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A importância da comunicação humanizada

Dar vida às palavras, expressões e gestos que formam a substância da comunicação é fundamentalmente humano. Exige nossa presença ativa e capacidade de interpretar e responder ao que está sendo comunicado. Sem esta iniciativa, a comunicação perderia sua profundidade, sua riqueza e seu potencial para construir relacionamentos e promover entendimento mútuo.

Por veículos e plataformas digitais diversas, a comunicação pode desempenhar um papel vital na sociedade, sendo uma via poderosa para disseminar informações, influenciar opiniões e conectar pessoas. Sua importância transpõe fronteiras geográficas e culturais, podendo impactar nossas percepções, valores e comportamentos. Ainda assim, essa influência só se mantém relevante quando é empregada com responsabilidade e integridade.

A verdade é o alicerce da comunicação midiática autêntica. Narrativas precisas e confiáveis têm o poder de inspirar, educar e unir pessoas de maneira genuína. Uma história comovente de sobrevivência que pude cobrir como jornalista, (entre tantas outras, como as que ocorrem no Rio Grande do Sul), pode ser um exemplo desse poder.

Ana Maria enfrentou no fim dos anos 80, aos 48 anos, um momento assustador no bairro onde morava em uma cidade no interior do Brasil. No fundo da casa, onde reside até hoje, há um rio não muito volumoso, mas de correnteza consideravelmente forte. As chuvas que persistiram por uma semana sobre a cidade, naquela época, arrastaram tudo em seu caminho e provocaram o transbordamento do rio de tal forma que a água encobriu uma ponte e quase engoliu dezenas de casas na área. Ana Maria e sua família viram-se obrigadas a deixar sua residência, refugiando-se na casa de parentes diante da situação crítica causada pela enxurrada.

Em meio à dor, Ana chorou profundamente pela perda de três de seus vizinhos durante as inundações, além de todos os seus bens materiais. No entanto, não se permitiu sucumbir à tristeza, tornando-se uma fonte de encorajamento para seu marido, filhas e demais vizinhos, incentivando-os a recomeçar a difícil jornada de sobrevivência.

Nos dias difíceis que se seguiram, as famílias afetadas encontraram amparo na solidariedade e assistência da população, além do apoio providenciado pela prefeitura. Unidas pela tragédia, as famílias compartilharam o que recebiam da comunidade local, além do amparo psicológico. Juntas, enfrentaram as dificuldades com resiliência e colaboração. A imprensa local e regional relatava os eventos com precisão e sensibilidade.

Histórias como a vivida pela família de Ana Maria tocaram o coração de milhares de pessoas, inspirando atos de generosidade e compaixão. Naquele período, as notícias dos veículos de comunicação – eu fazia parte de um deles – desempenharam papel fundamental na mobilização para auxiliar e na conscientização dos desafios enfrentados pelas famílias afetadas.

Após alguns anos, as famílias reconstruíram suas vidas, transformando o episódio sombrio em uma história de resistência e esperança. Esse relato representa não somente a relevância da comunicação na divulgação da verdade, mas também seu poder de criar empatia, solidariedade e mudança positiva.

Nos momentos mais difíceis e assustadores, é a narrativa autêntica que nos lembra da nossa humanidade compartilhada e do potencial de superação que habita o coração de cada um de nós. Estejamos, pois, comprometidos a ser agentes da verdade e da esperança em tudo o que fizermos, inspirando as pessoas a se juntarem a nós nessa jornada de transformação e renovação.

Reinaldo César editor-chefe de jornalismo e apresentador do telejornal Canção Nova Notícias




Importância das Organizações Sociais de Saúde para sustentabilidade do SUS

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) passa por importantes avanços na oferta de atendimento público de saúde. A participação das Organizações Sociais de Saúde (OSS) tem trazido melhorias significativas ao acesso e à qualidade dos serviços de saúde pública, especialmente em regiões mais periféricas com alto adensamento demográfico, onde há uma procura elevada por atendimentos, inclusive de alta complexidade.

Considerado um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde do mundo, o SUS é utilizado pela maioria dos brasileiros. Uma pesquisa de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que, 70% da população procuram atendimento na rede pública quando apresentam algum problema de saúde. O resultado do levantamento foi demonstrado na Pesquisa Nacional de Saúde1 (PNS) e representa cerca de 150 milhões de pessoas.

Um outro levantamento, feito pelo Instituto Datafolha2 em 2023, aponta que a rede municipal de saúde da cidade de São Paulo é um dos serviços mais bem avaliados pelos paulistanos em razão dos avanços na informatização da rede, com foco na promoção de cuidado na Atenção Básica. A modernização da gestão pública na Saúde tem como importante pilar o trabalho das OSS, em parceria com o SUS e a administração pública.

As organizações sociais geralmente contam com equipes de gestão altamente qualificadas e especializadas em administração de saúde. E uma gestão mais profissionalizada ajuda a melhorar a eficiência operacional, a alocar recursos de forma mais eficaz e reduzir desperdícios, e a implementar melhores práticas de governança, beneficiando todos os pacientes que buscam a unidade pública de saúde.

Outro diferencial é que as OSS têm mais flexibilidade para tomar decisões rápidas e implementar novos protocolos de atendimento que tornem a jornada do paciente mais fluída. Isso resulta em processos mais ágeis e adaptáveis, algo crucial para lidar com as demandas emergentes e as mudanças nas necessidades dos usuários.

As Organizações Sociais de Saúde trouxeram para a rede pública protocolos de tratamento atualizados, novos métodos de gestão e a maior facilidade para introduzir inovações nos serviços de saúde e acelerar o processo de transformação digital. Esse conjunto de ações contribui para a melhoria constante da qualidade dos serviços prestados pelo SUS.

