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Por trás da “Batalha dos Bonés”

 

“É hora de pacificar o País”, disse Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao ser eleito presidente da República em 2022. Uma frase de efeito, que teria sentido se fosse levada a sério pelo próprio autor. Mas, não! Em pouco mais de dois anos de governo, o petista, aparentemente, se esqueceu do que falou; voltou a jogar gasolina na fogueira da polarização; e convocou a militância para confrontar Jair Bolsonaro (PL) e a Direita brasileira.

O motivo é claro: Lula está de olho na reeleição, no pleito de 2026. Para isso, precisa tirar o foco da fraca e confusa gestão que está fazendo à frente, pela terceira vez, do Brasil: “Como o povo vai falar bem do governo (federal), se a gente não está entregando?”, admitiu o presidente, dias atrás, numa espécie de confissão atrapalhada.

O sincericídio de Lula levou o marqueteiro do PT e, agora também ministro das Comunicações, Sidônio Palmeira, ao desespero, uma vez que escancarou e legitimou o que todo brasileiro percebe quando fecha as contas no fim do mês.

Não de hoje, o governo petista está sem rumo e com poucas chances de colocar o País em ordem econômica até a eleição do ano que vem. Apesar da propaganda negacionista (e otimista) do PT, a inflação escapou do controle. A picanha não chegou à mesa do brasileiro mais barata, como se prometeu em campanha. Muito pelo contrário: da farmácia ao combustível, nos supermercados e nas feiras, o custo de vida da população está mais alto.

E não é só isso: a gastança inconsequente e a falta de comprometimento da União com as contas públicas trazem à tona a falta de credibilidade financeira do Brasil – aqui e no exterior. Isto significa juros e dólar nas alturas.

Se não bastasse tudo isso, o governo petista é um oceano de ideias confusas: se comunica mal com as massas e com o mercado, e apanha da oposição e da opinião pública nas redes sociais. Foi assim, por exemplo, com o PIX, por força de um eventual monitoramento; e na recomendação para os planos de saúde incentivarem a mamografia só após os 50 anos (protocolei, inclusive, um projeto de lei, a fim de evitar este retrocesso médico); e na insistência em aparelhar as estatais com “companheiros” que nada entendem da matéria. Veja os Correios: após anos de superávit, em 2024 a empresa registrou um rombo financeiro de R$ 3,2 bilhões.

A Venezuela, do ditador Nicolás Maduro (Partido Socialista Unido da Venezuela), continua do lado esquerdo do peito de Lula, assim como a deslumbrada primeira-dama do Brasil, Janja da Silva, que, sem voto ou cargo, emprega um séquito de assessores bem remunerados. E tudo isso sob o sigilo de cem anos – que, até pouco tempo atrás, a Esquerda brasileira rechaçava.

Recente pesquisa Genial / Quaest mostra que a popularidade e a aceitação do presidente estão caindo, inclusive no Norte-Nordeste – território eleitoral caro para o PT. A luz amarela se acendeu e o Partido dos Trabalhadores, então, lançou mão, novamente, do “nós contra eles”. E isso preocupa!

A dura e cruel disputa pelo poder de comandar o destino do Brasil já começou! Muito em breve, o País será palco de mais uma competição política fraticida. A “Batalha dos Bonés” nos corredores do Congresso Nacional, a qual assistimos dias atrás – “O Brasil é dos Brasileiros” X “Comida Barata Novamente – Bolsonaro 2026” — é o lado jocoso do que ainda vem por aí.

 

Rosana Valle é deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo, jornalista há mais de 30 anos e autora do livro “Rota do Sol”

 

 




O produtor rural e o pedido de recuperação judicial

 

 

Ao fazermos uma retrospectiva do ano de 2024, constatamos um número recorde de pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Segundo a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial, entre produtores rurais como pessoa física, aumentaram 523%. Um número preocupantemente elevado.

O ano de 2024 não foi favorável para o agronegócio, com problemas que já se manifestavam desde 2023. Duas safras consecutivas ficaram abaixo do ideal, por causa de questões climáticas, de preço, além de conjecturas externas (guerras e oscilação política). Contudo, esses fatores isoladamente não justificariam um aumento tão expressivo nos pedidos de recuperação judicial. É inegável que alguns escritórios de advocacia também atuaram para convencer produtores rurais em dificuldades (ou não) de que esse processo seria uma alternativa viável a ser considerada.

Vale ressaltar também que o instituto da recuperação judicial nas mãos erradas pode ser sinônimo de planejamento financeiro equivocado. Conhecemos casos de empresas que usam a recuperação judicial de modo antiético e temerário, ou seja, conseguem descontos à força, a qualquer preço, porque os credores são obrigados a conceder o desconto por conta da ordem judicial. Agem assim como um planejamento financeiro. Renovam a frota, compram produtos dos fornecedores, substituem o maquinário e, em seguida, pedem recuperação judicial. Há muita gente usando a recuperação judicial nesse sentido.

Muitos produtores, sem experiência em todas essas situações, sem contato prévio com esse tipo de assessoria, optaram pela recuperação judicial.

