autorização para abertura de novo curso de medicina. Para Gilmar, essas ações devem continuar tramitando. Fachin entende que todos os processos devem ser suspensos. Enfim, por enquanto, sem definição.

Apontam os números divulgados pelo CFM que existem 389 escolas médicas em atividade no Brasil, distribuídas em quase 250 municípios, as quais, juntas, oferecem cerca de 40 mil vagas por ano. Desse total de cursos, 42,9% (167) foram criados nos últimos dez anos, sendo que 53,4% (208) estão no Sul e no Sudeste e 81,1% (315) em capitais e municípios de grande porte.

Levantamento do CFM aponta que mais de 90% dessas instituições de ensino estão em municípios com déficit em parâmetros considerados essenciais para o funcionamento dos cursos. Ou seja, são localidades que não contam com número suficiente de leitos de internação, de equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) ou hospitais de ensino, entre outros itens.

Vale contextualizar que o Brasil teve um salto, nos últimos anos, no número de médicos e hoje cerca de 545,4 mil profissionais estão em atividade no país. Ou seja, são 2,56 profissionais para cada mil habitantes. Um bom número que aproxima o Brasil de índices de outros países, como os Estados Unidos.

O aumento no número de médicos acompanhou o crescimento de escolas médicas e de vagas na última década. Em 2010, a proporção de médicos por mil habitantes era de 1,76 e havia 343,7 mil registros de médicos no país – em 2022, os registros subiram para quase 600 mil (há médico que faz mais de um registro para atuar em estados diferentes). De acordo com o CFM, como os médicos têm uma vida profissional longa (cerca de 43 anos), alguns estudos já estimam que o Brasil deve alcançar quase 837 mil médicos em cinco anos.

Entretanto, o mesmo estudo confirma a desigualdade na distribuição e na fixação de médicos pelo Brasil: mais de 290 mil médicos estão concentrados nas capitais, atendendo a 24% da população brasileira. Entre as regiões, o Norte é a mais deficitária.

Segundo o levantamento, 62% dos médicos do país atuam nas 49 cidades que possuem mais de 500 mil habitantes. Juntas, elas concentram 32% da população brasileira. Já cerca de 205,5 mil médicos atendem nos outros 5.521 municípios do país ou 68% da população brasileira. Nos 4.890 municípios com até 50 mil habitantes, estão pouco mais de 8% dos profissionais (cerca de 42 mil médicos). Nesses locais, moram 65,8 milhões de pessoas. Em 1.250 municípios menores (de até 5 mil habitantes), há 0,45 médicos para cada mil habitantes.

No recorte do estudo, um número revelador: as 27 capitais brasileiras reúnem 54% dos médicos – uma média de 6,21 médicos por mil habitantes. Já no interior estão 46% dos médicos – 1,72 profissional para cada mil habitantes.

Entre as regiões, de acordo com o CFM, o Sudeste, concentra 58% dos médicos – 3,22 para cada mil habitantes. No Sul, estão 15,7% dos médicos – 2,82/mil habitantes. No Nordeste, estão 18,5% dos médicos – 1,75/mil habitantes. No Centro-Oeste, estão 8,4% dos médicos – 2,74/mil habitantes. E no Norte, estão 4,6% dos médicos – 1,34/mil habitantes.

São diversas as questões que são responsáveis por essa desigualdade na distribuição de profissionais pelo país. A principal é a falta de uma política pública de incentivo à saúde e aos médicos atuarem no interior e em pequenas cidades. Falta infraestrutura, leitos, equipamentos, medicamentos, acesso a exames, entre outros problemas.

A retomada do Mais Médicos nesse Governo Federal pode até ser um caminho para reduzir as carências e diferenças regionais, mas seria importante que médicos fossem avaliados por um exame semelhante à prova de Exame de Ordem dos Advogados, antes de atuarem em campo.

Atualmente, há o Revalida, Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira. O seu objetivo é avaliar habilidades, competências e conhecimentos necessários para o exercício profissional adequado aos princípios e necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Médicos brasileiros formados em Venezuela, Bolívia, Cuba e Paraguai têm o maior percentual de reprovação na primeira fase do Revalida, prova que reconhece a formação estrangeira para atuação de médicos no Brasil. O levantamento foi feito pela Faculdade de Medicina da USP e pela Associação Médica Brasileira, em complemento ao estudo Demografia Médica no Brasil, do CFM.