No caso do Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês (IRSSL), responsável pela gestão de 10 unidades públicas de saúde em São Paulo, há um esforço permanente para ampliar parcerias estratégicas com outras instituições de saúde, universidades, empresas e organizações da sociedade civil, para ampliar cada vez mais o acesso à experiência clínica e às melhores práticas em gestão. A participação das OSS em estudos e ensaios clínicos, por exemplo, permite que os pacientes tenham acesso a tratamentos inovadores, além de contribuir para o avanço do conhecimento médico e científico na rede pública.

Com a colaboração do IRSSL, os profissionais de saúde podem ter acesso a programas de educação e capacitação, por meio de cursos, workshops e treinamentos práticos, para atualizar suas habilidades e conhecimentos. Prova disso é o Simpósio Científico de 2023 do IRSSL, realizado em novembro, que abordou temas relevantes como diversidade e inclusão no SUS, impacto das mudanças climáticas e sociais na saúde, tecnologia e saúde na era digital, a formação dos profissionais de saúde, entre muitos outros.

Sabemos que a busca pela sustentabilidade do sistema público de saúde é um desafio complexo, mas para conseguirmos avançar diante das adversidades o Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês define diversas estratégias para promover a inovação e a pesquisa em saúde e a capacitação de líderes e gestores, com foco na melhoria contínua dos atendimentos e tratamentos oferecidos pelo SUS.

Algumas OSS enfrentam resistência por parte dos profissionais de saúde e sindicatos para introduzir novos modelos de gestão. É importante envolver esses grupos de forma colaborativa nas discussões desde o início do processo de implementação e comunicar de forma clara os benefícios da parceria, para garantir o apoio necessário. O paciente será sempre o grande beneficiado deste consenso de opiniões.

O sucesso das OSS no avanço do acesso e da qualidade dos serviços de saúde está sujeito a diversos fatores, incluindo o contexto político, regulatório e socioeconômico em que operam, bem como a qualidade da gestão e o compromisso com os princípios de equidade e universalidade do SUS, para que todos os cidadãos brasileiros, sem qualquer tipo de discriminação, tenham acesso às ações e serviços de saúde.

Para superar esses desafios e maximizar os benefícios para a população atendida, é fundamental promover uma abordagem colaborativa e participativa, envolvendo todos os stakeholders relevantes, incluindo gestores de saúde, profissionais de saúde, usuários do SUS, organizações da sociedade civil e setor privado. O objetivo é proporcionar os mais altos padrões de qualidade e segurança, o que pode envolver a implementação de sistema de monitoramento e avaliação, a adoção de protocolos de segurança e a participação ativa dos usuários na melhoria contínua dos serviços de saúde.

Além disso, é importante garantir um ambiente regulatório claro e favorável, investir em capacitação e desenvolvimento de recursos humanos e promover a transparência e a prestação de contas em todas as etapas da parceria entre as OSS e o SUS. A obtenção de resultados mensuráveis e eficiência na prestação dos serviços pode levar a uma maior ênfase na prevenção de doenças, gestão de doenças crônicas e coordenação do cuidado, resultando em uma população mais saudável e redução dos custos a longo prazo.

Um dos indicadores de sucesso das OSS é a certificação da Organização Nacional de Acreditação (ONA), baseada em rígidos padrões de qualidade, segurança e gestão integrada, revisados periodicamente. A maioria das unidades sob gestão do IRSSL já possuem certificação nível 3, o mais alto da Acreditação, que confere a excelência do serviço prestado. O propósito do Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês é levar a excelência administrativa e operacional, já reconhecida no setor privado, às esferas municipais e estaduais. O desafio da sustentabilidade na saúde pública tende a tornar-se cada vez mais acentuado, cabe a nós como gestores buscar de forma incessante soluções que melhorem o alcance e a qualidade dos atendimentos no SUS.
Adolfo Martin da Silva é diretor adjunto do Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês, gestão da OSS IRSSL.




iPhone 16: lançamento, preço, modelos e mais

 

O universo da tecnologia móvel está em constante evolução, e a Apple, como uma das principais inovadoras no ramo, traz anualmente novidades que capturam a atenção do mercado e dos consumidores. O iPhone 16 é um dos dispositivos mais aguardados de 2024, e neste artigo, você encontrará informações detalhadas sobre tudo o que precisa saber a respeito desse lançamento tão esperado.

Data de Lançamento e Disponibilidade

A Apple tem mantido um cronograma consistente para o lançamento iphone 16 como em lançamento de Iphone15com eventos geralmente ocorrendo em setembro. É esperado que o iPhone 16 siga essa tradição, com um anúncio oficial no início de setembro de 2024 e uma disponibilidade no mercado que pode ocorrer aproximadamente uma semana e meia após a apresentação.

Preço

Embora a Apple ainda não tenha divulgado oficialmente os preços do iPhone 16, especula-se que a estratégia de precificação seguirá padrões anteriores, ajustados à inflação e aos custos de produção. Dessa forma, os modelos padrão provavelmente terão um preço de entrada, enquanto os modelos Pro e Pro Max terão valores mais elevados, refletindo suas características avançadas.