Basicamente, o que é a recuperação judicial? A Lei nº 14.112/2020 alterou a Lei de Falências e de Recuperação Judicial (Lei nº 11.101/2005), trouxe a possibilidade do produtor rural pessoa física requerer um plano de recuperação judicial similar àquele destinado aos microempresários individuais. Permitindo, desta forma, que produtores rurais pessoa física solicitassem recuperação judicial. Antes disso, apenas produtores rurais com registro na Junta Comercial por pelo menos dois anos podiam solicitar o benefício. De forma simplificada, recuperação judicial é o que antigamente se conhecia como concordata. Trata-se de um mecanismo utilizado quando uma pessoa ou empresa não consegue mais cumprir seus compromissos financeiros da maneira tradicional. É um processo judicial que busca a reestruturação da empresa em dificuldades econômicas, permitindo a renegociação de suas dívidas por meio da apresentação de um plano, que deverá ser seguido para o pagamento dos credores. Mas o que leva uma pessoa ou empresa a recorrer a esse recurso?

Antes que a empresa quebre ou venha a falir, existe a possibilidade de solicitar a recuperação judicial. A legislação atual é mais avançada do que a antiga concordata, tendo como principal objetivo permitir que a empresa se reestruture. Contudo, em muitos casos no setor agropecuário, essa medida não era realmente necessária, especialmente porque esse processo abala a credibilidade da empresa e, até mesmo, do nicho de mercado como um todo.

A recuperação judicial permite a organização de todos os débitos, com exceção dos débitos tributários e daqueles garantidos por alienação fiduciária. Por isso, atualmente, os bancos utilizam amplamente esse instituto. Antes, era comum a hipoteca de terras; hoje, adota-se a alienação fiduciária. Esse mecanismo transfere, praticamente, a propriedade ao banco, que só exerce seus direitos sobre ela em caso de inadimplência.

Se o juiz deferir o pedido, o solicitante, em regra, dispõe de seis meses para obter a aprovação do plano, prazo que, em alguns casos, pode ser prorrogado. A aprovação depende de votação dos credores em assembleia, quando podem ser negociados descontos e períodos mais longos.

Muitas vezes, os advogados trabalham para que os agricultores consigam uma redução de 80% de um débito, com prazos de até 20 anos para pagamento.

Analisamos vários pedidos, conhecemos produtores e empresas envolvidos como credores e concluímos que, em diversos casos, ainda não havia necessidade desse recurso.

Quem se beneficia com a recuperação judicial? Normalmente, é o devedor, quando bem feita. E, em casos extremos, os credores acabam sendo beneficiados também, porque o processo organiza as dívidas e permite que todos recebam um pouco; ou seja, a vantagem é evitar a falência, como o próprio nome indica: recuperação.

Em outras situações, os credores assumem parte da operação do devedor, o que nem sempre pode ser a opção cogitada para aqueles que usam desse mecanismo.

Imaginemos uma situação: o devedor pede recuperação, faz uma negociação com um banco que não tinha alienação fiduciária e esse banco entra no rol de credores. Ele obtém uma redução de 50% do valor dos débitos e parcela isso em 10 anos. Com esse banco, dificilmente a empresa ou o produtor rural conseguirá operar futuramente.

Se o empresário ou o produtor rural incluírem nesse processo praticamente todos os seus financiadores, como trabalharão no curto prazo depois? Quais serão suas fontes de financiamento? Dificilmente um produtor ou uma empresa que entrou em recuperação tem lastro ou caixa para isso.

Todas as etapas, tanto a gestão do processo quanto a manutenção da atividade posterior, com fontes de financiamento e caixa, são essenciais. A empresa pode sair até mais forte, mas esse mecanismo não pode ser utilizado de forma precipitada, como vimos em casos recentes, nos quais, empresas e produtores, inviabilizaram suas atividades futuras.

Há outras soluções antes de se chegar à recuperação judicial, como parcerias de negócio. Em algumas localidades, o produtor pode ter um parceiro local para adquirir sua produção ou fornecer insumos. Se ele tiver opções e estiver bem ciente do que está fazendo, essa é uma alternativa viável e menos onerosa.

 

Eduardo Berbigier é advogado tributarista, especialista em Agronegócio, membro dos Comitês Juridico e Tributário da Sociedade Rural Brasileira e CEO do Berbigier Sociedade de Advogados.




Dom Bosco, o santo do Amor

Dom Bosco é reconhecido e estimado por ter sido um exímio pedagogo e educador de todos os tempos. Ele como ninguém inaugurou um apostolado inovador para os jovens: o método preventivo e repressivo em vista da santidade dos jovens. Seu jeito humilde e sereno de conduzir as coisas ganhou o coração dos jovens. Um homem de bondade e de muitas virtudes, fazia rapazes de todas as partes, em grande multidões, serem atraídos para uma vida santa.

Sua capacidade de comunicação impressionava a todos, prova disso era o modo que ele tratava a cada um, de forma pessoal. Com o estudante era o [homem] letrado, com o aprendiz era o mestre, para o jovem carpinteiro, era o artesão, para o pedreiro, o mestre de obras. Dom Bosco, com essa peculiaridade, faz juz ao seu propósito de vida: “ao tornar-se tudo para todos”, ele ganhou-os todos para Jesus Cristo.