A média geral de reprovação foi de 87,3% e mostra um cenário curioso: 84% dos brasileiros que tentaram a primeira etapa do Revalida em 2023 se formaram na Bolívia (44,8% do total) e no Paraguai (39,1%), países que não fazem vestibular para acesso e cobram mensalidades mais baixas. No Brasil cursar Medicina pode custar mais de R$ 10 mil por mês, faculdades na Bolívia, por exemplo, cobram a partir de R$ 700 de um brasileiro. Outro dado relevante é que dos 6.917 brasileiros que fizeram a primeira etapa do Revalida, 6.052 foram eliminados (87,5%). Já entre os estrangeiros, foram 2.265 candidatos, com 1.961 reprovados (86,6%).

Há Projetos de Lei, ainda em análise pelos congressistas, com a proposta de que, para exercer a profissão no Brasil, os médicos terão de ser aprovados em um exame nacional de suficiência em medicina, com provas teórica e prática. Mas, ainda não foi aprovado o texto.

Em 2018, o próprio CREMESP divulgou dados no sentido de que 7 entre cada 10 médicos não sabe identificar um infarto e não apenas esses dados chamaram atenção. Também é necessário verificar o aumento crescente da Judicialização da Medicina, com processos por má prática médica, não apenas em face de médicos recém-formados, evidente, mas, se não houver critérios mínimos para novas faculdades serem abertas, o futuro não será promissor para os novos profissionais tampouco para os pacientes.

A discussão em torno dessas questões é complexa e envolve não envolve apenas aspectos legais, mas também políticas de saúde pública e educação médica. A busca por equilibrar o acesso à saúde em todo o país e a qualidade da formação médica é um desafio constante, com implicações significativas para a população brasileira. A reflexão que fica é: precisamos mesmo de mais escolas médicas?

 

Sandra Franco é consultora jurídica especializada em Direito Médico e da Saúde, doutoranda em Saúde Pública, MBA-FGV em Gestão de Serviços em Saúde, diretora jurídica da Abcis, consultora jurídica da ABORLCCF, especialista em Telemedicina e Proteção de Dados, fundadora e ex-presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB de São José dos Campos (SP) entre 2013 e 2018




Caso Daniel Alves e a multa por “atenuante de reparação de dano causado”

 

Em agosto de 2023, Daniel Alves foi acusado formalmente pela justiça espanhola da prática de agressão sexual contra uma jovem em uma boate na cidade de Barcelona O crime previsto e punido no Código Penal espanhol é equiparado ao crime de estupro, previsto no Código Penal brasileiro.

Um fato novo surgiu recentemente. A defesa de Daniel Alves utilizou uma ferramenta jurídica prevista na legislação penal espanhola para tentar reduzir a pena do jogador. Ele poderá ter a pena máxima reduzida caso seja condenado pelo crime de agressão sexual. Isso porque pagou 150 mil euros (R$ 800 mil) à Justiça da Espanha como indenização por “atenuante de reparação de dano causado”.

Importante ressaltar que, até a presente data, o jogador de futebol continua preso preventivamente, em virtude do alto risco de fuga pelo brasileiro. Isso porque, caso viaje ao Brasil, sua pátria não o extraditará para a Espanha para cumprir eventual condenação penal ou até mesmo responder aos atos da instrução processual penal ainda em trâmite, em virtude do Brasilpaís não extraditar seus cidadãos.

Essa estratégia defensiva visa que o jogador de futebol brasileiro tenha de forma subsidiária, em caso de eventual  condenação, a moldura penal aplicada no caso em concreto reduzida até pela metade da pena a ser fixada em sentença judicial.

Neste caso, a justiça espanhola não prevê a possibilidade de a acusação, ou até mesmo o assistente de acusação, advogado nomeado pela vítima para atuar em paralelo com o Ministério Público com o objetivo de êxito na condenação de Daniel Alves, negar essa transação de reparação do dano causado, que está previsto expressamente no Artigo 21 do Código Penal espanhol.

O Código Penal espanhol prevê expressamente no Artigo 66 que: quando houver apenas uma circunstância atenuante, a pena aplicada será a metade inferior da que define a lei para o delito.

A pena máxima para um caso de agressão sexual na Espanha pode chegar em até 12 anos de prisão, no regime fechado, e em caso de ser reconhecido a atenuante de reparação, com o esse pagamento feito pelo jogador de futebol, a pena pode ser diminuída pela metade. Por exemplo, se Daniel fosse condenado na pena máxima de 12 anos, com a incidência da atenuante da pena, essa pena pode ser fixada em sentença judicial em 6 anos de prisão.