Modelos e Diferenças

iPhone 16

O iPhone 16 padrão é o modelo base da nova linha. Espere um aparelho com um equilíbrio entre qualidade e custo, oferecendo as principais inovações da Apple sem os recursos adicionais dos modelos superiores.

iPhone 16 Plus

Para aqueles que preferem telas maiores, o iPhone 16 Plus preencherá essa necessidade. Com expectativa de compartilhar a maioria das especificações de hardware com o modelo padrão, seu diferencial será o tamanho da tela e, possivelmente, uma bateria de maior capacidade devido ao espaço interno ampliado.

iPhone 16 Pro

O iPhone 16 Pro é projetado para usuários que buscam um desempenho superior. Este modelo geralmente apresenta melhorias significativas no sistema de câmeras e em outros recursos como a qualidade da tela e materiais de construção.

iPhone 16 Pro Max

O iPhone 16 Pro Max é o ápice da linha, oferecendo a maior tela e as melhores especificações de hardware disponíveis, incluindo o sistema de câmeras mais avançado da série.

Características Técnicas

Tela

Espera-se que a Apple continue aprimorando a qualidade das telas em seus dispositivos, com rumores apontando para a adoção de novas tecnologias que ofereçam brilho mais intenso e cores mais precisas.

Processador

O coração do iPhone 16 deverá ser um novo chip, possivelmente denominado A18 Bionic, que prometerá um desempenho ainda mais veloz e eficiente que seu antecessor.

Memória e Armazenamento

Variações em capacidade de armazenamento são esperadas para atender diferentes necessidades e orçamentos, com modelos que podem iniciar com 128GB e alcançar até 1TB no modelo mais avançado.

Bateria

A duração da bateria é uma preocupação constante dos usuários, e a Apple pode trazer avanços tanto no tamanho das baterias quanto na eficiência energética do hardware e do sistema operacional para atender a essa demanda.

Câmeras

Como mencionado no briefing, uma evolução significativa é esperada no conjunto de câmeras do modelo Pro Max, que pode incluir novos sensores e tecnologias para melhorar ainda mais a fotografia móvel.

iOS 18

O iPhone 16 virá com o iOS 18 pré-instalado, oferecendo novos recursos e melhorias na usabilidade, privacidade e segurança. Este sistema operacional será o pilar para explorar o potencial completo do hardware.

Rumores e Vazamentos

Os vazamentos são uma constante na indústria, e com o iPhone 16 não é diferente. Imagens, especificações e até mesmo possíveis novos recursos circulam na internet, criando expectativas e antecipações sobre o que a Apple pode revelar.

Considerações Finais ao Comprar um Novo iPhone

O que procurar

Ao comprar um novo iPhone, é necessário avaliar o modelo, especificações técnicas, capacidade de armazenamento, qualidade da câmera e recursos do sistema operacional iOS 18.

Benefícios

Os benefícios de adquirir um iPhone 16 incluem acesso à tecnologia de ponta, atualizações constantes de software, suporte técnico Apple e uma experiência de usuário premium.

Diferenças

Comparado aos seus predecessores, o iPhone 16 trará melhorias em desempenho, fotografia, segurança e poderá introduzir novidades exclusivas.

Itens Inclusos

Ao comprar um iPhone 16, espera-se receber o dispositivo, carregador, cabo de dados, fones de ouvido (dependendo do modelo) e a documentação necessária.

Apple Footer

A Apple se orgulha de oferecer produtos e serviços de alta qualidade, e o iPhone 16 não será exceção. Com uma atenção meticulosa aos detalhes e ao design, espera-se que a nova geração de iPhones eleve ainda mais o padrão de excelência da marca.

A expectativa em torno do iPhone 16 é alta, e os consumidores brasileiros estão ansiosos para conhecer todas as inovações que a Apple tem reservado para 2024. Fique atento para mais atualizações e prepare-se para a próxima revolução em smartphones.

 

Álvaro Lordelo

 




Os desafios da luta antirracista X o papel da lei e da sociedade

 

Como mulher cis gênero e negra, assumo que falar sobre racismo é uma necessidade diária e constante, mas é como advogada especialista em Direito do Trabalho que assumo completamente meu lugar de fala para afirmar que a busca pela igualdade racial não é uma questão ideológica e sim uma missão constitucional.

Com base no histórico da luta contra a discriminação racial no Brasil, que passou a configurar crime somente a partir da Lei no 7.716/1989, observamos o quão recente é a evolução dessa questão, frente aos quase 400 anos de escravidão no país. E, mesmo diante de tamanha discrepância, precisamos nos concentrar neste tempo presente, no momento em que a Constituição avança para desconstruir o conceito de racismo estrutural que ainda oprime e segrega a população preta.

Recentemente, tive a honra de conduzir um projeto valioso para a comunidade do Direito. Como conselheira da Associação dos Advogados (AASP), coordenei, ao lado do colega Cristiano Scorvo Conceição, uma das mais relevantes publicações do meio no país – a Revista do Advogado, que trouxe à tona os desafios e caminhos para a igualdade racial além dos limites da advocacia. Essa é a primeira vez que o tema é abordado de forma tão completa nesta publicação, e fico orgulhosa de fazer parte desse marco histórico de uma associação que vem assumindo, cada vez mais, a conduta antirracista como um importante pilar institucional.

Para que a abrangência ao tema fizesse jus à crescente necessidade do enriquecimento do debate em todos os âmbitos que impactam a sociedade atual, convidamos um grupo de profissionais a discorrer sobre o racismo sob a ótica de cada área. O resultado foi um compilado de 22 artigos com conteúdos que servirão, sem dúvida, para ampliar o diálogo sobre as questões raciais em todas as esferas. Afinal, é preciso falar mais e mais. Até que chegue o dia em que não seja mais necessário falar.

Sei que é um pouco utópico da minha parte acreditar em um cenário futuro de completa igualdade racial no país, mas não deixo de acreditar no poder do esclarecimento, do conhecimento e do combate à desinformação para que realmente possamos enfrentar os impactos do preconceito.