Este jeito inovador de ser na Igreja faz de Dom Bosco um santo cativante, acolhedor, misericordioso, atencioso, bondoso, características e virtudes que seduziram os jovens de sua época, por seu modo gentil de ser, por suas conversas úteis e edificantes. O grande questionamento que se faz é como Dom Bosco poderia orientar esses jovens de mentes tão dispersas, que gostavam tanto de comer, beber e divertir-se? Como esses jovens viveriam para a piedade e para a Igreja?

Dom Bosco ensina seus jovens, a partir de Filipe Néri, que encontrou a chave para tudo isso: imitando a mansidão e a bondade do Salvador, tratou-os com paciência e com amor. Seu desejo por alcançar almas para Deus estava na sua reta intenção de não apenas pregar coisas teóricas, mas de agir e estar por inteiro em tudo o que fazia, e por isso, Dom Bosco pedia para que eles observassem seu modo de agir e pudessem fazer o mesmo. Seu anseio de não perder ninguém, seguindo o exemplo das sagradas escrituras: “que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Timóteo 2,4).

Em sua primeira viagem a Roma, em 1858, num colóquio com o Cardeal Tosti, ele apresenta ao prelado que era essencial conquistar a confiança e o amor das crianças. E o mesmo perguntava: “Como se consegue isso?” A resposta foi imediata: “fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para pôr as crianças em contato consigo próprias, quebrando todos os obstáculos que as mantêm à distância”. E Dom Bosco para pôr em prática o que explicava, acompanhou o cardeal até a Piazza del Popolo, dirigiu-se a um grupo de crianças, deu-lhes uns presentes, uma ou duas medalhas, perguntou-lhes de suas famílias e depois arregaçou as mangas da batina e participou do seu jogo. De vez em quando, ele perguntava-lhes delicadamente se costumavam rezar ou confessar-se. No final, ele estabeleceu uma tal relação com eles, que os meninos não queriam que ele fosse embora e, quando se foi, a multidão o acompanhou em aplausos.

É importante salientar que o espírito de intimidade, amor e alegria era característico de Dom Bosco, e isso  contagiava os jovens e criava uma atmosfera permanente de alegria. Seu objetivo era, com alegria, expandir a alma, banir o tédio, infundir emoção à vida, e sobretudo, encher os corações de um sentimento de confiança e abandono em Deus. Esse desejo de salvar almas para Deus e em constante alegria é constatado no comentário de um grande assistente social de Turim: “há, no número 32 da Rua Cottolengo, algo que não se encontra em nenhum outro lugar, mesmo nas comunidades religiosas. O menino ou jovem que entra nesse aposento, com o coração cheio de cansaço ou amargura, sai de lá radiante de alegria. É a casa de Dom Bosco”. Por fim, a alegria e o amor são inseparáveis, e podemos resumir a vida de Dom Bosco em uma única palavra: o santo do amor.

Padre
 Ricardo Rodolfo Silva é missionário da Comunidade Canção Nova e Vice-reitor do Santuário Pai das Misericórdias, em Cachoeira Paulista (SP).




Alerta para mais uma nova fraude financeira no Brasil

No último dia 22 de janeiro, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou um alerta sobre um novo golpe que tem ganhado espaço e feito muitas vítimas, especialmente os idosos, aproveitando-se da falta de experiência com a tecnologia, que deveria aprimorar e facilitar os serviços para esse público, mas que infelizmente segue sendo usada na sofisticação de golpes e fraudes financeiras.
Neste novo golpe, criminosos fazem contato em busca do oferecimento de algum benefício para a potencial vítima, tendo ela apenas que capturar seu rosto em uma fotografia ao vivo. O pedido, contudo, é uma forma de verificação de identidade através de biometria facial, utilizado, então, para a abertura de contas, numa abertura de portas para diversas ações criminosas, incluindo empréstimos, solicitações de cartões de crédito e cadastros de novos PIX, por onde o estelionatário aproveita para escoar o dinheiro obtido em outras fraudes e golpes financeiros.
Essa, infelizmente, é mais uma estratégia desenvolvida pelo crime organizado, que lança mão de golpes cada vez mais sofisticados para enganar milhões de pessoas pelo país. Esta nova ação criminosa alertada pela Febraban se junta a outras semelhantes, como as fraudes que envolvem as falsas corretoras de criptomoedas, com golpistas atraindo investidores com promessas de lucros rápidos – como o caso da TDASX.
Nesse tipo de fraude, os meios digitais também são utilizados. Por meio de anúncios em redes sociais e grupos de WhatsApp, o golpista oferece investimentos em criptomoedas, com direito a supostos cursos, treinamentos e aulas sobre o mercado financeiro. Tudo um grande teatro, usado para gerar credibilidade e atrair os investidores.
No esquema da TDASX, os investidores investiam os recursos na própria plataforma, na expectativa de altos lucros. Os saques eram permitidos inicialmente, o que dava ainda mais credibilidade e coragem para que o investidor seguisse os aportes. Mas, em pouco tempo, eles tinham as contas bloqueadas e, com o golpe concretizado, se transformavam em vítimas. Milhares de brasileiros tiveram enorme prejuízo.
Tanto o golpe da TDASX quanto o novo golpe alertado pela Febraban corroboram para uma situação que deve ser rigorosamente analisada: a série de fragilidades que viabilizam essas fraudes.
Há fragilidade do sistema e instituições financeiras, que ao não garantirem segurança suficiente nas transações, abrem o caminho para criações de contas fraudulentas utilizadas na movimentação do dinheiro levantado pelos criminosos nos golpes. Também há senão uma fragilidade, uma sensação de impunidade em razão da morosidade de ações mais contundentes por parte das autoridades policiais bem como do Judiciário brasileiro em diversas etapas dos processos: na investigação, na apreensão de patrimônio ilícito e na punição dos operadores dessas fraudes. O cenário, aos olhos dos criminosos, segue favorável para a prática desse tipo de ilícito.
Por fim, há que se ressaltar a fragilidade das vítimas. É preciso compreender que não existe fórmula mágica nem milagres no mercado financeiro. Não existe lucro exorbitante. Por mais que as organizações criminosas sofistiquem suas estratégias, não se deve cair no conto da fácil multiplicação do dinheiro. Essa deve ser a lição número um na urgente e necessária educação financeira dos brasileiros.
Em qualquer investimento, deve-se tomar certos cuidados, como verificar se a corretora está devidamente registrada nos órgãos reguladores, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nunca confie em promessas de retornos elevados sem risco, e desconfie de transferências feitas para contas de terceiros. Não forneça dados pessoais em links enviados pela internet e avalie rigorosamente antes de preencher cadastros digitalmente.
Diante de novos golpes, também evite aceitar tirar fotos ou selfies para desconhecidos e, assim. Evite agir por impulso, inibindo que seu suado dinheiro ou seu valioso nome seja usado em fraudes financeiras que surgem a cada momento em nosso país.
Jorge Calazans é advogado especializado na defesa de investidores vítimas de fraudes, ativista no combate às pirâmides financeiras e sócio do escritório Calazans e Vieira Dias Advogados