Importante deixar claro que o pagamento dos 150 mil euros não veta a Justiça espanhola de aplicar uma pena superior aos seis anos, caso julgue que há outros agravantes no caso do jogador Daniel Alves.

Neste caso, mesmo que a mulher que acusa Daniel Alves se negue a receber a quantia, a Justiça deve dar ao acusado a chance de pagar a indenização, não sendo uma escolha das partes envolvidas no caso. E se o jogador de futebol for absolvido, o valor da indenização, que fica como se fosse uma espécie de caução – ou seja, vinculado ao processo mas depositado em uma conta em juízo sem a possibilidade da vítima levantar a quantia até o trânsito em julgado – , deve ser devolvido ao jogador brasileiro.

 

Eduardo Maurício é advogado no Brasil, em Portugal e na Hungria.




NOVENA DE APARECIDA

Incrível o bem extraordinário dos meios de Comunicação católicos. A TV Aparecida vem batendo todos os recordes em audiência nas missas e outras solenidades religiosas. Do Brasil de norte a sul a audiência espetacular dessa emissora de televisão está colocando TVs tradicionais em segundo plano. Em dois horários diários a novena de Aparecida vem batendo todos os recordes de audiência a terminar na véspera da festa da Padroeira, a ser comemorada no próximo dia 12. Mesmo assim são milhares de peregrinos a visitar o maior Santuário mariano do mundo, sempre guardadas as exigências prescritas pela saúde pública.

Tive o privilégio de conhecer e receber a visita do fundador da maior TV católica do Brasil a TV Aparecida, o padre Cesar Moreira Miguel com quem trabalhei junto na Rádio Globo quando ele morava em São Paulo. No plano religioso na visita a casa da Mãe a gente se sente como se estivesse na casa de nossa mãe biológica que tanto nos faz falta quando esta já não está mais entre nós. Naquele vale encantado de paz e de bênçãos, você depara de um lado os picos verdejantes da serra da Bocaina e de outro lado os contrafortes azulados da serra da Mantiqueira. Foi neste cenário que a Virgem Maria apareceu para os brasileiros no formato de uma simples imagem negra, encontrada nas águas do rio Paraíba em 1717. Foi o tempo da escravidão, quando afogavam negros no rio.

Nossa Senhora Aparecida é a figura da mãe, a imagem da Virgem Maria, a Imaculada Conceição, a mãe de Jesus, que assim quis se manifestar ao povo brasileiro. Está na bíblia. Foi a pedido da Virgem Maria que Jesus antecipou sua vida pública, realizando o primeiro de seus milagres. Foi em um casamento em Caná da Galiléia. Maria percebeu que os noivos não tinham mais vinho e intercedeu junto a Jesus. Embora respondendo que ainda não havia chegado a sua hora, Ele a atendeu e transformou a água no melhor vinho. Maria se encarrega de levar nossas aflições até Jesus. Para estarmos sempre com Ele ela nos deixou um conselho naquela ocasião: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. (João – 2, 1 a 12).

Parabéns à TV APARECIDA pela cobertura da novena em duas edições diárias: às 15 e às 19 horas.

 

(Alcindo Garcia é jornalista) e-mail: [email protected]




Desenvolvendo o empreendedorismo em São Paulo

 

 

 

 

No vasto e diverso cenário econômico brasileiro, o empreendedorismo desempenha papel fundamental na geração de emprego e renda, na inovação e no desenvolvimento econômico – tanto local quanto nacionalmente. E o Dia do Empreendedor, celebrado neste 5 de outubro, enseja uma oportuna e pertinente reflexão sobre a relevância do empreendedorismo para o país e que futuro esperar para o setor.

Maior orçamento estadual da federação, São Paulo abriga uma cena empresarial vibrante e diversificada e, não à toa, é tido como o centro econômico do país. Nosso estado é o lar de uma grande e variada quantidade de empresas que exercem protagonismo econômico e, de acordo o IBGE, concentra cerca de 35% das empresas formais no Brasil. Os pequenos empreendedores, em especial, têm impactado de forma significativa a nossa economia, representando a espinha dorsal das empresas em território paulista.