O primeiro passo para isso é reconhecer que somos um país racista, construído pela perspectiva de dominação, onde a cor da pele é um fator crucial de diferenciação para o acesso, por exemplo, à educação, à saúde e ao mercado de trabalho. Hoje, a população negra tem direitos garantidos por lei, mas continua encontrando barreiras para o seu desenvolvimento. Basta olharmos ao redor para entender que a representatividade ainda é deficitária em espaços de poder, cargos de liderança nas empresas, entre outros ambientes ocupados pela população branca na sua maioria.

Quando fazemos o recorte de gênero, a situação fica ainda mais evidente: são, ainda, as mulheres negras a maioria em condições de trabalho desprotegido ou de subutilização. Além disso, somos minoria na ocupação de cargos de gestão.

Para mudar essa realidade, precisamos avançar na efetividade do cumprimento das leis e ampliação de ações afirmativas voltadas para essa parcela da população. E, sobretudo, é preciso que toda a sociedade se una em favor de um futuro mais igualitário e justo para todos.

Por Patrícia Souza Anastácio, Advogada/ Conselheira da AASP/ Membra da Associação Nacional dos Advogados Negros (ANAN).




O preconceito que condena

 

O programa Fantástico da Rede Globo trouxe mais uma história de injustiça cometida pelo Poder Judiciário brasileiro contra um jovem preto e periférico. Infelizmente, Carlos Edmilson da Silva é mais um dentre muitos jovens pobres, pretos ou pardos, que tem suas vidas destruídas por uma investigação mal conduzida e por um Poder Judiciário negligente, que dá maior evidência à voz da Polícia e do Ministério Público.

Carlos Edmilson viu sua vida mudar após uma prisão pelo cometimento do crime de furto na cidade de Barueri, região metropolitana de São Paulo. A partir daquele momento seus dados, como “criminoso”, passaram a constar do cadastro da Polícia. Ficou pouco tempo preso pelo crime de furto. Em liberdade, foi acusado e preso pelo estupro de quatro mulheres, ocorridos entre os anos de 2006 e 2007, novamente na região de Barueri. Ficou três anos preso até que um exame de DNA comprovasse que ele não era o autor daqueles crimes.

Ocorre que a sequência de injustiças não para por aí. Entre os anos 2010 e 2012 houve uma série de estupros na região de Barueri e Osasco, e, novamente, Carlos Edmilson foi apontado como autor dos crimes. Com base em um reconhecimento fotográfico, ele foi condenado a mais de 170 anos de prisão.

Após doze anos preso por um crime que não cometeu, correndo os riscos de quem é acusado de crimes sexuais, o Superior Tribunal de Justiça, por sua Quinta Turma, na última terça-feira (14), acolheu o recurso da defesa e colocou Carlos Edmilson em liberdade, uma vez que, novamente, o material genético (DNA) encontrado nas vítimas não era dele.

Instado a se manifestar sobre os fatos que seriam apontados na reportagem do Fantástico, o Tribunal de Justiça de São Paulo declarou que os juízes têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos processos e “seu livre convencimento”, reforçando que “Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente, como ocorreu no caso”. Ou seja, o Tribunal de Justiça lavou as mãos e não reconheceu que houve um erro judiciário na hipótese.

Para além disso, não se olvida que o juiz tem independência funcional, mas essa independência é limitada. Não pode, no mundo ideal, o magistrado condenar qualquer indivíduo, por qualquer crime, sem que o órgão acusador tenha provado suas alegações.

O sistema processual brasileiro adota, como regra, o sistema do livre convencimento motivado ou persuasão racional. A liberdade do magistrado não é plena, uma vez que não pode substituir a prova por meras conjecturas nem mesmo por sua opinião sobre os fatos ou sobre o acusado.

Em um processo penal ideal, o órgão de acusação deve apresentar uma hipótese acusatória e, com ela, os elementos probatórios correspondentes. Ademais, há que ser possibilitado a defesa apresentar contra-hipóteses e contraprovas. Sendo que, ao final, o julgador, diante do conhecimento atômico dos elementos apresentados (e não holístico), e da valoração sobre eles, emita sua decisão de maneira racional e imparcial.

No entanto, no mundo real a história é diferente. Os julgadores, afastando-se do mister constitucional, invariavelmente se fiam exclusivamente das hipóteses acusatórias e nos escassos elementos de prova apresentados pela acusação, escanteando as teses defensivas, alegando para tanto o mantra do “livre convencimento motivado”, tal como o Tribunal de Justiça lançou em sua nota.

Segundo Gustavo Henrique Badaró, partindo-se de uma concepção racionalista, de que a decisão deve se fundar num método de corroboração de hipóteses fáticas (com base na prova produzida, e não na crença do julgador), o que importa é se a proposição fática está suficientemente corroborada – e não falsificada por hipóteses contrárias ou diversas – para ser tida por provada. Logo, o processo de valoração serve para verificar se as hipóteses fáticas estão ou não confirmadas pelas provas, e não para gerar uma crença no julgador.

No caso trazido pelo Fantástico, Carlos Edmilson foi condenado diante do reconhecimento fotográfico realizado pelas vítimas. No entanto, conforme ficou evidenciado posteriormente, havia material genético que poderia ser utilizado como elemento de prova para confirmar se, de fato, Carlos era o autor do crime. Graças ao trabalho do “Innocence Project Brasil” foi possibilitada a produção do exame de DNA que demonstrou, cabalmente, que Carlos não era o autor dos estupros.