Aktion T4: o aspecto pouco lembrado do Holocausto

 

O Dia Internacional da Memória do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, não é apenas um momento para lembrar as atrocidades cometidas pelo regime nazista, mas também para refletir sobre as diferentes faces dessa tragédia. Uma das menos lembradas é a operação Aktion T4, um programa que vitimou pessoas com deficiência sob o pretexto de “purificação racial” e “eficiência social”.

A Aktion T4 foi um programa de eutanásia conduzido pelo regime nazista entre 1939 e 1945, cujo objetivo era eliminar indivíduos considerados “improdutivos” ou “incapazes” de contribuir para a sociedade. Estima-se que mais de 275.000 pessoas, incluindo crianças, adultos e idosos com deficiências físicas e mentais, foram assassinadas durante esse programa.

Os métodos incluíam câmaras de gás, injeções letais e inanição deliberada, executados em instituições médicas transformadas em centros de extermínio. Em muitos casos, as famílias eram convencidas a entregar seus entes queridos para “tratamento”. Essas mortes eram frequentemente justificadas como “alívio para a família” ou “economia para o Estado”.

A lógica subjacente ao Aktion T4 era a da pureza racial e do produtivismo vazio, fundamentos da ideologia nazi-fascista. De acordo com essa visão, o valor de uma pessoa era determinado exclusivamente por sua capacidade de contribuir para o progresso material do coletivo. A pessoa humana não era vista como um fim em si mesma, mas como um instrumento para a prosperidade do Estado. Essa perspectiva desumanizadora não só justificava a eliminação dos considerados “inúteis”, mas também privava a sociedade de reconhecer o valor intrínseco da diversidade humana.

A crença de que as pessoas com deficiência eram um fardo para a sociedade foi amplamente disseminada. Famílias, pressionadas por um contexto social capacitista, muitas vezes consentiam em enviar seus parentes para a chamada solução. Essa situação revela como a desumanização e a estigmatização podem infiltrar-se profundamente no tecido social, levando a escolhas trágicas.

O pensamento nazista ignorava o fato de que a humanidade de cada indivíduo reside em sua individualidade. Características únicas, sejam habilidades, limitações ou perspectivas, enriquecem a coletividade. Ambientes plurais e inclusivos são mais criativos, inovadores e resilientes. A exclusão, por outro lado, empobrece e fragiliza a sociedade.

A construção de ambientes inclusivos exige a eliminação do capacitismo e de outras formas de preconceito. Todos devem ter a oportunidade de se desenvolver e serem protagonistas de suas vidas, independentemente de suas limitações. É um dever moral e social garantir que a diversidade seja celebrada e respeitada.

Lembrar o Aktion T4 não é apenas rememorar as vítimas, mas também reconhecer as armadilhas de um pensamento que prioriza a produtividade em detrimento da dignidade humana. Como disse Hillel, o Sábio: “Se não eu por mim, quem por mim? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não for agora, quando?”.

A luta por um mundo inclusivo é urgente, e passa pela reflexão sobre tragédias como essa e pela ação concreta em direção a um futuro mais justo e humano.

 

 

André Naves é defensor público federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política pela PUC/SP. Cientista político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador cultural, escritor e professor (Instagram: @andrenaves.def).