Levantamento feito pelo Sebrae, a partir de dados do Caged, apontou que, de janeiro a julho deste ano, as micro e pequenas empresas (MPEs) criaram quase 825,4 mil vagas de trabalho, correspondendo a aproximadamente 70% do total de empregos formais gerados no período – 1,166 milhão. Em São Paulo, dos 320 mil novos postos de trabalho abertos no período, mais de 217 mil foram em MPEs.

Apenas em julho, 79,8% dos novos postos de trabalho no país (113.828) foram abertos em micro e pequenas empresas. Em São Paulo, das 43.331 novas vagas, 33.432 foram geradas em micro e pequenos empreendimentos. Ou seja, o estado respondeu por quase um terço de todas as contratações feitas no país no mês.

Em que pesem os desafios de se empreender no Brasil, São Paulo demostra resiliência e vanguardismo, destacando-se como centro de inovação e empreendedorismo. Iniciativas do nosso estado desburocratizam o ambiente de negócios, de modo a simplificar a abertura e o funcionamento de empresas. A administração estadual também tem buscado facilitar o pagamento de dívidas de pessoas jurídicas, oferecendo mais prazo e maiores descontos.

Com um crescente ecossistema de startups, o estado tem atraído investimentos nacionais e externos. Também registra a presença de incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos, como um crescente estímulo à abertura e ao crescimento dessas startups.

É verdade que o acesso ao crédito adequado tem sido uma das adversidades encontradas pelos empreendedores. Frequentemente, os obstáculos à aquisição de financiamento para capital de giro ou investimentos em projetos envolvem a ausência de garantias e o histórico de crédito insuficiente. E a dificuldade de obter recursos financeiros interfere na expansão dos negócios. Por isso, um dos grandes desafios do Estado de São Paulo é a democratização do acesso ao crédito, especialmente para os pequenos empreendedores.

Por outro lado, vemos nos atuais e potenciais empreendedores paulistas a clareza de que a inovação e a sustentabilidade serão pilares para o sucesso das empresas, à medida em que a sociedade demandar soluções mais eficientes e ambientalmente responsáveis. Sustentabilidade e descarbonização são temas que têm pautado as agendas empresariais e de governos.

Não por acaso, São Paulo tem promovido medidas que buscam a redução das emissões de carbono e o uso sustentável dos recursos naturais. E as empresas paulistas têm investido em práticas sustentáveis, como a adoção de energias renováveis, redução de resíduos e promoção da economia circular.

Neste cenário, não há dúvida sobre a continuidade do crescimento das micro, pequenas e médias empresas. E, ao que tudo indica, o futuro do empreendedorismo no mundo será moldado pela inovação, sustentabilidade, tecnologia e acesso a recursos financeiros. A capacidade de adaptação e resiliência, características intrínsecas do empreendedor, serão essenciais para o sucesso nesse ambiente em constante evolução. São Paulo quer seguir liderando esse movimento.

Jorge Lima, secretário de Desenvolvimento Econômico do Governo de São Paulo




Paralisia facial: por que (e quando) acontece? 

 

Imagine você acordar em um belo dia e, ao olhar para o espelho, deparar-se com o rosto paralisado ou mesmo disforme? Uma situação terrível, sem dúvida – que até parece cena de filme, novela. Mas não está restrita apenas à ficção, infelizmente.  A cada ano, estima-se que cerca de 80 mil brasileiros vivam esse drama, na vida real.

A paralisia facial idiopática, também chamada de paralisia de Bell, é uma emergência médica e deve fazer o paciente procurar um pronto-socorro para o primeiro atendimento o quanto antes. A precocidade do diagnóstico e tratamento é fator crucial no resultado de melhora ou cura.

Esse tipo de alteração está diretamente associado à inflamação ou inchaço do nervo facial. Quando afetado por alguma razão, esse nervo provoca sintomas como boca torta, dificuldade para movimentar o rosto e/ou falta de expressão em uma parte da face, o que também pode alterar de forma marcante a comunicação e a autoestima das pessoas.

As causas, entretanto, podem ter diferentes naturezas: estresse, baixa imunidade, mudança repentina de temperatura, doenças neoplásicas ou até mesmo idiopáticas – ou seja, sem causas definidas.

Tipos 

Há dois tipos principais de paralisias da face: as centrais – ou seja, do sistema nervoso central, que são decorrentes de AVC (acidente vascular cerebral), doenças degenerativas ou tumores; e as paralisias faciais periféricas, que podem ser traumáticas, infecciosas, congênitas, tumorais, metabólicas e idiopáticas – conforme já destacado anteriormente.

Cada uma tem um tipo específico de tratamento que deve ser orientado pelo médico. Alguns pacientes necessitam de exames auxiliares, como as audiometrias e impedanciometrias, exames de imagem (tomografia computadorizada e ressonância magnética) e eletrofisiológicos, além de exames laboratoriais, até chegar ao diagnóstico exato.

Na maioria das vezes, contudo, o diagnóstico da paralisia facial é feito por meio da observação médica. O sintoma que mais chama a atenção é a perda súbita, parcial ou total dos movimentos de um lado da face, mal que pode agravar-se durante alguns dias seguidos.

Sinais como boca torta, que fica mais evidente quando se tenta sorrir; incapacidade de fechar completamente um dos olhos, de levantar uma das sobrancelhas ou de franzir a testa; dor ou formigamento na cabeça ou na mandíbula; e aumento da sensibilidade do som em um dos ouvidos, além alterações do paladar, também são comuns e devem ser observados.

Tratamentos

A maioria dos casos de paralisia facial é transitória, com vários tratamentos possíveis, a depender das causas. No caso da paralisia facial periférica, o tratamento é sintomático e inclui o uso de medicamentos, fisioterapia e fonoaudiologia. Não existe uma conduta terapêutica padrão à doença. Depende de cada caso.

A melhora, por sua vez, pode depender do tipo e da extensão do dano sofrido pelo nervo facial, das condições clínicas e da idade do paciente. Em grande parte dos casos, a paralisia facial costuma regredir à medida que o inchaço do nervo diminui espontaneamente.

Nesse contexto, a fisioterapia e fonoterapia são importantes aliadas para estimular a musculatura da mímica facial e da fala, bem como evitar contraturas e atrofia das fibras musculares.

*Dr. José Ricardo Gurgel Testa é médico do Hospital Paulista, formado pela Escola Paulista de Medicina, com mestrado e doutorado em Otorrinolaringologia/Cirurgia de Cabeça e Pescoço pela Unifesp e livre docência em Otorrinolaringologia pela Unifesp




Cultive o contentamento neste Dia das Crianças

 

Uma das caraterísticas mais peculiares da parentalidade moderna é a competividade que os pais sentem que devem instigar em seus filhos. A minha esposa e eu falamos três línguas em casa, levamos nosso filho de um ano a aulas de música e frequentamos um grupo de suporte para mães – bom, eu fui uma vez.

Como acabamos deste jeito? Tudo começou quando um pai me contou que seu filho assistia aos filmes do Baby Einstein. “Temos que pressionar nossos filhos a se tornarem gênios já quando são bebês?”, questionei. Mas minha indignação acerca daquela brilhante série não me poupou de fazer o Pietro assistir ao Baby Van Gogh, caso pudesse dar uma turbinada nele. As cores que se moviam pela tela não capturaram sua atenção. Convenci-me de que era porque o Pietro já era avançado demais.

Mas a nossa grande tentativa de turbinar o cérebro do nosso filho de apenas um ano foi levá-lo às aulas de natação no sábado pela manhã. “Era um investimento no seu futuro”, dizíamos a nós mesmos. Neste mundo competitivo, é preciso começar cedo. Alguém aí sabe quando os chineses começam a levar seus filhos à piscina?

Aos olhos do Pietro, todavia, tudo era mágico e divertido. Ele batia na água com suas mãozinhas e gritava de alegria. Eu o segurava de barriga para baixo, para que pudesse flutuar e descobrir a piscina. Outros bebês gostavam das boias ou dos bichinhos de plástico que flutuavam, mas o Pietro queria colecionar as bolinhas coloridas, até seus braços transbordarem.

Admito: me divertia muito. Depois de um tempinho na piscina, o esforço da vinda era ofuscado pela sua alegria. Me sentia feliz de estar ali. Percebi ser um momento para simplesmente estar presente e deixar que ele ditasse a agenda. Aquilo me fez notar o que eu perdia quando permanecia em meu mundo, ansioso por colecionar a minha próxima bola e com medo de deixar uma das minhas bolas atuais cair. Podia ver sua satisfação de ter o pai só para ele e focado no que realmente o interessava.

Quando chegávamos ao carro, eu notava sentimentos interessantes dentro de mim: contentamento, afeição, gratidão… Nossas aulas não se destinavam a colocá-lo na frente da corrida contra os chineses. Pelo contrário, ajudavam-me a ser presente na vida do meu filho e a vislumbrar o milagre que crescia diante de meus olhos.

Para mim, o Dia da Criança é um lembrete anual de cultivar o contentamento em uma sociedade que transfere a ansiedade para os filhos. Meu conselho: deixa as atividades extracurriculares de lado. É hora de voltar a ser criança também!

René Breuel é um escritor paulistano que mora em Roma, na Itália. Autor da obra Não é fácil ser pai (Mundo Cristão), possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá. É casado com Sarah e pai de dois meninos, Pietro e Matteo.




O assassino em mim

 

Vi recentemente o filme “O Assassino em Mim”. O que impressiona nesse thriller –  e me leva à analogia com os assassinos de mulheres na vida real -, é a calculada frieza do psicopata que faz dublê do pacato xerife de uma cidadezinha do Texas/EUA. Suponha comigo: quantos misóginos, como o maníaco do filme, podem estar, neste exato momento, impondo o mesmo ritual perverso às mulheres com quem vivem, em um país onde diariamente quatro são vítimas desse crime hediondo?

Apenas no estado de SP as mortes por feminicídio no 1º semestre de 2023 aumentaram 34% em relação ao mesmo período do ano passado. Os casos de lesão corporal dolosa e de ameaças contra mulheres somam 80% segundo os índices divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP).

O assassinato de mulheres, quando essa atroz modalidade de crime ainda não tinha a conotação jurídica como feminicídio, já era uma das tragédias anunciadas da Humanidade muito antes de ter se acirrado o debate global de gêneros, do feminismo e da igualdade étnica e racial. Há mais de sete décadas, em um outubro que ainda não era rosa, a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir dava o primeiro grito de alerta no livro Segundo Sexo, hoje a bíblia de cabeceira do feminismo. Nele, tal qual a mulher que, liderando um invisível e Incrível Exército Brancaleone, contesta os protocolos da medieval e suposta hierarquia de gêneros, enunciada em trabalhos de figuras históricas do campo filosófico como Engels, Marx, Freud e Aristóteles. E deixa no ar a pergunta que ainda hoje não quer calar: “Onde está a raiz da desigualdade entre homens e mulheres?”

Afinal, perguntamos nós, por que os homens estão matando as mulheres que dizem amar? Há mais interrogações do que imagina a nossa vã filosofia para explicar o funcionamento dos gatilhos que levam o homem à insanidade do feminicídio. A diferença de status social e econômico, a exposição nas redes de internet, as fake news, a mudança de comportamento, a imagem da mulher que o homem constrói no começo da relação e quer manter intacta até que a morte os separe…

Esses gatilhos podem ser acionados isoladamente ou em conjunto e, seja como for, acabam levando ao ciúme doentio, como foi o caso dos primeiros feminicídios de repercussão no Brasil: da socialite mineira Ângela Diniz em 1976 pelo playboy Doca Street e da cantora Eliane de Grammont, assassinada em 1981 pelo ex-marido Lindomar Castilho quando se apresentava em um bar da zona sul de São Paulo. Os dois crimes monopolizaram a opinião pública e, pasmem, no julgamento do assassinato da socialite, a maioria dava razão ao playboy, graças à estratégia do seu advogado, que utilizou a tese da defesa da honra e pintou a vítima como provocadora.  “Foi uma explosão incontida de um homem ofendido na sua dignidade”.

Demorou mas, felizmente, a lei 13.104 de 2015 alterou essa cruel realidade que considerava culpada a própria mulher pelo crime de que fora vítima. Então, eu me pergunto: será razoável pensar que eu mesmo, se não tivesse sido educado para o respeito, para a solidariedade e para o amor, poderia sucumbir aos instintos e praticar uma agressão dessa natureza? Para mim, ainda é a educação que salva o espírito de civilidade e, enfim, a civilização.

Ricardo Castilho é jurista e escritor, pós-doutor pela USP e Universidade Federal de Santa Catarina. É diretor acadêmico da Escola Paulista de Direito.

 

 

 

 

 

 

 




Mais que um jogo: aspectos do poker que refletem na vida

 

 

 

No mundo moderno em que vivemos, surgiram diferentes formas de aprender novas competências. Se antes a leitura exaustiva de textos acadêmicos era o canal mais utilizado, hoje há maneiras muito mais lúdicas de evoluir, seja pessoalmente, seja profissionalmente. Dentre elas, uma das que mais cresce, e mais se destaca, certamente é o aprendizado por meio de jogos.

Em todas as suas formas, os jogos são criados para proporcionar diversão mas, por extensão, praticá-los proporciona adquirir ou aperfeiçoar habilidades úteis. A infinidade de ações repetitivas que ocorrem durante os games é um estímulo para o cérebro. Enquanto tais ações acontecem, nossa cabeça as processa, seleciona e arquiva, para colocá-las em prática no momento adequado, nas mais diferentes demandas.

Enquanto o exercício físico, por exemplo, é fundamental para o bem-estar geral, o exercício da mente pode auxiliar a desenvolver resiliência. No sentido figurado, resiliência é a capacidade de adaptação rápida às mudanças. A pessoa resiliente possui maior equilíbrio para superar desafios, encarando-os com superioridade em relação aos que não possuem tal habilidade.

Para exemplificar de que forma o jogo pode colaborar para desenvolver habilidades úteis para a vida usamos o poker, mas elas, as habilidades, são aplicáveis a vários outros jogos de cartas, em especial, aqueles que envolvem estratégia e rapidez de raciocínio.

No poker é como em qualquer atividade da vida – a repetição leva à perfeição. Quanto mais se joga, mais se entende a dinâmica, e mais se afinam as decisões. E não é preciso investir nas etapas iniciais, já que as plataformas de entretenimento digital oferecem rodadas de treino grátis, antes que o usuário decida partir para uma mesa verdadeira, com adversários reais de nível semelhante.

Durante uma partida, o desejo de reduzir riscos e erros é frequente, assim como o empenho para alcançar a desejada meta. Essas são duas das habilidades aperfeiçoadas pela repetição das experiências durante os jogos de poker e similares. Elas são extremamente valorizadas nos vários campos de atividades, com robusta pontuação no currículo de executivos.

 

De igual importância dentre os skills que permeiam o nosso cotidiano está a adaptação às mudanças, com rapidez.  Ao jogar poker, é constante o apelo para observar o cenário e alterar estratégias, em busca de êxito. Ao repetir a prática, nos tornamos mais experientes e ganhamos mais capacidade de lidar com desafios e oportunidades, seja qual for o ambiente.  Quanto mais nos preparamos, mais eficaz nos tornamos para superar os obstáculos.

A seguir, outras qualidades que podem ser aperfeiçoadas durante jogos competitivos. Confira abaixo:

Gestão de bankroll – A adequada gestão do dinheiro é fundamental em qualquer jogo de cartas e na vida. Isso inclui definir limites e controlar as apostas. Essa estratégia também é aplicável em jogos como blackjack, Rummy e Bridge.

Leitura dos adversários – A habilidade de ler seus oponentes e identificar padrões de jogo é crucial no poker. Novamente, isso também pode ser útil em jogos como Bridge e Rummy – você pode tentar adivinhar as cartas dos seus adversários com base nas jogadas e no comportamento deles.

Aprendizado das probabilidades – Calcular as probabilidades de sucesso de uma mão é vital no poker. Esse skill é também útil nas diversões como o Buraco e a Canastra. São jogos que levam a decidir quais cartas descartar e quais manter, tomando por base as chances de obter as peças necessárias para somar àquelas que você tem na mão e alcançar êxito na partida.

Controlar emoções – Manter a calma sob pressão é essencial em qualquer competição, seja no poker, nos demais jogos de cartas competitivos e nas inúmeras competições que a vida propõe. Além do poker, a gestão emocional é relevante em títulos como o Bridge, no qual são relevantes a comunicação com seu parceiro e a tomada de decisões sob pressão.

Repetir experiências para aperfeiçoá-las é essencial em todas as áreas da vida porque impulsiona o desenvolvimento pessoal, melhora as habilidades, ajuda a alcançar metas e promove a adaptação às mudanças. É um investimento contínuo em si mesmo que vale praticar, em busca de uma vida mais realizada e significativa.

 




CONSELHO TUTELAR

 

Em todos os municípios brasileiros serão realizadas neste domingo eleições para a escolha de candidatas para o Conselho Tutelar, órgão público municipal vinculado às Prefeituras. Não se trata de um órgão assistencial nem de segurança pública e sem nenhum vínculo com o poder judiciário.  Torna-se de suma importância o comparecimento do eleitorado em tais eleições.

Nunca se necessitou tanto em dar maior assistência à criança e ao adolescente em nosso país, principalmente quando até certos membros do poder judiciário sem ouvir o Executivo, o Legislativo, lançam campanha para a implantação no País de uma legislação a favor do aborto como o fez a ministra Rosa Weber.

Justamente quando se comemora mais de 27 anos da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA – na defesa dos direitos desta camada da população.  Isto significa zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, deixo bem claro isto.

Outras características são importantes para a compreensão do papel e do exercício do Conselho Tutelar. As conselheiras são eleitas em voto distrital em cada comunidade. O conselheiro tutelar exercerá a sua função na abrangência delimitada pela área de sua eleição; assim, esta forma de eleição, facilita sobremaneira sua atuação, pois o Conselheiro Tutelar é conhecedor dos hábitos, dos usos e costumes de sua comunidade.

Parabenizo os membros do Conselho Tutelar pela dedicação e empenho com que conduzem em cada cidade deste imenso Braisl os valores daqueles que no futuro representarão nossa Pátria. As crianças e os adolescentes de hoje.

(Alcindo Garcia é jornalista) – e-mail: [email protected]




Será que é “crise da meia idade”?

 

Homens e mulheres vivem a “crise da meia idade”, mas de maneiras específicas. De uma forma geral, a crise da meia idade é caracterizada como uma fase da vida, um período de transição. Por isso, muitas vezes, é nomeada “a passagem do meio”, “a metade da vida”. Muitos teóricos da psicologia chamam de uma espécie de “adolescência” da vida adulta.

Justamente porque é um período de ebulição naquilo que a gente chama de passagem da primeira para a segunda metade da vida. A primeira metade vai do nascimento até, mais ou menos, os 40, 50 anos, varia muito.

A primeira metade é quando se está na plena expansão da consciência: a pessoa nasce, cresce, estuda, realiza projetos, consegue uma profissão, etapa em que há identificação com um aspecto cultural, ideológico, religioso. Também representa a fase em que ela se casa, tem filhos. É o momento que a gente chama de “fase natural da vida”, não é?!

Já a segunda metade da vida é um período em que o ser humano lida com questões que não foram resolvidas na primeira fase; quando também se lida de forma mais realista com a nossa finitude. Começa a aparecer, por exemplo, o medo do envelhecimento, o medo da morte.

Nesse período, geralmente, os pais começam a adoecer ou falecem. Aparece então um certo pavor, pânico de enfrentar essa segunda metade da vida. Contudo, não deixa de ser um período de grandes descobertas, no qual a gente ressignifica a vida, caminha muito mais para a sabedoria, para o sentido da existência.

A crise da meia idade não é uma questão muito cronológica, e sim de desenvolvimento psicológico. Por exemplo, um dos primeiros sinais é essa insatisfação generalizada, com tudo o que se tinha numa vida comum até aqui, e que, de repente, começa a tornar a vida mais ‘cinza’. Começa a ter uma insatisfação com o cônjuge, com o trabalho, com os filhos, que provavelmente já estão crescidos, na adolescência ou até na vida adulta.

A isso existe uma certa nostalgia associada ao passado. Coisas que estavam lá atrás começam a ser desenterradas. Surgem pensamentos sobre o que se poderia ter feito melhor da vida. Há a sensação que poderia ter vivido mais. Principalmente para as mulheres, surge uma preocupação excessiva com as marcas do envelhecimento, com o corpo, com a aparência física.

E, por causa de um processo de transição para a segunda metade da vida, pode-se colocar a perder muito das suas conquistas, como, por exemplo, família, filhos. Então, é preciso ter muito cuidado, porque, muitas vezes, o problema não é o casamento, o emprego, aquilo que se conquistou na primeira metade da vida, mas justamente essa ebulição que traz para fora questões não resolvidas na primeira metade da vida. E não se pode mais caminhar com essas coisas escondidas!

Vale a pena procurar uma ajuda terapêutica. O acompanhamento psicológico é muito importante nessa fase, quando chega “a crise da meia idade”, para que se viva bem essa transição, essa passagem, a adolescência da vida adulta.

 

Daniel Machado é membro da comunidade Canção Nova. Formado em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo e em Filosofia pelo Instituto Canção Nova. Atualmente é coordenador do Núcleo de Psicologia Canção Nova.