No entanto, fica a pergunta, se havia material genético para demonstrar se Carlos era ou não autor do crime, por que o Ministério Público não produziu essa prova cabal? Por que o Poder Judiciário paulista se contentou com o reconhecimento fotográfico? A resposta é simples: porque Carlos Edmilson da Silva era, na época do julgamento, um jovem, preto, pobre e periférico, portanto, estigmatizado pela cor de sua pele e pela sua condição econômico-social, fato que ocorre não raras vezes nos tribunais brasileiros. Quando isso vai acabar? Quando o Poder Judiciário irá julgar racionalmente o processo penal? Quando o Poder Judiciário irá julgar analisando os fatos e as provas, e não as pessoas acusadas? Quando esse preconceito terá fim?

 

Marcelo Aith é advogado criminalista. Mestre em Direito Penal pela PUC-SP. Latin Legum Magister (LL.M) em Direito Penal Econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa – IDP. Especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidade de Salamanca.

 

 

 




A tragédia anunciada no Rio Grande do Sul

 

As enchentes que assolam o Rio Grande do Sul há mais de duas semanas, com um saldo trágico de 148 mortes e meio milhão de desabrigados, escancaram a vulnerabilidade do estado frente aos eventos climáticos extremos intensificados pelas mudanças climáticas. A catástrofe, que já afeta 2,1 milhões de pessoas em 447 municípios, exige ações urgentes e eficazes para mitigar seus impactos e prevenir futuras tragédias.

Estudos científicos recentes, como o realizado pelo grupo ClimaMeter, evidenciaram que as chuvas que atingiram a região Sul do país foram 15% mais intensas devido às mudanças climáticas em curso.

As consequências das enchentes vão além dos números alarmantes de mortes e desabrigados. A saúde pública enfrenta o risco iminente de surtos de doenças infecciosas, como diarreias, leptospirose e dengue, que se propagam rapidamente em ambientes contaminados.

A economia do estado, fortemente impactada, sofre perdas incalculáveis na agricultura, com lavouras destruídas e animais mortos, na indústria, com fábricas paralisadas e infraestruturas danificadas, e no comércio, com lojas fechadas e mercadorias perdidas. Os efeitos dessa crise econômica se estendem por toda a cadeia produtiva, afetando empregos, renda e o desenvolvimento do estado.

A resposta do governo federal, com a liberação de um pacote de R$ 50 bilhões e a suspensão da dívida pública do estado, é um passo importante, mas não suficiente. A reconstrução do Rio Grande do Sul demanda um esforço conjunto de todos os setores da sociedade, com investimentos em infraestrutura, moradia, saúde e prevenção de desastres.

É preciso investir em sistemas de alerta precoce, mapeamento de áreas de risco, construção de diques e barragens, além de promover a educação ambiental e a conscientização da população sobre os riscos e medidas de prevenção.

Nesse contexto, o papel do poder público e dos parlamentares é fundamental. Aos governantes cabe a responsabilidade de liderar o processo de reconstrução, destinando recursos, elaborando planos de ação e implementando políticas públicas eficazes.

Aos parlamentares, cabe o papel de fiscalizar a aplicação dos recursos, propor leis que fortaleçam a prevenção e o enfrentamento de desastres naturais e garantir que os interesses da população afetada sejam atendidos.

A aprovação da suspensão da dívida do Rio Grande do Sul com a União pela Câmara dos Deputados é um exemplo de ação legislativa que pode contribuir para a recuperação do estado.

Além disso, a solidariedade entre os estados da federação é crucial neste momento. Estados como São Paulo, com maior capacidade econômica e logística, podem contribuir significativamente para a reconstrução do Rio Grande do Sul.

A mobilização de recursos, envio de equipes de resgate e assistência médica, doação de alimentos, água e medicamentos, além do apoio na reconstrução de infraestruturas, são exemplos de ações que podem fazer a diferença na vida das pessoas afetadas.

A experiência de outros países, como a Holanda, referência mundial em engenharia hidráulica, pode ser valiosa na busca por soluções eficazes. A expertise holandesa em planejamento de diques, barragens e sistemas de drenagem pode contribuir para a criação de uma infraestrutura resiliente no Rio Grande do Sul, capaz de proteger a população e minimizar os danos causados por futuras enchentes. A cooperação internacional, com intercâmbio de conhecimentos e tecnologias, pode ser fundamental para o enfrentamento desse desafio.

A tragédia gaúcha é um alerta para todo o país. As mudanças climáticas são uma realidade inegável, e seus impactos já se fazem sentir com força crescente em diversas regiões do Brasil.

É necessário que governos, empresas e sociedade civil se unam em um esforço conjunto para mitigar os efeitos do aquecimento global, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e investir em energias renováveis. A transição para uma economia de baixo carbono é essencial para garantir um futuro mais seguro e sustentável para todos.

A reconstrução do Rio Grande do Sul é um desafio colossal, mas não impossível. Com planejamento, investimentos, cooperação, liderança do poder público e a solidariedade de outros estados, é possível transformar a tragédia em oportunidade para construir um estado mais resiliente, preparado para enfrentar os desafios do futuro e garantir o bem-estar de sua população.

A união de esforços em todos os níveis é fundamental para superar essa crise e construir um futuro mais seguro e próspero para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.

Mauro Bragato é deputaddo estadual (SP)




Atenção mulheres: é proibido envelhecer!