São Paulo e o ardor pela evangelização

 

As treze cartas do apóstolo Paulo são a base para a teologia católica. Nas cartas que ele escreveu para os discípulos Tito e Timóteo, que eram bispos, São Paulo deu todas as direções de como deveria ser a Igreja. Essas orientações são seguidas até hoje pela Igreja.

O apóstolo dos gentios diz que pregar o Evangelho, para ele, não é motivo de glória, mas, sim, uma missão que lhe é imposta. “Ai de mim se não evangelizar” (1 Cor 9,15). Paulo tinha como lema evangelizar; o resto para ele não tinha importância. Nós também devemos pensar assim! Evangelizar não significa que devemos obrigar todos a serem bons cristãos, mas devemos anunciar; não impor, mas propor. O mais miserável dos cristãos é aquele que não evangeliza sua família. Muitos jovens ainda não sabem quase nada de religião.

No princípio, os catequistas eram os pais. Lamentavelmente, com o passar dos anos, a família está deixando de cumprir essa missão. Muitas crianças não sabem nem quem é Jesus, porque muitos pais vivem como se Deus não existisse. A primeira evangelização tem que ser da criança, mas, para isso, é preciso que a mãe e o pai a evangelizem.

Paulo disse a Timóteo: “Prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente… Porque virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação” (II Timóteo 4,2a.3a). Portanto, você que defende o cristianismo católico, pregue insistentemente a verdade, que liberta! O apóstolo disse que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. A grande vontade de Jesus é que ninguém se perca. O Senhor disse que quando se encontra a ovelha perdida fica-se mais feliz do que com as 99 que não se perderam. Isso nos deve dar vontade de evangelizar! Se você converter apenas duas pessoas, seu marido e seu filho ou filha, vai haver uma festa no céu.

Evangelizar é preciso! Porque Deus ama a todos e deu o Sangue por cada um de nós! O amor de Cristo me constrange, me deixa envergonhado, pois Ele morreu por mim. São Ligório dizia que se existisse somente você, Jesus morreria somente por você. O amor de Cristo é individual, por isso, precisamos dar uma resposta a Ele. Semeie o Evangelho pessoalmente, pela internet ou por qualquer outro meio.

A força mais poderosa para se evangelizar é a santidade. Pessoas santas têm a virtude de mudar o mundo! Os primeiros santos não tinham rádio, televisão, internet nem redes sociais. Eles usaram a Palavra de Deus e evangelizaram com sua vida de santidade. Antes precisamos cuidar da nossa própria evangelização, senão começamos a dar mau testemunho e nossas obras de nada adiantam.

Na obra da salvação, a Igreja é a principal coluna e o alicerce da verdade. O credo se reza há mais de dois mil anos e por que não muda? Porque o que é verdade é eterno. A Igreja não tem dúvida daquilo que é essencial para a nossa salvação. Nenhum de seus papas cancelou um só ensinamento da Igreja. Nunca na história dos Concílios se cancelou uma doutrina da Igreja. Paulo diz que Deus quer que todos se salvem, que cheguem à verdade e é por isso que, hoje, para sermos evangelizadores como o grande apóstolo, precisamos ser fiéis à Igreja.

Aí você pode dizer: “A Igreja errou no passado”. Uma coisa são os erros dos filhos da Igreja, outra coisa é a Igreja, que é santa. Os erros são nossos; houve, sim, papas e bispos que erraram, que se tornaram até hereges. A Igreja tem muitos filhos indignos, mas ela é santa, tem muitos santos. A Igreja Católica já canonizou mais de 20 mil santos.

Ninguém ama a Cristo se não ama a Igreja. E amor não é mero sentimentalismo. Jesus é o modelo de amar e, assim, nos ensinou: “Amai-vos como eu vos amei” (Cf.Jo 13,34). Não existe amor sem cruz, sem renúncia de si mesmo. O dia em que nos amarmos como Cristo nos amou o mundo vai mudar!

Felipe Aquino é apresentador dos programas “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, pela TV Canção Nova. Autor de mais de 100 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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Carteira de motorista, uma identidade nacional

 

 

No Brasil, o automóvel é muito mais do que um meio de transporte. Ele é sonho, conquista, status, independência, e, não raro, um membro não oficial da família. Essa relação visceral entre o brasileiro e o carro ultrapassa o aspecto prático. Adquirir um veículo, para muitos, é cruzar a linha simbólica entre o “antes” e o “depois”, uma transição quase ritualística que traduz o desejo de mobilidade, mas também de pertencimento e realização.

A paixão pelo carro no Brasil tem raízes profundas, que misturam história, cultura e economia. Nos anos de crescimento econômico do século XX, o automóvel era a promessa de modernidade, um símbolo de progresso que chegou a ser exaltado nas propagandas da época. A construção de rodovias, como a Brasília-Belém ou a Via Dutra, consolidou a imagem do carro como veículo de integração nacional. Mas o que parecia ser uma revolução logística logo transcendeu seu propósito funcional e ganhou o coração do brasileiro como uma extensão da própria identidade.

