O sabor do conhecimento

Bem se expressa o pedagogo Rubem Alves quando diz que o saber sem prazer é como a comida sem sabor. Vem dele a inspiração desta metáfora que envolve escritores e cozinheiros: “só aprende quem tem fome”. Por certo, com pouca motivação ninguém comeria uma refeição que não lhe desperta o paladar. Arrisco dizer que, da mesma forma, ninguém ficaria entusiasmado em provar algo que não lhe estimula outros sentidos, como o olfato ou a visão – talvez daí venha, inclusive, a expressão “comer com os olhos”.

Curiosa pelas novidades da cozinha, li dias atrás sobre a neurogastronomia e um estudo sobre como o cérebro estabelece o gosto, apontando, inclusive, que fatores sociais têm uma forte e importante influência nessa percepção. Mágico, não é? Para mim, enquanto educadora, a descoberta soou como um convite a refletir sobre quanto da relação “saber e sabor” está presente no ato de aprender. Afinal, aprendemos o tempo todo, mas aprendemos mais e de forma mais significativa e duradoura quanto mais estivermos encantados e provocados a experimentar e saborear novos conhecimentos.

Quem teria animação em frequentar a escola se não espera ter experiências agradáveis com o processo de ensino e aprendizagem? Com certeza, para que tenhamos motivação e vontade de manter essa rotina, precisamos de muitos estímulos. Essa energia precisa vir das mais diversas maneiras, por meio de nossos olhos, ouvidos, mãos, nariz, paladar.

Para que frequentar a escola seja prazeroso para pais, crianças e educadores; é necessário haver preparação de todas as partes. Assim, para os professores, planejar as aulas seria o ato de aguçar o paladar de nossos alunos. Um envolvimento mútuo, que inclui responsabilidade e criatividade. Uma boa dose de participação coletiva que acrescentará um tempero especial ao ensino, despertando o sabor do aprendizado ao longo de cada semestre. Começar bem um prato não é garantia de sucesso, mas já nos dá uma boa perspectiva de que teremos algo delicioso para provar no final.

Pensando assim, o cuidadoso planejamento desse retorno requer preparação, cuidado e muito amor. Precisamos nos dedicar à escolha dos melhores ingredientes, os mais coloridos e mais saborosos, assim como fazem os grandes cozinheiros de todo o mundo. A escola mantém esse processo ao longo do ano letivo. Ela nunca para de repensar seus métodos e abordagens.

A equipe de gestores precisa se mobilizar a fim de receber seus professores e organizar as receitas de aula. Criar um ambiente acolhedor e prazeroso, pensar no cardápio e escolher os melhores elementos para produzir os pratos mais saborosos. Da mesma forma, do outro lado, os pais e estudantes devem se dedicar à preparação para essa rotina. Todos devem estar engajados na cerimônia e nos preparativos para tornar o aprender o mais especial possível. 

Importante também, nesse contexto, é o papel da família em amenizar as dificuldades que os meninos e meninas podem enfrentar na escola. Enquanto estão em casa, é momento de relaxar, conhecer lugares e pessoas, fazer novas descobertas. Porém, durante as aulas, é preciso ficar atento para que a rotina seja flexível, mas não imprópria.

O sabor prazeroso do saber é uma responsabilidade de todos os envolvidos no processo de construção do conhecimento. Esse conjunto determina o rito de preparo dos pratos e sua forma de apresentação à mesa. Do começo ao fim do ano letivo, é necessário que os participantes da produção do saber estejam comprometidos. Só assim, como declara o educador Paulo Freire, a escola será mais do que prédios, salas, quadros, programas, horários e conceitos. Ela será, sobretudo, gente que trabalha, estuda, se alegra, se conhece e se estima. Gente que tem fome de “descobrir”, ávida por sentir o sabor agradável da Educação.

Claudia Saad é pedagoga e gerente executiva do Sistema Positivo de Ensino.




PHN 25 anos: um encontro de gerações 

O que é o PHN? Um acampamento? Um programa de televisão? Uma missão? Na verdade, o PHN provocou o surgimento de tudo isso. O “Por hoje Não!” (PHN) é um MÉTODO de busca da Santidade, propagado muito antes da sigla PHN começar a existir. E quem levava este anúncio da santidade com toda a força era padre Jonas Abib, com uma expressão muito forte já no início dos anos 90: “Ou santos ou nada!”

Desde quando fundou a Canção Nova, padre Jonas sempre buscou levar os jovens a uma adesão radical ao Evangelho. Ele se preocupava com a seguinte questão: como ajudar o homem moderno a lutar contra o pecado, viver uma verdadeira conversão e buscar a santidade? E a resposta estava no PHN: lutar um dia de cada vez, o “Por hoje Não!”

Padre Jonas Abib conhecia muito bem o trabalho do AA (Alcoólicos Anônimos), e concluiu que se a luta do pecador contra o pecado fosse igual a luta do alcoólatra contra o álcool, teria condições de transformar o “anúncio” em um método prático, simples e eficaz.

E a “receita” deu tão certo que, em 1998, houve uma “explosão”, nasceu o PHN, o primeiro acampamento que reuniu jovens do Brasil inteiro, para dizer a plenos pulmões: POR HOJE NÃO VOU MAIS PECAR!

O tempo passou e, neste ano de 2023, celebraremos o JUBILEU DE PRATA do Acampamento PHN! Quantos testemunhos de mudança de vida, libertação, encontro pessoal com Jesus, efusão no Espírito Santo recebemos ao longo desses anos. Também é lindo ver que muitas amizades, muitos namoros, noivados, casamentos nasceram no PHN, e esses casais hoje trazem seus filhos, seus netos para participar do Acampamento. Um encontro de gerações que torna ainda mais especial o PHN!

Será também a primeira vez que o Acampamento PHN terá uma temática voltada para Maria, a mãe de Jesus. Toda esta história, de 25 anos, será colocada nas mãos dela, aquela que esmaga a cabeça da serpente e da qual somos descendentes segundo o livro do Gênesis. O tema “Dignos das promessas” vem da frase que encerra a oração “Salve Rainha” (Salve Regina), rezada ao final do terço mariano. Cada pregação deste acampamento PHN terá uma abordagem envolvendo um trecho dessa oração.

De quarta-feira a domingo, 12 a 16 de julho deste ano, a Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP) estará cheia do agradável “odor” da Virgem Maria. E, após o término do acampamento, cada jovem, cada família, voltará para sua casa com a companhia de Nossa Senhora, para que sua luta pela santidade não seja  um “fogo de palha”, mas sim um propósito para toda a vida!

“Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos DIGNOS DAS PROMESSAS de Cristo. Amém!”

Pitter Di Laura é missionário da Comunidade Canção Nova, compositor, cantor, apresentador do programa PHN, pela TV Canção Nova, e responsável pelo Acampamento PHN.




A explosão de Nova Kakhovka e o “ecocídio” russo na Ucrânia

 

 

A região ucraniana de Kherson, sob o controle russo, foi palco não apenas de mais um crime de guerra, mas de um ataque que resultou na dramática ruptura da barragem da usina hidrelétrica de Nova Kakhovka. Em um curto período de tempo após a explosão, o nível da água atingiu um estado crítico, e estima-se que mais de 600 quilômetros quadrados tenham sido inundados. A barragem, que represava cerca de 2.000 quilômetros quadrados de água, era o maior reservatório da Ucrânia – e sua água era utilizada até mesmo para resfriar os reatores da usina nuclear de Zaporizhia. Atualmente, relatos apontam que o nível da água subiu mais de 11 metros em algumas áreas, resultando não apenas em perdas humanas, mas também em danos ambientais de proporções incalculáveis e potencialmente irreversíveis

Localizada no Rio Dniepre, a barragem destruída foi construída na década de 1950 e apresentava uma estrutura altamente reforçada, tornando sua demolição uma tarefa desafiadora. Assim, logo após o evento, algo bastante comum nessa guerra ocorreu: um confronto de narrativas. Os russos acusam os ucranianos, embora isso pareça contraditório, considerando o domínio russo na área, enquanto os ucranianos responsabilizam Moscou por mais um crime de guerra. Não há indícios de que a explosão tenha sido causada por mísseis ou artilharia pesada, sendo mais provável que tenha ocorrido internamente à barragem.

Em relação às evidências, as autoridades ucranianas de segurança alegam ter interceptado uma chamada telefônica que comprovaria o envolvimento da Rússia na destruição da barragem. O serviço de segurança do país divulgou nas redes sociais um áudio com cerca de um minuto e meio, no qual um militar russo admite que um grupo de sabotadores leais ao Kremlin foi responsável pela explosão.

Vasyl Malyuk, diretor dos Serviços de Segurança da Ucrânia (SBU), afirmou nas redes sociais que “Ao destruir a barragem da central hidrelétrica de Kakhovka, a Federação Russa demonstrou de uma vez por todas que representa uma ameaça para toda a comunidade civilizada. Afinal, somente um Estado verdadeiramente terrorista poderia causar uma catástrofe humana e ambiental dessa magnitude. A Rússia será definitivamente responsabilizada por esse ato”.

Mais de 40 mil pessoas na região de Kherson foram afetadas pela destruição da barragem. Além disso, surge a preocupação com o “ecocídio”, termo utilizado para descrever o extermínio ou a destruição deliberada e em larga escala dos ecossistemas naturais de um determinado local. Embora ainda não possua um reconhecimento legal internacional, o termo é utilizado para descrever ações humanas que causam danos graves e irreversíveis ao meio ambiente, como perda de biodiversidade, degradação dos recursos naturais, poluição, mudanças climáticas e outros impactos significativos no equilíbrio ecológico – o que certamente ocorreu.

Após a destruição da barragem, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou para o impacto direto que o ocorrido pode ter na segurança alimentar global, uma vez que manchas de óleo, cadáveres e animais mortos estão se espalhando na área. Plantações foram inundadas e substâncias nocivas, como metais pesados, combustíveis, fertilizantes e centenas de outros produtos químicos, se misturaram à água das inundações.

Ao longo das margens do reservatório haviam indústrias químicas e siderúrgicas, o que aumenta a preocupação de que metais pesados e substâncias tóxicas se disseminem pela região inundada, contaminando vastas áreas da Ucrânia que anteriormente eram produtoras de alimentos. Armazéns de pesticidas foram destruídos e postos de combustível tiveram seus reservatórios inundados, agravando ainda mais os danos ambientais resultantes da explosão da barragem.

O zoológico de Kazkova Dibrova, localizado na região da barragem, foi completamente destruído pela enchente, resultando na morte de todos os animais que viviam lá. A água alcançou regiões disputadas por Ucrânia e Rússia, e centenas de minas terrestres previamente implantadas pelos russos estão agora à deriva na área afetada.

Enquanto a humanidade se esforça para promover a paz e a preservação ambiental, as ações russas, mais uma vez, seguem em direção oposta. O ataque à represa de Nova Kakhovka é indubitavelmente mais um dos crimes de guerra que podem ser atribuídos a Moscou.

João Alfredo Lopes Nyegray é doutor e mestre em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Coordenador do curso de Comércio Exterior na Universidade Positivo (UP). Instagram: @janyegray




Supremo consolida regras para dispensa sem justa causa no Brasil

Em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou válido o Decreto presidencial 2.100/1996 que comunicou a retirada do Brasil do cumprimento da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que proíbe a dispensa sem justa causa. A Corte Superior também entendeu que a denúncia de tratados internacionais pelo Presidente da República exige a anuência do Congresso Nacional. Esse entendimento vigorará a partir de agora, preservando os atos anteriores.

Importante destacar que, além de vedar a dispensa imotivada, a Convenção 158 da OIT prevê uma série de procedimentos para o encerramento do vínculo de emprego.

Tal instrumento internacional entrou em vigor no Brasil em 1996, após passar pelo Congresso Nacional, com aprovação do Legislativo e do Executivo, contudo, poucos meses depois foi denunciado via decreto pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Em simples palavras, o ato do presidente de denunciar possui o significado de inaplicabilidade do instrumento internacional (convenção 158) no Brasil. Ou seja, restou afastada a aderência e aplicabilidade no Brasil através de ato do Presidente da República do instrumento internacional, portanto, após a denúncia ocorrida, os empregadores continuaram a poder dispensar seus empregados sem justa causa independente de necessidade de justificativa.

A questão levada ao STF, ao contrário do que alardearam alguns especialistas, não era de retorno da aplicabilidade do instrumento coletivo internacional no sentido de tornar obrigatória a justificativa para a dispensa sem justa causa, mas sim sob o viés específico se o ato do presidente, através da denúncia realizada, estaria revestido de constitucionalidade.

Após 25 anos de tramitação no Supremo, a decisão revelou que daqui em diante não poderá o Presidente da República retirar por decreto o Brasil de eventuais tratados internacionais que se submeteram ao caminho de aprovação das casas legislativas, e ainda que com diferentes fundamentações, a impossibilidade do Supremo Tribunal Federal anular ato assinado pelo Presidente da República.

A consequência prática revela que: 1) permanece no mundo jurídico o decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso ; 2) declarado através de efeito modulador que de agora em diante nenhum decreto unilateral do presidente da república poderá retirar por decreto o Brasil de tratados internacionais. Assim, nesse contexto, o instrumento 158 da OIT que seria capaz de exigir justificativa para a dispensa sem justa causa é inaplicável no Brasil.

 

Ricardo Pereira de Freitas Guimarães é advogado especialista, mestre e doutor pela PUC-SP, titular da cadeira 81 da Academia Brasileira de Direito do Trabalho, autor de inúmeros artigos e livros jurídicos e professor dos programas de mestrado e doutorado da FADISD-SP

 




Segurança no trânsito, nosso papel para a preservação da vida

Ao imaginar a operação de uma rodovia, poucos viajantes compreendem a complexidade dos serviços e das ações que são implementadas para alcançar um objetivo maior: manter uma malha e soluções que garantam a chegada do usuário ao seu destino, em segurança, mesmo com possíveis contratempos. Sobrepõe-se a isso a necessidade de agir para endereçar desvios relacionados ao comportamento no trânsito.

O fator humano, que causa nove em cada dez acidentes de trânsito, é levado em consideração na análise de iniciativas que a Concessionária adota para diminuir as ocorrências no corredor que segue de Bauru a Presidente Epitácio, com impacto em 34 cidades. Nesta extensão, há uma série diferente de dinâmicas de tráfegos de acordo com as demandas regionais, horários de pico, confluência de tráfego de longa distância com deslocamentos urbanos.

Cada ocorrência é criteriosamente analisada por nosso corpo de gestores. As áreas de Operações, Engenharia, Meio Ambiente, Jurídico e Comunicação formam um núcleo interdisciplinar para a análise e discussão de todas as variáveis contributivas e soluções para a mitigação de novas ocorrências. Deste núcleo saem as iniciativas para a melhoria na segurança viária para cada agente de trânsito e que retroalimentam o Programa de Redução de Acidentes (PRA), o qual está alinhado com os objetivos de desenvolvimento da ONU e da Década de Redução para Acidentes.

É neste ecossistema que há dois anos é colocado em prática o programa CART Pela Vida. Nosso time, junto com empresas apoiadoras e com a participação do policiamento rodoviário, promove dinâmicas de conscientização e orientações práticas sobre a direção segura e responsável no trânsito. As ações ocorrem em postos de combustíveis, empresas de transportes, bases operacionais de atendimento na rodovia e escolas.

Ao longo desses dois anos, foram mais de 13 mil participantes. Agora, no mês de maio, intensificamos as ações com 2,3 mil atendimentos entre ciclistas, motociclistas, pedestres, caminhoneiros, trabalhadores, professores e alunos. Desta forma, acreditamos que o Programa CART Pela Vida tem conseguido gerar um impacto social positivo no nosso corredor. Se na primeira década atingimos mais de 80% na redução dos acidentes com gravidade, nossa intenção, neste novo momento, é contribuir com a construção de uma cultura de segurança no trânsito onde cada um saiba que o seu papel é imprescindível à preservação da vida.

René Silva é diretor-presidente da CART Concessionária de Rodovias

 

 

 




A doença crônica da saúde brasileira

Relatório recente do Ministério da Saúde revelou que mais de 1 milhão de procedimentos cirúrgicos eletivos estão travados na fila do SUS em todo o Brasil. Um cenário que se repete por gerações no país. Acumulam-se décadas de falência do sistema da saúde público, apesar das mudanças de governo. Paralelamente, a saúde suplementar também passa por um período de emergência financeira, quer por ter havido um aumento no uso, quer por fraudes que assolam as operadoras de planos de saúde.

O sistema público de saúde apresenta falhas em seus principais programas e precisa de ações mais efetivas para transformar essa realidade. O Ministério da Saúde anunciou que pretende repassar cerca de R$ 600 milhões aos governos estaduais e do DF para a redução dessa fila. De acordo com o Ministério, para receber o recurso financeiro, cada estado deve enviar um plano com o número de cirurgias eletivas identificadas na fila, quantas poderiam ser realizadas com o investimento do governo federal e os hospitais que fariam as operações. O levantamento demonstrou que Goiás é estado que tem a maior fila: são cerca de 125 mil procedimentos travados. Em seguida, aparece São Paulo, com 111 mil, e em terceiro lugar, o Rio Grande do Sul, com 108 mil.

As principais cirurgias que representam demanda represada nos Estados inscritos no Programa até agora são: cirurgia de catarata, retirada da vesícula biliar, cirurgia de hérnia, remoção das hemorroidas e retirada do útero. Certamente, para tratar das intercorrências que algumas dessas condições provocam, o SUS gasta tanto (ou mais) do que gastará com o procedimento cirúrgico em si. Quanto custa mensalmente cada um desses pacientes à espera de uma cirurgia? Esses números não foram apurados.

Segundo as estimativas, esse investimento deve reduzir em cerca de 45% o total dos procedimentos. Assim, se o projeto correr como o planejado, cerca de 487 mil cirurgias serão feitas, mas ainda sobrarão mais de 595 mil na fila de todo o Brasil.

Ou seja, esse programa terá um efeito paliativo. Sem dúvida, ajudará milhares de pessoas e famílias, mas ainda não é a solução para esse gigantesco problema. Essa fila poderá crescer rapidamente, caso não sejam tomadas outras medidas paralelas de curto e médio prazos.

É possível que o governo faça mutirões e parcerias com instituições privadas para diminuir filas e atender a essa demanda. Consultas por telemedicina para fazer uma triagem dessas pessoas que estão na fila, a fim de que especialistas avaliem se essas pessoas realmente precisam de cirurgias, pode ser um primeiro passo importante. Depois dessa triagem, pode ser realizado um chamamento dos especialistas por áreas, para que eles sejam distribuídos nos estados e municípios onde suas especialidades sejam mais requisitadas. Uma verdadeira força-tarefa com o uso da tecnologia, como já se provou possível e eficaz em vários projetos financiados pelo PROADI (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde).

Um fator que corrobora para essa longa espera está na má distribuição dos médicos especialistas no Brasil. O número de médicos no país cresceu fortemente nos últimos anos, atingindo mais de 500 mil profissionais, uma média de 2,4 para cada 1 mil habitantes. Entretanto, a distribuição ainda é bastante desigual, com maior presença nas regiões mais ricas e menos oferta no Norte e Nordeste. Os dados estão são de uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina, em dezembro de 2020.  A falta de equilíbrio ocorre também quando comparados os sistemas de saúde. Dos profissionais, 28% atendem exclusivamente no setor privado, 22% somente no setor público e os 50% restantes nos dois tipos de serviços.

De fato, é imprescindível que haja por parte do Governo a contratação de mais profissionais também para atenção primária para se evitar doenças ou para evitar que doenças se tornem crônicas. No último dia 22 de maio, o Governo Federal publicou um novo edital para chamamento para profissionais que queiram participar do programa Mais Médicos para o Brasil. No documento publicado pelo Ministério da Saúde, o ciclo válido de trabalho é de quatro anos, para formados em instituições nacionais ou estrangeiras. Nesta etapa, serão 5.970 vagas em 1.994 municípios brasileiros.

Espera-se que essas contratações sejam realizadas com seriedade, ética e transparência, para não criarmos mais um problema de gestão. Já houve casos de médicos locais serem dispensados para que o Munícipio contratasse um médico que seria pago pelo Programa, como uma forma de desonerar a “folha” municipal. Mas, trocar um médico por outro não resolve o problema, o que se precisa é de mais profissionais que prestem um atendimento efetivo à população.

Segundo levantamento feito pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2021, para analisar as principais causas que levam à fila de espera no SUS,  não somente a falta de especialistas justificaria que uma consulta com ortopedista possa demorar 1 ano. A escassez de recursos nos hospitais públicos resulta na falta de equipamentos, de insumos e de medicamentos.

Seria também lamentável ver, em um futuro breve, notícias envolvendo os desvios desses recursos federais destinados a esse “programa para redução de filas”, como se verificou em 2022, quando a Polícia Federal deflagrou operações em alguns Estados, para apurar a mau uso de verbas destinadas exclusivamente ao combate à epidemia, com a consequente ocultação de movimentação financeira e lavagem de dinheiro.

Espera-se que as políticas de saúde pública tratem o indivíduo como parte de um sistema que necessita de políticas sérias, com controle efetivo das demandas reprimidas tanto de cirurgias como consultas ou procedimentos. Necessário projetos de curto, médio e logo prazo para solucionar os problemas de muitas vidas, de muitas famílias. As soluções precisam ser pensadas de forma interdisciplinar, envolvendo vários autores (inclusive a população), sob pena de não se conseguir mudanças duradouras, mas sim soluções imediatistas que não tratam diretamente causas dos problemas de saúde.

Se mudanças não começarem a ser feitas de imediato, o brasileiro continuará ingressando na Justiça para não morrer na fila ou no corredor de um hospital, enquanto o dinheiro público vaza por outros meios, por exemplo, a Judicialização. Essencial que se efetive realmente um programa de promoção à saúde, com a prevenção de doenças e diminuição de uma medicina “hospitalocêntrica”. A sociedade não precisa ter uma saúde pública cronicamente doente.

Sandra Franco é consultora jurídica especializada em Direito Médico e da Saúde, doutoranda em Saúde Pública, MBA-FGV em Gestão de Serviços em Saúde, diretora jurídica da Abcis, consultora jurídica da ABORLCCF, especialista em Telemedicina e Proteção de Dados, fundadora e ex-presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB de São José dos Campos (SP) entre 2013 e 2018.

 

 




Ela é quase da família

 

Foi Jean-Jacques Rousseau, um dos iluminados pensadores do século 18, quem disse, categoricamente: “É hipócrita uma sociedade que mantêm acorrentados homens, que são, por natureza, livres e iguais”. O filósofo suíço era um sonhador. Ele acreditava que as pessoas nascem com o selo da bondade e preocupadas com o bem-estar do próximo. Infelizmente, o mundo livre de desigualdades sociais que Rousseau queria, ficou apenas no papel. Coube a outros futuristas, como George Orwell, prever o que realmente seria o mundo de verdade: este, em que todos os dias testemunhamos incontáveis episódios de violência nas ruas, nos lares e no trabalho, gerados por desigualdade social, étnica e de gênero.

Vejam o que se passa em nosso quintal. Como justificar que o Brasil, aquele mesmo “em que se plantando tudo dá”, seja hoje um dos países mais desiguais do mundo? Não é coincidência que 96% das pessoas entrevistadas em recente pesquisa Datafolha/Oxfam Brasil tenham manifestado apoio firme aos programas de transferência de renda e de assistência social do governo. E que 95% sejam favoráveis a que todas as pessoas em situação de pobreza devam ser atendidas pelo programa Auxilio Brasil.

Para confirmar o que todos já sabíamos, a cor da pele influencia, sim, na contratação pelas empresas. E aqueles que são chamados, ganham menos. Por fim, para reduzir as desigualdades os entrevistados indicam como soluções: direitos iguais entre homens e mulheres, aumento do salário mínimo, investimento público em educação e saúde, mais empregos, fim da corrupção e combate ao racismo.

Dá vergonha ver o que estão fazendo com um menino brasileiro na Espanha apenas porque, sendo preto, tem o dom e o talento para jogar futebol. Sinto nojo quando leio, todos os dias, notícias que deveriam ter ficado num passado distante: homens, mulheres, crianças e idosos vítimas da opressão colonialista que não abriu mão dos “privilégios” de ter sua própria senzala.  É estarrecedora a constatação de que apenas nos quatro primeiros meses deste ano, mais de 1.200 pessoas em todo o país foram resgatadas em condições sub-humanas do trabalho escravo. E, pasmem! Mais de 61 mil casos foram contabilizados pelo Ministério do Trabalho desde 1995. Onde estavam e o que faziam nos últimos 135 anos os responsáveis pelo cumprimento da lei que decretou o fim da escravidão no Brasil?

A persuasão pela fragilidade é o traço comum para a cooptação de gente humilde. Um dos casos de mais impacto na mídia e na opinião pública é o daquela mulher negra de 84 anos que desde os 12 trabalhou para três gerações de uma mesma família do Rio de Janeiro.  “Ela era como se fosse da família”, argumentaram os patrões. Percebem o agulhão opressivo dessa frase? Ela é a síntese da hipocrisia implícita como mantra de autodefesa nesses casos: a tolerância disfarçada de magnanimidade, um pseudo-altruísmo “para inglês ver”.

 

Ricardo Castilho é jurista e escritor, pós-doutor pela USP e Universidade Federal de Santa Catarina. É diretor acadêmico da Escola Paulista de Direito.




A grilagem do Passado

Era uma vez um país com mais de oito milhões de quilômetros quadrados, sendo o maior do mundo em áreas aproveitáveis para a agricultura e para o pastoreio. Esse país tem clima ameno e regime de chuvas regulares na maior parte do seu território, além de ser servido por uma teia hidrográfica surpreendente. Logo, como já disse um viajante que aqui esteve, há muito tempo, nesse lugar, “em se plantando, tudo dá.”

No entanto, entenderam seus governantes, que só um número muito pequeno de pessoas deveria usufruir das benesses dessa terra e, por isso, dividiram-na em quinze lotes, depois quatorze, e a entregaram a doze felizardos que, por sua vez, destinaram grandes nacos de seu enorme quinhão, aos quais chamaram de sesmarias, para seus amigos, parentes e afins. A mata foi sendo derrubada e grandes fazendas surgiram, com plantações de cana, algodão, tabaco e depois, bem depois, café. Para colocar tudo de pé e manter o ritmo do plantio, colheita, manufatura, encaixotamento, transporte e exportação, primeiro usaram os habitantes originários da terra, e depois trouxeram escravizados de outro continente, aos milhares, aos milhões. A terra prosperou e quem a via na condição de beneficiário, dizia: como tudo funciona bem! Mas para os que eram os pés e as mãos do dono da terra, o sistema era cruel e opressor, e só a resistência e a fuga faziam sentido. Construiu-se em torno desses dois mundos um diálogo surdo, no qual um lado via o outro como o entrave, o obstáculo, a impossibilidade. Os senhores das terras, porém, levaram a melhor com a narrativa de homens bons enquanto os negros escravizados tornaram-se os fujões, os preguiçosos, os incapazes, mesmo quando sustentavam sobre seus ombros a empáfia e arrogância de seus senhores.

O tempo passou e nada mudou. No século XIX, a Inglaterra resolveu fazer cessar o tráfico negreiro, porque isso passou a atrapalhar seus negócios com a nascente indústria, e esse país de terras tão férteis, pressionado, aceitou elaborar uma lei para acabar com a importação de cativos. A lei foi aprovada em 1831 e regulamentada em 1832, mas até 1850 foi flagrantemente desrespeitada. Nesse período de ilegalidade, mais de setecentos mil negros escravizados foram trazidos para esse país de homens honrados, para servir nos canaviais e, principalmente, nos cafezais do Vale do Paraíba. Ou seja, a riqueza dos barões do café erigiu-se sobre o crime do contrabando. Mas a narrativa deu a eles, mais uma vez, a vitória, e ainda hoje, os chamados “quatrocentões” ostentam seus sobrenomes com o orgulho de quem “ajudou a construir essa grande Nação”. Aos negros, sobrava a sina da resistência e da fuga, formando quilombos que permitiram, entre tantas dificuldades, uma sombra de vida livre, ilhas de sobrevivência de uma dignidade que nunca se supôs fazer parte do dicionário da maioria dos brasileiros, mas somente dos senhores das terras.

Na medida em que esse contrabando tornava-se mais e mais escandaloso, os ingleses iam perdendo a paciência com o governo desse país  e passaram a impor sanções cada vez mais intensas. Ao mesmo tempo, o governo imperial enfrentava dificuldades nas colônias do sul, cujas fronteiras subpovoadas tornavam-se apetitosas para os ambiciosos vizinhos platinos, e esse apetite precisava ser controlado. Mas, para enfrentar os “hermanos”, era preciso antes resolver as coisas com os ingleses. A saída foi, então, acabar de vez com o tráfico e substituí-lo, paulatinamente, pela mão de obra imigrante, livre e assalariada.

Até aqui, as terras desse imenso país não tinham um dono claro nem regras de aquisição que estivessem ao alcance de qualquer um. A violência era a lei, e os antigos acordos da época da colônia definiam os limites de imensos feudos a perder de vista. Índios e negros escravizados não tinham direito de viver em terra alguma e, se viviam, era como fugidos ou escondidos, distantes das áreas de interesses dos homens bons e honrados. Porém, na medida em que a fronteira avançava, a violência ia ditando os novos proprietários, sem direito ao contraditório. Mas agora, por força da conjuntura internacional, o país receberia brancos livres, europeus, em busca de uma nova vida por aqui. Como obrigá-los a trabalhar no lugar dos escravos em vez de quererem se firmar como pequenos proprietários? Terra não faltava. O que faltava era interesse em vê-la ter novos donos. A saída, engenhosa, foi criar uma lei, aprovada no mesmo ano da lei que acabou definitivamente com o tráfico, determinando que a aquisição de terras agora exigia pagamento em dinheiro. Como a maioria esmagadora dos imigrantes eram pobres e desvalidos, fechava-se convenientemente as portas das terras para eles, sobrando-lhes as fazendas de café ou a sorte de algum serviço nas cidades, onde teriam de disputar com os negros livres e os escravos de aluguel os mil réis disponíveis.

E assim, a história desse grande país foi sendo escrita, de acordos entre amigos – o país das cordialidades -, entre ilegalidades flagrantes, violência explícita e leis convenientes. A grilagem, que é o nome que se dá à apropriação ilegal de terras devolutas ou ocupadas por posseiros, quilombolas, indígenas, muitas vezes de maneira violenta e impune, tornou-se tão comum e banal, que virou, no dicionário, substantivo masculino: pessoa que obtém a posse de terras com documentos falsos. Mas a narrativa poderosa dos “homens bons” invisibilizava todas essas práticas. Por outro lado, porém, criminalizar a luta pela reforma agrária, cujo propósito é dar terra sem uso para gente que quer usar, foi sempre um dos importantes temas desses senhores honrados e meritórios. Afinal, o importante é valorizar o trabalho duro, a dedicação e não entregar o peixe, mas ensinar a pescar. E hoje, nesse país do absurdo, uma Comissão Parlamentar de Inquérito, formada por vetustos cidadãos, “investigam” os supostos crimes praticados por aqueles que atentam contra a “sagrada” propriedade da terra, tão duramente conquistada ao longo de nossa “conhecida” História.

A História, a História dos fatos, diante disso, contorce-se em dores de angústia. O passado, recortado e remontado, transforma os que sofreram em vilões, faz dos que foram explorados, aproveitadores sem escrúpulos; transforma os que precisam e querem trabalhar em criminosos perigosos. E logo, não tardará, acabará por ser crime rememorar a História do Passado dos Fatos, fatos que provam que tomaram as terras aos índios e produziram riquezas roubando o trabalho dos negros. No passado distópico, que se deseja oficializar, foram os índios que chegaram a essa terra e encontraram as grandes fazendas com negros, com as costas arqueadas, carregando fardos de cana ou de algodão. E os senhores disseram a esses “visitantes”: somos os donos originários, senhores de tudo e de todos por direito e pela lei. Vão embora, índios gananciosos, tratem de trabalhar e conquistar o seu por merecimento. Não cobicem a terra dos outros. E os índios, constrangidos, pediram desculpas e partiram de imediato.

Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo.

@profdanielmedeiros

 




O papel da Osteopatia na prevenção de lesões para praticantes de beach tennis

A Osteopatia foi criada em 1874, nos Estados Unidos, por um médico que ficou inconformado com a morte dos seus três filhos por meningite devido a pífias alternativas na medicina. Assim, o americano Andrew Still criou a técnica alternativa com o objetivo de reformar a medicina. No entanto, a hostilidade a qual ele teve que enfrentar o fez recriar para um modelo de sistema independente da medicina tradicional.

Aqui no Brasil, a técnica chegou somente em 1986, pelas mãos de Bernard Quef – osteopata francês que ministrava os cursos que formaram os primeiros osteopatas brasileiros. A osteopatia consiste em práticas complementares e integrativas à medicina, que compreende a utilização de técnicas de mobilização e manipulação das articulações e de tecidos, proporcionando condições para que o corpo promova uma autocura, sem o uso de medicamentos.

Um ano depois, em 1987, surgiu nas areias de Ravena, na Itália, o Beach Tennis. Inicialmente, a modalidade condensava jogadas do tênis tradicional e do vôlei de praia. Porém, foi em 2008 que a modalidade entrou no Brasil pelas praias do Rio de Janeiro, nacionalizado como Tênis de Praia.

Um preparo físico adequado é indispensável para os praticantes de beach tennis, que tem a quadra pesada como principal agravante. Os impactos do atleta na areia elevam a carga necessária para realizar movimentos, raquetadas e saltos. Dessa forma, lesões e contusões podem acontecer se todos os cuidados não forem prevenidos. Sempre é importante se atentar em fazer um aquecimento de pelo menos dez minutos antes de realizar qualquer atividade física.

A performance exigida do praticante do beach tennis é alta, por isso, podem afetar as articulações e os músculos promovendo dores no corpo e podendo desencadear epicondilites, bursites, tendinites e síndrome do impacto. Entorses de tornozelo e joelho também são comuns quando se pratica esse esporte de forma despreparada.

Nesse sentido, a Osteopatia tem um papel fundamental para tratar certas patologias e prevenir outras. Baseado em técnicas de manipulação de tecidos e de articulações, como também de mobilização, a terapia alternativa fornece um ganho ao atleta, evitando que ele se torne paciente, ou seja, o profissional osteopata faz um trabalho complementar à medicina, que visa fornecer resultados eficazes ao tenista de praia sem o uso de medicamentos.

O tratamento osteopático atua na fisiologia do organismo, ao modificar padrões do sistema nervoso. Dessa forma, permite um movimento em nível de função, de acordo com o que é o ideal para cada pessoa. As técnicas agem integrando toda a dinâmica dos tecidos nervosos, articulares, vasculares e fasciais. Nesse sentido, o profissional osteopata busca normalizar a mobilidade e a funcionalidade de vários pontos do corpo, promovendo assim um equilíbrio.

Basicamente, a osteopatia no esporte como um todo visa fornecer melhorias na biomecânica do esportista, como nos processos de recuperação após os jogos e na prevenção de lesões. Já no pré-jogo, a técnica pode auxiliar no alívio rápido dos desconfortos, além de ter um papel importante na melhoria do desempenho competitivo.

 

Luís Henrique Zafalon é fisioterapeuta especialista em osteopatia, professor e palestrante

 




A importância e os riscos da liderança na saúde mental

 

A relação entre trabalho e transtorno mental tem sido cada vez mais frequente em casos no Brasil e no mundo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) 30% da população global possui diagnóstico relacionado às doenças mentais. O Brasil ocupa o 8º lugar em números absolutos. Os transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento no trabalho no país.

Desde o início da pandemia de COVID-19 os patamares têm se mantido altos no Brasil, com o maior pico registrado em 2020, quando 291 mil trabalhadores foram afastados no país. Em 2021, foram mais de 200 mil pessoas, segundo o INSS.

Fazem parte dessas estatísticas patologias como Alzheimer, depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia e principalmente a Síndrome de Burnout.

O distúrbio emocional causado por exaustão extrema, estresse ou esgotamento físico, resultantes de jornadas de trabalho desgastantes, já atinge 18% dos profissionais brasileiros do meio corporativo, ou simplesmente uma a cada cinco pessoas que trabalham em grandes empresas, conforme a pesquisa divulgada em 2022 pela Gattaz Health & Results.

Como o estresse no trabalho muitas vezes está relacionado ao estilo de gestão dessas pessoas em burn-out, vale perguntarmos: até que ponto os líderes são os responsáveis por transtornos mentais no ambiente corporativo?

Não são poucos os relatos de trabalhadores estressados por sobrecarga de trabalho, jornadas exaustivas, esgotamento, imposições de metas abusivas, falta de reconhecimento e autonomia no ambiente de trabalho e até casos e queixas trabalhistas de assédio moral.

Os traços de personalidade de seus líderes podem representar riscos para o sucesso da empresa, para o futuro de seus projetos. O que ocorre por conta de atitudes descontroladas na relação com seus colaboradores, muitas vezes de forma egoísta, narcisista ou arrogante.

O papel do gestor exige a autoconhecimento estratégico para entender e adaptar os próprios comportamentos disfuncionais, ou descarriladores, que surgem durante o estresse, excesso de trabalho, fadiga ou outras situações em que a autogestão tende a ser comprometida.

Esses fatores causam perda de autocontrole e provocam sentimentos como insegurança, desconfiança, hostilidade, retraimento social e outras tendências de comportamentos disfuncionais por parte dos gestores.

Para não cair nesse ciclo vicioso é obrigação da corporação e de seus líderes garantirem a segurança psicológica de sua equipe. Os colaboradores também precisam fazer parte desse processo.

Em muitas empresas, se mensura o nível de engajamento dos colaboradores ou pelo menos o índice de turnover voluntários (pedidos de demissão) e seus motivos. Esta é uma ótima pista para identificar quais gestores são responsáveis pelas áreas com piores resultados.

Empregadores e funcionários têm a responsabilidade de se comunicar uns com os outros frequentemente sobre trabalho e bem-estar.

Os funcionários precisam informar seus empregadores sobre suas necessidades e os principais problemas que estão ameaçando a sua saúde mental e apontar sugestões de melhorias que afastem esse risco.

Da mesma forma, os líderes precisam indicar suas expectativas de trabalho e responder adequadamente às comunicações dos funcionários. A falta de comunicação ou aquela mal-feita pode criar circunstâncias para o esgotamento.

Quando gestores entendem o impacto de suas atitudes no bem-estar e engajamento dos funcionários, eles podem tomar medidas para criar um ambiente mais seguro e saudável para a equipe sob sua liderança, criando uma cultura de comunicação de duas vias com segurança psicológica para que todos possam se manifestar livremente, sem medo de represálias com o objetivo final de aumentar o nível de FIB (Felicidade Interna Bruta).

A melhoria desse índice ou do Engajamento, em última instância, tem um impacto comprovado cientificamente para os resultados da empresa.