 

No final do ano de 2021, a atriz Sara Jéssica Parker, hoje com 59 anos de idade, concedeu uma entrevista à revista Vogue onde relatou os inúmeros comentários negativos que recebeu, e, ainda, vem recebendo, sobre sua aparência, como suas rugas e seus cabelos grisalhos, em contraposição a sua antiga cabeleira loira e brilhante. Uma tendência que vem sendo abraçada por muitas mulheres no mundo que para além das tendências de coloração, que ditam a moda, permitir a presença dos cabelos prateados, denota uma atitude de libertação e obediência ao próprio repertório, que repousa no desejo de manifestar aquilo que se é, bem como, não oferecer tanta resistência a ação do tempo, e, ainda, sinalizar com força a possibilidade de novos padrões de beleza.

Seria muito mais terno, belo e humano se fosse algo natural, já que o envelhecimento reflete, ou ao menos deveria refletir, o processo de amadurecimento da pessoa. E é justamente no compêndio das experiências que uma mulher possui, tais como suas histórias, suas crenças, suas cicatrizes e seus aprendizados, que reside uma imensurável beleza.

Mas é sabido, que esta atitude clama por coragem, já que no mundo real se a mulher opta por envelhecer, terá de enfrentar o manto da invisibilidade que lhe retirará de cena, pois a ordem social que tem imperado glamouriza a juventude, direcionando todos os holofotes a tudo que é jovial, verde, ao que principia.

As mulheres, como sempre, são as vítimas preferenciais da ditadura da beleza. E este é um fato praticamente incontroverso em nossa sociedade patriarcal. “Parker”, na entrevista supramencionada, se compara com o colega, de praticamente mesma idade, “Andy Cohen”, da famosa série por eles estrelada, “Sexy and the City”, que também ostenta rugas e cabelos grisalhos, mas nele é “primoroso” e desabafa: “Eu sei como eu sou. Eu não tenho escolha. O que vou fazer a respeito? Parar de envelhecer? Desaparecer?” (sic)

Uma lástima! Triste consentir que em pleno século XXI uma mulher não possa decidir como pretende envelhecer, sem ser massacrada. Afinal, a clientela masculina, quanto aos efeitos do envelhecimento em seus corpos, não sofrem com agentes limitadores na mesma proporção que ocorre com as mulheres.

Homens grisalhos e mais velhos, gozam de prerrogativas como beleza, experiência e virilidade. A exemplo, podemos citar no Brasil, o grande ator brasileiro, Antonio Fagundes, atualmente com quase 75 anos de idade, muito charmoso e belo, exibe cabelos ultra brancos, rugas normais do processo do envelhecimento e pálpebras inchadas, para não dizer caídas ao redor dos olhos. Porém, não importa como esteja, vai provocar suspiros por onde passar.

Uma atriz nas mesmas condições, se optar não retocar a área dos olhos e aparecer com as mesmas “bolsas” abaixo dos olhos, certamente receberá críticas e apontamentos de descuido.

Sem contar o cabelo grisalho feminino, que realmente desaponta a sociedade, é algo quase que inaceitável. Não somente o tom prateado das madeixas, mas definitivamente, está proibido enaltecer tudo que não é de bom gosto, como sobrepeso, rugas e cabelos brancos. Mulheres estão proibidas de envelhecer, é isto!

Reconheça sua idade e mantenha-se jovem, para não sofrer os efeitos restritivos da passagem do tempo. Não à toa, clínicas e consultórios médicos voltados para o mercado da estética, encontram-se cada vez mais abarrotados. E é de fato, difícil por vezes, sair da consciência coletiva que nos empurra para estes lugares.

A declaração de Jéssica, sensibiliza e indigna, pois é como se ela devesse um pedido de desculpas à sociedade por não retardar o próprio envelhecimento e, deste modo, perder complemente seu valor e seu apreço.

O fato é que envelhecemos de dentro para fora. E tal manifestação é urgente e irrecuperável, bem como, é igualmente urgente, que todos nós combatamos estas castrações sociais, pois somente assim conseguiremos traspor as muralhas da certidão de nascimento, que constroem muros internos imensos e quase que instransponíveis.

Cada um deveria decidir, por si mesmo, como quer viver, sem medo de ousar, sem medo de parecer ridículo, sem medo de amar, porque esse é o único sentimento que não envelhece. Mas, sim, o  amor tardio, também não é bem-visto.

Simone de Beauvoir, escreveu um pequeno romance – “Mal entendido em Moscou” – onde narra uma crise existencial suprema, ao se deparar com a idade, com a velhice, durante uma viagem. Há uma passagem no livro, que merece destaque, pois exprime uma dor suprema – a idade que nos desqualifica, a velhice intolerável, que suplanta o próprio medo da morte:

“Estou sozinha”! A angústia a fulminou: angústia de existir, muito mais intolerável que o medo de morrer. Sozinha como uma pedra no meio do deserto, mas condenada a ter consciência da inutilidade de sua presença. Todo o seu corpo amarrado em um nó, rígido, em um grito silencioso.” (BEAUVOIR, Simone. Mal-entendido em Moscou. 1ª edição. Rio de Janeiro.2015).

Será mesmo que na medida em que nós mulheres vamos cedendo à força do inconsciente, que não quer mais resistir a ação do tempo, estaremos fadadas a experimentar tamanha solidão e medo?

Não há uma resposta simples, evidente, mas o fato é que é preciso ter coragem e autonomia para viver em conformidade com a própria essência, uma atitude que contribuirá para que mais e mais mulheres ousem abraçar seus processos, ousem exibir suas mechas cor de prata, corpos mais frágeis e com menos tônus ou mesmo com mais adiposidade, pois, desse modo, fortalecerão e encorajarão outras mulheres, exaustas desses padrões opressores.

Por fim, sempre de bom alvitre lembrar que os fiscais da beleza de hoje e aqueles que escrevem as cartilhas para homens e mulheres de modo geral, que dizem quem está apto a desempenhar papeis no mercado de trabalho ou não, levando-se em conta, justamente a faixa etária, ou seja, os grandes atores que promovem e alimentam o etarismo de hoje, serão as vítimas destes mesmos padrões e processos num brevíssimo amanhã.

Portanto, precisam se dar conta que, no momento, estão apenas alinhavando seus pescoços para sangrar na mesma guilhotina.

 

Ana Toledo é advogada, sócia do escritório AC Toledo Advocacia. Especialista em Direito Previdenciário Público e Seguridade Social. www.actoledo.com.br

 




Saber escutar nos aproxima das pessoas

 

 

Desde que desenvolvemos a linguagem, passamos a valorizar os grandes oradores. Na escola, os melhores alunos são os que dão as melhores respostas. Nas organizações não é diferente. Quem fala bem, se dá bem. Admiramos e promovemos líderes capazes de comunicar com clareza uma mensagem, envolver, cativar e persuadir outros por meio de sua linguagem.

O que tenho observado é que a habilidade que mais faz falta nas pessoas, especialmente nos líderes que acompanho é a escuta. Dada nossa educação, não é difícil perceber porque a escuta ainda não é valorizada, portanto não é desenvolvida. Nas empresas, executivos e executivas são valorizados pela arte da fala, tornam-se grandes contadores de histórias ou grandes negociadores.

São homens e mulheres reconhecidos por sua incrível capacidade de influenciar pessoas pela arte da fala. Sua capacidade de escutar fica em segundo plano. Sequer percebem que não sabem escutar. Sabem ouvir, mas alguns estão longe de saberem escutar.

Em minha trajetória, percebo que aprender a ter boa oratória é muito mais fácil que aprender a escutar. Porém, existe uma saída, pois aos poucos esse jogo está mudando. Para algumas organizações a empatia na liderança é uma habilidade valorizada.

Fala-se cada vez mais de uma liderança humanizada. Isso significa uma liderança que gosta e cuida de gente. E o que seria da empatia sem a escuta? Se não soubermos escutar, não poderemos compreender o que a outra pessoa está experienciando.

Escutar é difícil. Por si só, a escuta já é um problema. Para o filósofo chileno Rafael Echeverría, escutar é igual a “ouvir + interpretar”. A nossa capacidade de processar, interpretar e julgar a informação é nossa principal aliada e ao mesmo tempo nossa principal inimiga na escuta. Ao escutarmos, podemos acessar o mundo do outro. Por isso, a escuta é tão poderosa.

E ao escutarmos, interpretando o mundo do outro, podemos nos afastar do nosso. Nossa interpretação pode ser o oposto do que o outro tem a nos dizer. Contudo, se escutarmos bem, corremos o risco de aprender e de nos transformar pela fala do outro.

Quando escutamos verdadeiramente, mudamos. Não é possível sair da mesma forma que entramos em uma conversa, se nossa escuta for genuína. O que o outro fala, me impacta de diversas maneiras. Como o outro fala pode me levar a diversos lugares, dependendo da minha forma de ver o mundo.

Se conseguirmos suspender, por alguns minutos, nossa forma de ver o mundo para colocar a lente do outro, uma conversa se torna um portal aberto para novas possibilidades de ver, de ser e de fazer. Se somos capazes de escutar e perceber esse lugar de onde o outro fala, não tem erro. Sairemos transformados.

É por isso que nossa escuta é tão importante. Nos aproxima de qualquer pessoa, por mais diferente que esta pessoa seja de nós. Mas isso só é possível se tivermos interesse, se conseguirmos desapegar e estivermos suficientemente curiosos para conhecer até aquilo que achamos que já sabemos.

Esse é meu convite para você: escute de verdade. Seu mundo nunca mais será o mesmo.

 

Roberta Perdomo é especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e autora do livro “Eu não nasci para liderar




O inesperado e o sem precedentes

 

 

 

Na segunda-feira, 1º de abril, supostos aviões militares de Israel bombardearam o consulado iraniano em Damasco, na Síria. Nesse ataque, o comandante da Guarda Revolucionária do Irã, Mohammad Reza Zahedi, e outras seis pessoas faleceram. A Guarda Revolucionária do Irã, também conhecida como Força Quds, é uma organização militar fundada em 1979, logo após a Revolução Iraniana, que resultou na queda do xá Mohammad Reza Pahlavi e no estabelecimento da República Islâmica do Irã, sob a liderança do aiatolá Ruhollah Khomeini.

Originalmente criada para proteger os ideais revolucionários do novo regime e defender o país contra ameaças internas e externas, a Guarda Revolucionária tornou-se uma das instituições mais poderosas e influentes do país persa. Operando independentemente das Forças Armadas regulares, é considerada uma força de elite que reporta diretamente ao Líder Supremo.

Além de suas operações dentro do Irã, a Guarda Revolucionária também desempenha um papel ativo em várias regiões do Oriente Médio, particularmente no apoio a grupos e movimentos aliados ao Irã, como o Hezbollah no Líbano e várias milícias xiitas no Iraque, na Síria e no Iêmen. A unidade mais conhecida da Guarda Revolucionária neste contexto é a Força Quds, responsável pelas operações extraterritoriais e pelo apoio a grupos aliados além das fronteiras do Irã.

Logo após o ataque de 1º de abril, o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, declarou que Israel teria violado o Direito Internacional “ao cometer o crime terrorista de atacar o edifício diplomático”. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, afirmou que Israel não apenas deveria, mas seria punido. Foi nesse contexto que, entre o sábado, 13 de abril, e o domingo, 14 de abril, ocorreu um ataque sem precedentes no Oriente Médio: cerca de 300 drones e mísseis iranianos foram disparados em direção a Israel.

O ataque foi seguido por uma resposta já esperada: aliados de Israel, como Estados Unidos, Reino Unido e França, se mobilizaram para deter e interceptar os projéteis iranianos. O inesperado, no entanto, veio logo a seguir: a ajuda de países árabes. A Jordânia, por exemplo, abriu seu espaço aéreo para aviões israelenses e estadunidenses, e os próprios jordanianos teriam abatido alguns dos drones iranianos. Esse fato pode ter soado como uma surpresa, pois, no passado, a Jordânia já atacou Israel. Mais do que isso, uma parte significativa da população jordaniana tem origem palestina.

O outro aspecto sem igual do ataque recente foi o apoio da Arábia Saudita a Israel, interceptando disparos provenientes do Iêmen. A ajuda saudita, no entanto, não era necessariamente um gesto de proteção ou aliança com Israel, mas, sim, uma ação contra Teerã. A Arábia Saudita e o Irã, principais potências do Golfo Pérsico, competem tanto pela liderança quanto pela influência na região. Ambas as nações estão envolvidas em uma série de conflitos regionais, apoiando atores opostos e buscando expandir sua rede de aliados. No Iêmen, outro foco de instabilidade no Oriente Médio atual, a Arábia Saudita lidera uma coalizão militar que combate os rebeldes Houthis, apoiados pelo Irã. Além disso, os dois países têm interesses conflitantes na Síria, no Líbano e em outras nações.

Entre 18 e 19 de abril, Israel atacou o Irã em resposta. Esses ataques teriam atingido aeroportos e instalações militares – próximos a locais onde é desenvolvido o programa nuclear iraniano. Anteriormente, o Irã havia dito que qualquer resposta israelense escalaria o conflito, com uma nova rodada de disparos vindos de Teerã. Agora, a questão é se isso de fato ocorrerá. Por maior que tenha sido o ataque iraniano em 13 de abril, parece ser mais uma demonstração de força. Os iranianos certamente sabiam que o sistema de defesa “Domo de Ferro” de Israel interceptaria boa parte dos projéteis. Com a recente resposta de Tel-Aviv, poderemos presenciar uma escalada jamais vista dos conflitos no Médio Oriente – pois as forças iranianas são exponencialmente maiores que as de Israel.

Enquanto aliados de Israel tentam moderar as ações de Tel-Aviv, as bolsas de valores ao redor do mundo despencaram e o dólar no Brasil alcançou seu maior valor em mais de um ano. É provável que, em breve, vejamos novos reflexos nos preços do petróleo e das commodities em geral. Esses efeitos, no entanto, não são nem inesperados nem sem precedentes.

João Alfredo Lopes Nyegray é doutor e mestre em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Coordenador do curso de Comércio Exterior e do Observatório Global da Universidade Positivo (UP). Instagram: @janyegray

 




Quando resistir não é a solução

 

 

Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica, nos lembra que tudo a que resistimos, persiste. Refletindo sobre esta sua famosa frase, consigo entender o quanto é importante encarar de frente as nossas dificuldades, os nossos anseios, pois só assim conseguimos despertar a consciência para um caminho de amadurecimento emocional.

Temos o hábito de nos cobrar sermos o tempo todo felizes, capazes, eficientes e muitas outras características que nos fazem acreditar que temos que ser perfeitos, que não podemos ou não devemos sentirmo-nos frustrados, ansiosos, tristes, decepcionados e quando algo acontece e percebemos estes sentimentos em nós que são considerados negativos, tendemos a resistir em entrar em contato com eles, pois os consideramos sinais de fraqueza e vulnerabilidade.

Sendo assim, ignoramos o que está se passando conosco internamente criando a ilusão de que com este comportamento estamos protegidos e assim nos sentiremos melhor. Certo? Não, errado…

Quanto mais fugimos dos nossos pensamentos, sentimentos e emoções, mais presos a eles ficamos, pois quando nos esforçamos para escondê-los de nós mesmos e dos outros, continuamos próximos deles, tentando empurrar para baixo o que está incomodando, construindo desta forma uma barreira que impede de nos enxergarmos por completo com todas as qualidades que nos pertencem, nos limitando a aceitar o nosso modo de ser e sentir.

Agindo assim, ficamos remando contra a maré, e a dor e o sofrimento velados, podem inclusive aparecer através de sintomas físicos como uma doença ou uma alteração orgânica até que possamos dar-lhes a devida atenção. É como quando temos uma ferida infeccionada e insistimos em cobri-la, o pus que está por baixo dela quer sair a todo custo, e enquanto não tiramos o curativo e deixamos o pus sair, a ferida fica ali latejando.

Segundo Jung, quanto mais resistimos aos nossos medos, ao que nos assusta, aos nossos sentimentos considerados por nós ruins, mais poder e domínio eles terão sobre nós; agiremos de maneira inconsciente repetindo padrões de comportamento sem nem sequer saber para que estamos agindo daquela maneira.

Portanto negar, resistir, fugir àquilo que nos incomoda, só agrava os estados de ansiedade, inquietação e nervosismo.

A tristeza, a ansiedade, os medos, as frustrações, as decepções, os conflitos, nos tornam humanos e aceitar que estes aspectos fazem parte de nós, pode colaborar para vivermos de maneira mais harmoniosa e gentil, contribuindo com o nosso equilíbrio e liberdade emocionais.

 

 

Por Renata Nascimento é psicólogaclínica de orientação junguiana