A verdade é que o carro fala muito sobre quem somos, ou quem gostaríamos de ser. Um sedã robusto, um SUV imponente ou até mesmo um compacto econômico carregam mensagens sobre estilo de vida, aspirações e prioridades. Para o jovem que adquire seu primeiro veículo popular, o carro não é apenas um motor com rodas. É liberdade, é independência. Para a família que sobe a serra em um utilitário, o carro se torna um espaço íntimo de conexão, um lugar onde histórias são contadas, músicas são cantadas e memórias são construídas. Há uma poética em cada trajeto, ainda que, por vezes, o trânsito transforme o que poderia ser idílico em um desafio de paciência.

Esse fascínio cultural é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma responsabilidade. No Brasil, cada lançamento precisa dialogar com essa psique coletiva que valoriza o design tanto quanto a funcionalidade, que exige robustez para enfrentar estradas esburacadas, mas também deseja um toque de sofisticação para transitar pelos centros urbanos. O brasileiro quer tecnologia, conforto e economia, mas também quer que o carro tenha uma personalidade quase tangível, que converse com seu dono em um idioma silencioso, feito de potência, acabamento e presença.

Ao mesmo tempo, há peculiaridades fascinantes no mercado. O financiamento de longo prazo, por exemplo, permite que pessoas de classes econômicas variadas alcancem o sonho de ter seu carro próprio, ainda que isso signifique compromissos financeiros extensos. Há também o carinho pela personalização, que transforma carros em verdadeiros reflexos de seus proprietários. Seja um adesivo no vidro, um sistema de som potente ou uma pintura vibrante, o brasileiro tem um talento especial para dar alma a uma máquina.

E é justamente por entender a profundidade dessa relação que precisamos nos adaptar a um consumidor que está, sim, mudando. O brasileiro de hoje está mais consciente sobre sustentabilidade, preocupado com eficiência energética e atento ao impacto ambiental de suas escolhas. Modelos híbridos e elétricos já começam a ganhar espaço, mas não é suficiente apenas lançá-los. É preciso trazer soluções que conversem com a realidade do país, onde a infraestrutura para esses veículos ainda engatinha. Mais uma vez, o desafio não é apenas tecnológico, mas cultural: como transformar o fascínio pelo ronco de um motor potente em uma paixão pelo silêncio elegante de um carro elétrico?

Há também a chegada de uma nova geração ao volante, com valores distintos daqueles que moldaram o mercado até aqui. Jovens que valorizam experiências mais do que posses questionam a centralidade do automóvel, especialmente nas grandes cidades, onde o compartilhamento de veículos e o transporte por aplicativos reconfiguram a ideia de mobilidade. Mas mesmo esses jovens, que inicialmente podem parecer desinteressados em adquirir um carro, frequentemente mudam de perspectiva quando chegam os filhos, a casa própria ou a necessidade de fazer aquela viagem tão sonhada pelo interior do Brasil. O carro, de alguma forma, acaba entrando em cena.

E, afinal, como poderia ser diferente? O carro é ao mesmo tempo um espaço físico e emocional. Ele abriga as conversas solitárias, as confidências entre amigos, as brigas de casal e as reconciliações. Ele é cenário de aventuras e testemunha de rotinas. Quantos amores começaram em uma carona? Quantos recomeços se deram ao cruzar a fronteira de uma cidade ao som da música favorita no rádio? No Brasil, o carro é mais do que um veículo: é um catalisador de histórias, um companheiro silencioso em nossas jornadas.

Por isso, inovar no setor automotivo no Brasil exige respeitar essa relação única e multifacetada. É compreender que o brasileiro não compra apenas um carro; compra sonhos, possibilidades e, muitas vezes, uma extensão do que é. Entre uma concessionária e outra, cada assinatura de contrato carrega consigo a promessa de liberdade e a realização de um desejo que, mais do que nunca, reflete a essência de quem somos. Afinal, aqui, as estradas não são apenas trajetos – são cenários de uma paixão que nunca sai de moda.

 

Luis Otávio Matias, ex-vice-presidente do Itaú com mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Formado em Direito pela PUC-Campinas, é atualmente vice-presidente da Tecnobank.




Novo ano, velhos problemas e novas respostas

 

O início de um novo ano traz consigo não apenas uma sensação de recomeço, mas também uma lista renovada de desafios. Em 2025, as incertezas econômicas, as mudanças climáticas, o avanço tecnológico e a nova dinâmica do mercado de trabalho colocam as organizações diante de um cenário inédito e cada vez mais complexo. O que funcionou no passado pode não ser mais eficaz. Velhas fórmulas não bastam para enfrentar novas crises. Empresas que insistem em respostas ultrapassadas para problemas atuais correm o risco de ficar para trás. A solução? Resiliência organizacional.

Resiliência não significa apenas resistir às crises, mas também adaptar-se, aprender e transformar desafios em oportunidades. A pandemia de covid-19 deixou uma lição clara: o mundo é imprevisível e exige agilidade. Organizações que conseguiram se reinventar — investindo em novas tecnologias, ajustando processos e ouvindo suas equipes e clientes —  saíram mais fortes. Isso prova que a preparação não pode ser deixada para depois. Ela começa agora, com um planejamento estratégico voltado à flexibilidade e à visão de longo prazo para o ano novo.

O avanço tecnológico, apesar das promessas, exige uma gestão cuidadosa. Ferramentas como inteligência artificial e automação elevam a eficiência, mas demandam capacitação contínua e responsabilidade ética. A tecnologia, por si só, não resolve problemas; o diferencial está na maneira como as empresas a utilizam. Da mesma forma, o compromisso com a sustentabilidade tornou-se central. As mudanças climáticas não são uma abstração: elas afetam cadeias de suprimentos, custos e o comportamento do consumidor. Empresas resilientes entendem que práticas sustentáveis não são apenas uma questão de responsabilidade, mas uma estratégia de sobrevivência e competitividade.

Além disso, o mercado de trabalho está em transformação. Uma nova geração de profissionais, altamente conectada, busca propósito e flexibilidade. Modelos tradicionais de gestão, baseados em hierarquias rígidas e culturas de culpabilização, não funcionam mais. A cultura organizacional deve promover um ambiente de confiança e aprendizado, onde erros possam ser discutidos e transformados em lições valiosas. Organizações que incentivam a inovação e valorizam seus talentos terão mais sucesso em atrair e reter profissionais preparados para os desafios do futuro.

Construir resiliência organizacional exige liderança com visão de longo prazo e ações consistentes no presente. O planejamento integrado de riscos, os investimentos em tecnologia e integridade, aliados a uma gestão ágil e transparente, formam os pilares dessa preparação. O cenário atual é complexo e imprevisível, mas repleto de oportunidades para aqueles que estão preparados. Empresas resilientes não apenas sobrevivem às adversidades: elas se reinventam, crescem e inspiram.

Os desafios do novo ano são inevitáveis, mas o impacto deles dependerá das escolhas feitas agora. A verdadeira força organizacional está na capacidade de aprender, adaptar-se e evoluir. Em tempos de incertezas, velhas fórmulas não bastam. Um mundo em transformação exige novas respostas e estratégias. Organizações que investem em inovação, aprendizado contínuo e uma cultura que transforma erros em oportunidades não apenas sobreviverão, mas prosperarão em 2025 e nos anos seguintes.

 

Bruno Borgonovo é fundador e CEO da BRW Suprimentos

 




Gerenciar emoções e ter força de vontade

 

 

O que é uma virtude? É uma força com grande potencial de ação. Por exemplo, a virtude de uma planta ou remédio é tratar, a de uma faca é cortar, e a de um homem é agir humanamente. Esses exemplos mostram que virtude é um poder específico. Falar de virtudes nos leva a um caminho para falar de nossa força de vontade e de sua aplicação no dia a dia. Como dizia Andrè Comte-Sponville, em o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, “a virtude de um ser define seu valor e excelência: uma boa faca é a que corta bem; um bom remédio é o que cura bem; e um bom veneno é o que mata eficazmente”.

No mundo moderno, somos bombardeados por distrações que desviam nossa atenção de metas importantes. Redes sociais, má alimentação e a procrastinação dificultam o sucesso em áreas como carreira, saúde e relacionamentos. Lidar com nossa força de vontade pode estar diretamente ligado aos nossos estados emocionais, como a depressão, que pode nos retirar diretamente a vontade de realizar algo, de seguir com algo efetivamente.

Por outro lado, é importante lembrar que a vontade é um ato consciente e racional, logo, depende do empenho da nossa parte em aplicar a disposição para o outro, e ela vai, também de forma racional, na contramão daquilo que é apenas o desejo, mas a necessidade. Um exemplo prático: é gostoso comer doces, mas tenho que ter força de vontade, comer de forma consciente para não exagerar e saber dos prejuízos que posso ter. Embora, em algum momento, me falte forças para as tarefas cotidianas, necessito colocar empenho, mesmo que num ritmo menor, para fazer o que for necessário.

Potencializamos nossa vontade à medida que a colocamos como um hábito.: Por exemplo, um hábito de alimentar-se melhor, feito de forma contínua, vai aos poucos se associando ao nosso dia a dia. Para isso precisamos também trabalhar nossa aceitação das necessidades da vida; quando precisamos passar por algo, vamos aos poucos colocando nossa potência e nossa vontade em direção ao que é necessário. Aceitar é trabalhar nossa força de vontade em direção àquilo que nem sempre é agradável, mas necessário, tendo consciência clara disso em nossa vida, e que, muitas vezes, não teremos tudo em mãos para realizar o que for necessário.

Disposição e aceitação envolvem adotar uma postura gentil e amorosa em relação a si mesmo e sua história, permitindo uma consciência plena da própria experiência, como se segurasse um objeto frágil. O objetivo não é apenas se sentir melhor, mas abrir-se para a vitalidade do momento e avançar em direção ao que se valoriza. Isso inclui sentir e validar todos os sentimentos, mesmo os negativos, para viver de forma mais plena.

Para que toda essa reflexão faça ainda mais sentido para você, deixo aqui alguns passos que podem servir como norte para recomeçar a agir em sua força de vontade: 1. Tenha metas claras; 2. Comece com pequenos passos; 3. Faça controle do que você necessita (o que fiz, o que deixei de fazer, o que gastei, o que guardei, o que mudei, no que falhei, etc.);4. Reconheça seus ganhos ao longo do caminho; 5. Entenda seus limites e suas capacidades; 6. Seja firme, específico, mas flexível para lidar com as dificuldades em meio ao caminho; 7. Organize-se ao longo da caminhada; 8. Tenha consciência do que lhe prejudica e assuma essa realidade, promovendo mudanças; 9. Tire momentos de descanso, pois servirão para abastecer sua disposição; 10. Procure pensar de formas diferentes daquelas que sempre realiza.

Nossa vontade se reflete em como lidamos com as emoções, que são essenciais para exercê-la. Muitas vezes, nos sentimos sobrecarregados por ansiedade, estresse ou tristeza, e é importante encontrar maneiras de gerenciar essas emoções. Raiva, desinteresse ou falta de motivação podem nos fazer deixar de lado o que precisamos fazer. A força de vontade não se forma rapidamente; é um processo contínuo que requer paciência e perseverança. É normal ter recaídas e desafios, mas o essencial é não desanimar. Em vez disso, devemos aprender com essas experiências e ajustar nossas estratégias. Um abraço fraterno!

 

Elaine Ribeiro é psicóloga clínica e organizacional da Fundação João Paulo II / Canção Nova. Instagram: @elaineribeiro_psicologa. Site: Elaine Ribeiro.

 




“Perdoai-nos as nossas ofensas: dai-nos a Vossa paz”

 

 

A celebração do Dia Mundial da Paz foi iniciada na década de 1960, sendo originalmente proposta pelo pontífice Paulo VI, em 1967. Com a aprovação da ideia, sua primeira celebração se deu em 1º de janeiro de 1968. Desde então, todo primeiro dia do ano, o Papa traz uma mensagem de reflexão sobre o tema.

Para compor a 58ª mensagem para o dia mundial da paz, papa Francisco tomou como referência as encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti, conclamando a igreja e o mundo inteiro para construir a paz. Este Dia Mundial da Paz está dentro do Ano Santo – Peregrinos de esperança -, de forma que o tema acima proposto está no sentido do perdão e da reconciliação para se chegar à paz.

Vamos procurar entender o que é o perdão, a ofensa e a paz de Deus! A história humana traz um problema que o homem, em todos os tempos, busca solucionar e não consegue sozinho: o pecado, que quer dizer erro de objetivo. 

Desde que o pecado entrou no mundo, o homem vive numa ambiguidade entre o certo e o errado, tanto que hoje, ignora-se o pecado e se considera tudo como normal. É o pior desvio de conduta da humanidade. A indiferença para com o bem e a dignidade da pessoa humana. Só Deus pode perdoar o homem e capacitá-lo para o bem. Mas se o homem despreza a Deus e Sua proposta de vida e salvação, o homem jamais será salvo. Nós, homens, frágeis mortais, ofendemos a Deus com nosso orgulho e prepotência. A ofensa é atribuir a Deus a causa do meu pecado, fui eu que pequei, não foi Deus, portanto quem precisa pedir perdão somos eu e você, como dizemos na oração do Pai Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas”. 

Entre os homens há ofensas e essas podem culminar na morte e destruição do outro, por isso que a segunda parte da oração é: “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. A proposta dentro deste ano jubilar é oferecer aos fiéis e a todos os homens de boa vontade uma grande reconciliação. Não é simplesmente assinar um compromisso de perdão, mas torná-lo efetivo do fundo do nosso coração. 

Precisamos ser luz de vida para os nossos irmãos! Por isso que Jesus não se cansava de anunciar a boa nova aos pecadores, porque mesmo que eles não a acolham, pelo menos ficam sabendo da proposta de salvação que Deus tem para eles.

Quando pedimos a Deus: “Dai-nos a vossa paz”, queremos dizer: assim como Deus é paz e nada o perturba, pois Ele é Santo, Verdadeiro, pleno de glória, em paz consigo e com toda criação, assim nós também queremos estar em paz: feridas curadas, mágoas perdoadas, reconciliados com os outros e com Deus. Essa é a paz que vem de Deus, quando eu estou vazio de pecados, feridas, ressentimentos, e fico de bem comigo mesmo, com Deus e a sua criação. Essa é a paz que gostaríamos de ter, a plenitude de vida.

A paz é precedida pela virtude da esperança. Nós queremos paz, mas o mundo quer guerra e, muitas vezes, nos sentimos impotentes diante dessas coisas todas que nos envolvem. Podemos cair no desânimo, mas a esperança nos dá a certeza da superação, pois Deus nunca desamparou seu povo e Ele é nossa justiça, confiemos em Sua Palavra, esperemos Nele, o nosso libertador. Na vivência da esperança, pratiquemos o perdão, pois o perdão tem o poder de tudo transformar, é o “objeto” de nossa esperança.

Caros leitores, o ano novo é uma folha em branco, nele podemos corrigir nossos erros passados, superar nossas dificuldades, escrever uma nova vida e ter esperança em Jesus, o Príncipe da Paz.

Feliz Ano Novo!

*Padre João Gualberto Ribeiro da Silva é reitor do Santuário do Pai das Misericórdias, na Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP).