A LUTA DO PODER PELO PODER
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Iniciando-se a Semana Santa, período introspectivo para os cristãos, oportunidade em que se relembra as atrocidades feitas contra Jesus, que culminaram com sua morte de cruz, não há como deixar de considerar que foi uma condenação de fundo eminentemente político, imposta pelos detentores do poder, que tinham receio da ascensão de Cristo como um novo líder dos judeus. Teria sido uma típica aplicação do lawfare?
Lawfare, em poucas palavras, é o uso estratégico do direito com o objetivo de aniquilar um inimigo ou adversário político. Busca-se, em síntese, a morte política daquele que se apresenta como oposição ao setor defendido pelos grupos que detém o poder.
Para entendermos a aplicação do lawfare na condenação de Jesus, há que se contextualizar o momento histórico que os fatos se passaram. Naquela época os judeus estavam vivendo sob a dominação do Império Romano. Embora tivessem alguma autonomia em suas questões religiosas e culturais, eram dirigidos por governadores romanos e obrigados a pagar impostos ao império. Jesus histórico viveu exatamente nessa época. Em um momento em que os judeus estavam subjugados aos romanos, porém alguns poucos ainda gozavam de certa superioridade política e religiosa em relação à grande massa dos excluídos.
Os líderes políticos judeus eram os saduceus, os doutores da lei e os fariseus. O grupo dos saduceus era formado pelos grandes proprietários rurais (detentores do domínio econômico) e pela elite sacerdotal: tinham o poder nas mãos e controlavam a administração da justiça no Tribunal Supremo (Sinédrio). O grupo dos doutores da lei eram os responsáveis pela interpretação das Escrituras (juristas da época). Já os fariseus eram os que dirigiam a vontade do povo, na medida em que impunham a eles os rigores das Escrituras e com isso ditavam as regras de comportamento.
Jesus¸ nos três anos de sua vida pública, colocou o dedo nas feridas causadas pelas mazelas impostas pelos líderes políticos judeus, contestando suas leis e formas de aplicação, bem como suas tradições e o modo segregacionista que tratavam os outros povos, como, por exemplo, os samaritanos. Os samaritanos eram um grupo étnico-religioso que habitava a região montanhosa central de Israel, entre a Judeia e a Galileia. Por terem cultura e tradições distintas dos judeus, eram frequentemente considerados impuros e hereges.
Jesus pregava uma vida mais igualitária, com a diminuição das desigualdades sociais, criticando, fortemente, o fato de que muitos líderes religiosos da época excluíam os marginalizados da sociedade, como os pobres, os doentes e as mulheres. Seus discursos enalteciam a misericórdia e o amor, o perdão e a compaixão. Jesus arrastava multidões por onde passava e isso começou a incomodar, enormemente, os grupos políticos-religiosos da época.
Os referidos líderes judeus temiam que o aumento da popularidade de Jesus pudesse abalar as suas estruturas de poder, já que muitos consideravam Jesus o “Messias esperado”. A gota d’água para esses líderes foi a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém no “Domingo de Ramos”. Explica-se.
Conforme se extrai dos evangelistas, no domingo anterior ao da Páscoa, Jesus, acompanhado dos seus discípulos (os apóstolos e demais seguidores), foi recepcionado pelos judeus de Jerusalém como rei. Isso mesmo, como rei dos judeus. Ao entrar na cidade muitas pessoas estenderam ao chão seus mantos para Jesus passar e outros o saudaram com ramos, prática usada para recepcionar os líderes políticos, conforme se extrai do livro do Reis (um dos livros da Bíblia que está no Velho Testamento). Esse gesto simbólico era uma forma de honrar a chegada do rei messiânico prometido, que muitos acreditavam que iria libertar o povo judeu do domínio romano.
Jesus, em síntese, ao ingressar como rei dos Judeus (Messias) confronta com o centro político da sociedade judaica simbolizada por Jerusalém e pelo Templo, sede do poder econômico, político, ideológico e religioso. Jesus traz consigo a inversão de um sistema de sociedade apoiado na violência da força militar que defende os privilegiados. O povo o aclamou como aquele que trazia o reino da verdadeira justiça e a notícia se espalhou por toda a cidade. Este fato gerou nos líderes políticos (saduceus, os doutores da lei e os fariseus) a necessidade imperiosa de sufocar a ascensão de um novo líder.
Com receio do grande apoio que Jesus teve do povo judeu, os líderes se reuniram e tramaram para prendê-lo e condená-lo. Para tanto manipularam as leis, desrespeitando os procedimentos legais e os direitos do acusado, previstos na “lei mosaica” (nítida aplicação do lawfare). Cooptaram um dos apóstolos, oferecendo propina para entregar Jesus.
Há que se lembrar que Ele foi preso à noite, no Jardim do Getsêmani, também conhecido como Monte das Oliveiras, e levado a presença do Sumo Sacerdote (Caifás), que fez alguns questionamentos sobre seus seguidores e sua doutrina. Em resposta aos questionamentos, Jesus pontuou: “Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito.” Ao responder dessa forma agiu nos exatos limites previstos da lei judaica, a qual estabelecia que todo prisioneiro, em julgamento, tinha o direito de ser confrontado com seus acusadores, fato que não foi facultado a Jesus.
Nessa mesma noite, ao arrepio do regramento da Lei Mosaica (Lei de Moises), que vedava a realização de julgamento a noite, Jesus foi sentenciado pelos integrantes do Sinédrio (Tribunal Supremo). Depois de uma busca incessante para achar testemunhas de acusação (os delatores daquela época), duas apareceram e apontaram como suposto crime o fato de Jesus ter dito que poderia derrubar o Templo e reconstruí-lo em três dias. Templo na verdade era uma metáfora, uma vez que Jesus se referia seria a sua ressureição no terceiro dia após sua morte. Seria crime, nos termos da lei de Moisés, fazer tal afirmação? Por certo que não.
Durante o julgamento, tendo em vista a fragilidade abissal da tese acusatória, Jesus fez uso do direito ao silêncio. Então Caifás, violando a proibição legal de exigir de alguém que testificasse em seu próprio caso, o que era permitido apenas quando o acusado desejasse fazê-lo voluntariamente e, de sua livre iniciativa, pediu uma resposta de Jesus e, também, exercendo a potente prerrogativa de seu ofício de Sumo Sacerdote, para colocar o acusado sob juramento, como se fosse uma verdadeira testemunha diante do tribunal sacerdotal.
Uma manipulação atroz contra seu suposto inimigo político (lawfare), conforme se extrai da seguinte passagem bíblica, na qual Caifás pergunta se Jesus é filho de Deus e obtém a seguinte resposta: “Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do Homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu. (…) Eu sou o que tu disseste.” Diante da resposta o evangelista Lucas relata: “Então o Sumo Sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasfêmia! Que vos parece? E eles, respondendo, disseram: É réu de morte”. Uma manipulação odiosa das leis com escopo de atingir e aniquilar um “inimigo” político.
Não se pode olvidar, que nos casos criminais, a Lei Mosaica previa a pena de morte para crimes como assassinato, adultério e blasfêmia. No entanto, a lei exigia que o julgamento fosse justo e imparcial e que o acusado tivesse a oportunidade de apresentar sua defesa. Além disso, a lei exigia que duas testemunhas concordassem em suas acusações para que alguém pudesse ser condenado à morte. No caso de Jesus, não houve um julgamento justo e imparcial, pelo contrário, houve uma nefasta manipulação das leis e dos fatos, que vão desde a prisão de Jesus durante a noite, sem uma acusação clara e sem permitir que ele apresentasse uma defesa adequada, até a condenação à morte com base em testemunhos falsos e acusações de blasfêmia.
Embora a Lei Mosaica permitisse a imposição da pena de morte pela blasfêmia, o Sumo Sacerdote não tinha autoridade para condenar alguém à morte, dependendo da autorização do governador romano, razão a qual levou Jesus à presença de Pilatos, com escopo de obter a permissão para executá-lo. O restante dessa trágica história todos sabemos.
Jesus Cristo (“Rei dos Judeus”) foi condenado e morto não por ter cometido um crime ou até mesmo uma blasfêmia contra o Deus dos judeus, mas sim por representar um risco para a establishment político. Os líderes políticos manipularam a lei para condená-lo sem provas com o objetivo de aniquilá-lo como uma nova liderança. Ou seja, os líderes judeus fizeram uso indevido dos recursos jurídicos para fins de perseguição política (lawfare).
Qualquer semelhança com alguns julgamentos contemporâneos na história recente do Brasil não são meras coincidências, o que demonstra a faceta obscura, perigosa, antidemocrática do idealismo que impera nas agências estatais de controle social do delito. Será que os integrantes dessas agências põem a cabeça no travesseiro e dormem tranquilamente após manipular os processos para condenar pessoas?
Marcelo Aith é advogado, Latin Legum Magister (LLM) em Direito Penal Econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa – IDP, especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidade de Salamanca, mestrando em Direito Penal pela PUC-SP e presidente da Comissão Estadual de Direito Penal Econômico da Abracrim-SP

A comovente Via Sacra da Pastoral da Criança, realizada há poucos dias pelas ruas do centro da cidade de São Paulo, nos revela um significativo flash de como terá sido, ao longo do tempo, esse momento único de piedade.
Como se sabe, a Via Sacra revela os passos da caminhada que Jesus percorre desde o tribunal de Pilatos até o cume do Monte Calvário, no qual será crucificado e morto.
É o itinerário que demarca uma parte da Sexta-Feira Santa.
Como que acompanhando os passos de Jesus vamos recordando os sofrimentos dele e do povo que, ao longo dos séculos, é igualmente crucificado junto com Ele.
São três as quedas que, sob o peso da cruz, Jesus sofre ao longo do caminho. E nós, a cada uma delas, podemos meditar sobre nossas muitas quedas. Quais são os pesos que mais nos oprimem: a carne, os olhos, a soberba. Naturalmente, não são só três as quedas. Tudo é simbólico e provoca, exorta, a reflexão.
É o encontro com alguém que, talvez até sem que o deseje, nos ajuda a carregar a nossa cruz, cujo peso somos incapazes de suportar. Quantas vezes nos dispusemos a apoiar alguém no meio de sua caminhada?
Pois bem. Aqui vamos nos deter num desses passos, tal como é descrito pela tradição multissecular desse dia.
No sexto passo uma mulher surge, por assim dizer, do nada. Do meio da multidão ela sai correndo, vence a barreira daqueles que o cercam e, com uma toalha, presta um serviço de caridade a Jesus, enxugando a Face conspurcada pelo sangue, pelo suor, pelas lágrimas, pelos escarros e pela poeira das ruas.
O que acontece, então?
Jesus quer perpetuar o agradecimento a esse gesto de caridade.
Não nos esqueçamos disso. Tudo o que fazemos por amor, até mesmo um copo d´água que damos a alguém recebe a gratidão de Jesus. É a Ele que estamos dando a água…
Para assinalar a gratidão, Jesus demarca sua Face na toalha com a qual a mulher acabara de lhe prestar esse gesto tão amoroso.
Reparemos agora no semblante registrado na toalha.
Como nenhum de nós jamais viu a Face de Jesus, em seus verdadeiros contornos, somente com os olhos da fé ela se nos entre mostra.
É assim, igualmente, com a toalha.
Cada um de nós assemelhará na Face de Jesus o rosto daquele que, ao longo da vida, mais achamos parecido com Ele.
E nosso coração terá repetido as palavras com que Santa Teresinha (Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face) se dirigia a Ele: digna-te imprimir em mim tua Divina Semelhança.
E Verônica, como chamam essa mulher, mostrou para os demais a Face adorável de Jesus tal como a ela se apresentara.
O rosto que ela vira fora deformado pelo sofrimento, como assinala Isaías.
Portanto, não se tratava de algo formoso, de uma pintura como retratada pelos séculos afora pelos artistas plásticos.
Não haveria ninguém, no entanto, que não reconhecesse aquela Face. Reverberava dela a expressão de gratidão, de comoção, com que aquele a quem foi realizado o amoroso gesto de caridade quer retribuir, deixando impresso para sempre no mais íntimo do ser, o favor tão pequeno que lhe fora prestado.
Pois bem. O nome Veronica quer dizer “ver ônica”, isto é, verdadeiro ícone. Trata-se, com efeito, de mera lembrança da toalha. Não há registro, na tradição, do nome civil da mulher que tanto agradou a Jesus. Ela será, sempre que esse momento for recordado até o final dos tempos, uma das pessoas que apoia Jesus.
O verdadeiro ícone, como quis retrata-lo a Via Sacra da Pastoral da Criança é a Face sofrida de Jesus que se expressa no povo Yanomami.
Eu ouvi os clamores do meu povo, por causa dos seus opressores, diz o Livro do Êxodo, e desci a fim de libertá-lo das mãos do opressor, para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel.
Eis o que o povo Yanomami e todos os oprimidos, os marginalizados, as crianças, os adolescentes, os que passam fome, os que perambulam pelas ruas sem nem mesmo um lugar para repousarem a cabeça esperam de nós nessa Via. Que é, na feliz denominação da Imitação de Cristo, a Estrada Real da Santa Cruz.
Na região central da mais pujante cidade do Brasil, distantes e próximas dos Yanomamis, as pessoas em situação de rua pedem o copo d´água que se lhes recusam com frequência diária.
Naquele dia da Via Sacra fora instalado imponente caminhão-pipa para saciar a sede do povo de rua. Mas, se você passar por lá hoje, na Praça da Sé, constatará que o caminhão já foi embora…
Agora, o clamor do povo chegou até Ele. E, com o clamor, a exigência, tanto do povo Yanomami, que quer, que exige, o direito de fruir em plenitude da terra que lhe pertence desde muito antes da chegada daqueles que “descobriram” a Terra da Santa Cruz, como das crianças, do povo em situação de rua, e dos excluídos em geral, é para que o gesto simbólico da Verônica se concretize em propostas e programas de verdadeira e própria inclusão social.
Que assim se mostre, para nós, a verdadeira Face de Jesus.
Wagner Balera é coordenador do Núcleo de Estudos de Doutrina Social, Faculdade de Direito da PUC-SP
No próximo domingo comemora-se a Páscoa da Ressurreição do Senhor, uma das mais importantes festas do Calendário Cristão. Celebraremos a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. É um dos dias mais importantes do calendário religioso quando as pessoas vão às Igrejas para participarem das cerimônias religiosas.
Para muitos a festa é mais importante do que o próprio Natal, pois sinaliza a vitória de Jesus sobre a morte.
Páscoa significa ”passagem” que já era comemorada pelos Judeus com a Pessach ou Panover, a Páscoa judaica, uma antiquíssima recordação sobre o êxodo dos israelitas do Egito durante o reinado do faraó Ramsés II, fugindo da escravidão para a liberdade. Um ritual de passagem, assim como a “passagem” de Cristo, da morte para a vida. È o que mais vale para nós. Lamentavelmente o comércio e a indústria descristianizaram a Páscoa como fizeram no Natal criando a figura do Papai Noel.
Agora na Páscoa de Jesus Cristo há anos novamente comércio e indústria foram buscar a figura do coelho por ser o símbolo da fertilidade para promover a comemoração. De outro lado a figura comercializou a Páscoa também com a indústria do chocolate. Páscoa cristã não tem nada a ver com Ovo de Páscoa. Tem muito a ver com a comemoração da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso mesmo desejo aos leitores e leitoras sinceros votos de uma muito FELIZ E ABENÇOADA PÁSCOA
Alcindo Garcia é jornalista e-mail: [email protected]
Em fevereiro de 2013, fui enviado pela Comunidade Canção Nova a Roma, para realizar estudos de mestrado e doutorado. Naquela ocasião, aconteceu a renúncia de Bento XVI, e foi convocado o conclave para eleger o novo papa. Eu estava lá quando, da sacada da Basílica de São Pedro, surgiu o primeiro papa latino-americano da história da Igreja. Uma alegria imensa para o meu coração, que foi, pouco a pouco, se encantando com o ministério do Papa Francisco.
A convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia foi uma iniciativa marcante do Papa Francisco, com uma temática tão importante para vida da Igreja, porque a misericórdia é um ministério tão fecundo e tão forte na vida de Jesus.
Na bula de proclamação, chamada Misericordiae Vultus, que significa “O Rosto da Misericórdia”, o Papa Francisco nos lembra que Jesus Cristo se utilizou muitas vezes de parábolas, para falar da misericórdia. E utilizando desse artifício das parábolas, Ele conseguiu chegar ao coração de muitas pessoas. As parábolas dedicadas à Misericórdia revelam a natureza de Deus, como um Pai, que nunca se dá por vencido enquanto Ele não dissolver o pecado e superar a resistência e a recusa do coração humano, pela compaixão e misericórdia.
O Papa nos lembrava de que nós meditamos, muitas vezes, nas três parábolas no Evangelho de São Lucas, no capítulo 15 – “A ovelha extraviada”, “A moeda perdida” e “O pai com seus dois filhos” –, sobre um Deus que é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando Ele perdoa. Nessas parábolas, encontramos o núcleo do Evangelho, o núcleo da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como uma força que tudo vence, que enche o coração de amor e consola com o perdão.
O Papa realizou atos extraordinários naquele ano jubilar, dando aos sacerdotes a capacidade de perdoar os pecados, inclusive o do aborto. Chamados de missionários da misericórdia, os padres percorreram o mundo todo levando a misericórdia, tirando sentenças canônicas da vida do povo, e dando a possibilidade das pessoas experimentarem profundamente o amor de Deus.
Eu me recordo que o sentimento que habitava o meu coração era de uma alegria enorme, que não cabia dentro de mim. Como um Papa usava essa linguagem? Como um Papa falava e o nosso coração ardia? A justificativa é porque, justamente ele, é o escolhido para este tempo!
Não é que os outros papas não falassem ao coração, mas o Papa Francisco fala ao coração desta nossa geração. Com a sua linguagem, o seu jeito, os seus gestos, ele alcança cada coração.
Eu tive a oportunidade, muitas vezes, de estar presente no Ângelus no domingo, nas catequeses das quartas-feiras, nas celebrações presididas na Basílica de São Pedro, e sempre o Papa Francisco nos surpreendia com os seus gestos. Ele tinha uma capacidade enorme de encarnar essa misericórdia, de fazer com que nós sentíssemos, de fato, na nossa carne, na nossa vida, a misericórdia de Deus pelo seu sorriso, pelo seu abraço, seu toque. Uma vez falei diretamente com o Santo Padre, e ele, como sempre, se demonstrou muito alegre, muito sorridente, brincalhão, trazendo essa leveza, essa alegria própria de Deus.
A misericórdia é um elemento fundamental, profundo e forte do ministério do Papa Francisco, que eu quero também levar para toda a minha vida sacerdotal. O meu lema sacerdotal é retirado justamente do Evangelho de São Lucas: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso”. Então, eu me senti, de fato, interpelado pelo Papa Francisco, mais uma vez chamado a ser a expressão da misericórdia na vida dos meus irmãos.
Obrigado Papa Francisco, por nos revelar esse rosto amoroso do Pai das Misericórdias! Por nos revelar, com seus gestos, que Jesus está bem perto de nós!
Padre Donizete Heleno Ferreira é vice-presidente da Comunidade Canção Nova
O líder chinês Xi Jinping encontrou sua igualmente autoritária contraparte Vladimir Putin em Moscou. É a primeira visita de Jinping à Rússia após a invasão à Ucrânia. A recepção dos russos ocorreu com toda a pompa e honra com a qual é possível receber um chefe de Estado que pode ser o fiel da balança no mais violento conflito na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial e desde a fragmentação da ex-Iugoslávia.
Para a mídia russa, Xi Jinping destacou que a relação entre China e Rússia aprofundou-se bastante nos últimos 10 anos, afirmando que a visita se trata de uma “jornada de amizade, cooperação e paz”. As palavras de Jinping, no entanto, não conseguem esconder aquelas que parecem ser as reais intenções da visita. Pouco antes de ordenar a invasão da Ucrânia, Putin esteve em Pequim na abertura dos jogos olímpicos de inverno. Àquela ocasião, Xi Jinping teria pedido que os russos aguardassem o fim das competições para iniciar a invasão. Foi o que os russos fizeram. Até aqui, a postura chinesa de neutralidade é muito mais pró-Moscou do que realmente neutra ou pró-Kiev.
Na segunda, terça e quarta-feira, ambos os ditadores realizaram eventos oficiais conjuntos. Tratam-se de longas conversas que podem dar o tom de parte importante da política global para os próximos anos. Como assinalou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, houve uma “troca minuciosa de pontos de vista”, além da apresentação de um plano de paz chinês para o conflito na Ucrânia. Ainda que esse plano não tenha sido revelado, sabe-se que contempla os planos russos – como a anexação da região ucraniana do Donbass à Federação Russa.
Em paralelo ao encontro dos tiranos em Moscou, o primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, visitou Volodymyr Zelenskiy em Kiev. À visita seguiram-se movimentações de bombardeiros nucleares russos, mostrando que o conflito pode ganhar uma nova escala a qualquer momento.
Da visita de Jinping a Putin pode-se perceber três coisas. A primeira, o encontro em si. As honras militares, as liturgias e o tempo em que os déspotas estiveram juntos mostra o maior evento da diplomacia russa desde o início da guerra. A segunda percepção é o timing da visita, apenas três dias após o Tribunal Penal Internacional expedir um mandado de prisão contra Putin. Por mais que os russos não tenham ratificado o Estatuto de Roma que criou o tribunal, o mandado tem forte conotação política: na prática, Putin pode ser preso caso visite qualquer um dos 123 Estados-parte do acordo, ainda que seja bastante improvável sua prisão. Ainda assim, isso certamente limita a mobilidade do russo. Uma das acusações inclusive já foi confirmada por Moscou: o deslocamento de crianças ucranianas para a Rússia.
Por último, chama a atenção a mais preocupante fala do encontro. Xi Jinping afirmou que China e Rússia “compartilham objetivos semelhantes”. Sabemos já há algum tempo das pretensões chinesas sobre Taiwan. A ilha – que sozinha exporta mais do que o Brasil – é a maior fabricante de chips, semicondutores e condutores do mundo. Sem os itens vindos de Taiwan, a economia global simplesmente pode parar. Pior do que isso é o fato de que qualquer ataque chinês sobre Taiwan traria os EUA para um conflito com a China, uma vez que estadunidenses tem com taiwaneses um acordo de proteção.
Em paralelo, preocupa o ocidente o potencial envio de armas chinesas à Rússia. Vídeos vindos do front europeu mostram soldados russos mal armados, com armas velhas, blindados obsoletos e treinamento fraco. Enquanto ucranianos, armados pela OTAN, têm conseguido manter seu país, os russos vêm enfrentando dificuldades de suprimento – mesmo com a compra de armas do Irã e da Coreia do Norte. Com armas chinesas novas, o conflito na Ucrânia pode entrar em nova fase de crueldade.
João Alfredo Lopes Nyegray é doutor e mestre em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Coordenador do curso de Comércio Exterior na Universidade Positivo (UP). Instagram: @janyegray
No tempo pascal, os evangelhos proclamados nas missas apresentam diversas ocasiões em que Jesus Ressuscitado aparece para seus discípulos. Em uma dessas aparições, o evangelista São João narra que Jesus lhes disse: “A paz esteja convosco!” Em seguida, Jesus mostrou-lhes as mãos e o lado, de modo que os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Continua a narrativa: “Novamente, Jesus disse: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio’” (Jo 20,21).
Ao desejarmos uns aos outros votos de Feliz Páscoa, seria muito importante assumirmos um compromisso em promover a paz, esse esplêndido dom que o Senhor Ressuscitado oferece a todos aqueles que nele creem. Essa paz não significa simplesmente ausência de conflitos e tensões, mas é uma graça da Páscoa de Cristo, consequência da nova e eterna aliança estabelecida entre Deus e a humanidade por meio do mistério da morte de Jesus na cruz e sua gloriosa ressurreição.
No sermão da montanha, Jesus ensina que a paz é uma bem-aventurança, ou seja, são felizes aqueles que a promovem, porque serão chamados filhos de Deus (cf. Mt 5,9). Promover a paz é deixar-se conduzir pelo Espírito do Ressuscitado, de modo a corajosamente derrubar muros que foram erguidos pelo pecado, com suas manifestações de ódio, traição, preconceito, que considera o outro um inimigo a ser eliminado da face da terra. Muros erguidos por motivações políticas sem qualquer compromisso com a promoção do bem comum e da justiça social; muros erguidos até mesmo por alguns cristãos, cuja motivação religiosa nem sempre considera a revelação feita por Jesus a respeito do mistério de Deus, que é amor, justiça, misericórdia, comunhão, paz.
Quem faz valer o compromisso batismal, por causa de sua vocação de filho de Deus em Cristo Jesus, faz questão de testemunhar a fé procurando construir pontes, unindo no amor o coração das pessoas com o coração de Deus e delas entre si. Ajudar as pessoas em seu processo de reconciliação, muitas vezes doloroso e dramático, é uma linda maneira de testemunhar o amor de Deus, testemunhar que o Senhor Ressuscitado, vencedor da morte e do pecado, nos tornou participantes de sua santidade, de seu Reino de amor e paz.
No primeiro dia do ano de 2023, em sua mensagem por ocasião do dia mundial da paz, Papa Francisco destacou o modo como a humanidade soube superar os problemas impostos pela pandemia da covid-19, por exemplo, através “de respostas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais unidos para responder ao desafio, deixando de lado interesses particulares”. Em seguida, o Santo Padre faz menção à paz, afirmando que “Só a paz que nasce do amor fraterno e desinteressado nos pode ajudar a superar as crises pessoais, sociais e mundiais”.
Em nome da Canção Nova, entrego a você, meu irmão, minha irmã, essa singela reflexão, com um sincero desejo de que a Páscoa de Jesus ressuscitado seja celebrada de tal forma que a paz do Senhor transforme a nossa vida pessoal, familiar e comunitária, colaborando assim com a edificação de um mundo mais fraterno, solidário e justo, na expectativa de alcançarmos a paz sem fim.
Padre Wagner Ferreira da Silva é presidente da Comunidade Canção Nova.
O universo da saúde no Brasil e no mundo passa por transformações muito peculiares e cada vez mais, fala-se sobre a saúde mental e seus variados transtornos e neuroses.
Neste sentido, as crises de ansiedade e a depressão ganharam os holofotes. No entanto, existem algumas doenças que trazem sintomas muito parecidos ou relacionados.
É o caso das cardiopatias que representam a segunda maior causa de mortes no mundo. A sensação de ansiedade e estresse provocada por um acometimento leve de sintomas de infarto, principalmente nas mulheres, camufla o diagnóstico, o que acaba por confundir o cuidado e impedir a busca por um atendimento médico especializado.
Um cenário muito sério, pois sinais de agravamento de certas doenças estão sendo negligenciados, uma vez que, as pessoas acreditam que se trata apenas de uma simples crise de ansiedade e podem perder o timing necessário para o controle da doença coronariana.
O infarto feminino, por exemplo, se inicia por sintomas mais moderados que, justamente por isso provocam essa confusão no diagnóstico por se assemelhar muito ao estresse e a ansiedade.
É uma doença, extremamente grave, que exige que a busca pelo diagnóstico e tratamento e deve ser feita com a maior brevidade, seguindo os protocolos médicos específicos, do contrário, pode vir a apresentar resultados irreversíveis.
Taquicardia, sudorese elevada, respiração ofegante e acelerada, sensação de dores articulares, fadigas, palpitações, falta de ar, dores nas costas e ombro, são alguns dos sintomas comuns a uma crise de ansiedade, que podem também surgir quando da iminência de um infarto.
Normalmente, as mulheres, por possuírem estruturas coronárias um pouco diferente dos homens, costumam relatar a dor como um aperto do peito, semelhante a uma crise de ansiedade.
No entanto, o que é preciso estar atento é que a crise de ansiedade, em muitos casos, vem em decorrência de algum gatilho emocional disparado: uma preocupação excessiva, um estresse elevado, uma tensão recorrente, fobias vibratórias, entre outros.
Por outro lado, não podemos esquecer também que o excesso de estresse, a vida sedentária, alimentação inadequada, ritmo acelerado, consumo de álcool, tabagismo, falta de qualidade de vida, sono desregulado, podem potencializar os riscos de infarto.
Ou seja, as doenças cardíacas podem sim se associar ao estresse, à ansiedade e as doenças mentais e/ou emocionais.
Enfim, seja de base psicológica ou fisiológica, todo e qualquer desconforto físico e mental, deve ser investigado previamente com o profissional especializado para tanto.
Infelizmente, ainda é muito latente em nossa cultura, o autodiagnóstico e automedicação através do auxílio da internet.
Hábitos inadequados que podem negligenciar e minimizar os riscos de doenças graves como as cardiopatias, que devem ser acolhidas dentro de um delta tempo recomendado, para que o paciente fuja do risco de morte e de outras comorbidades.
Portanto, um tema que demonstra, mais uma vez, a importância do autoconhecimento do ser humano, pois se autoconhecendo fica mais fácil identificar se aquele sintoma está diferente dos demais e se a dor física pode ter relação direta com a dor emocional.
Uma atenção que passa por uma questão de amor próprio e responsabilidade consigo mesmo, pois em alguns casos, cada minuto é precioso para o sucesso do tratamento. Valorizando ainda mais nossa vida e promovendo a saúde mental e o equilíbrio físico adequado ao nosso bem-estar.
Andréa Ladislau é psicanalista
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No início de março, dia 4, comemorou-se o Dia Mundial da Obesidade. O objetivo desta data é identificar a percepção das pessoas sobre esta patologia que está associada intimamente às doenças do coração.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, atualmente mais da metade dos adultos apresenta excesso de peso, com prevalência maior no sexo feminino. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2022, elaborado pela Federação Mundial da Obesidade, estima-se que 30% dos brasileiros serão obesos até 2030. Este é um dado que merece a nossa atenção.
A obesidade ainda é uma patologia pouco diagnosticada e sem um tratamento completo – além de ser uma doença crônica. As principais causas incluem fatores genéticos, ambientais, psicológicos, culturais e sociais, alterações do metabolismo, sedentarismo e hábitos alimentares.
Para o diagnóstico em adultos, o parâmetro mais utilizado é o índice de massa corpórea (IMC). Para chegar a esse número, divide-se o peso do paciente pela altura elevada ao quadrado (peso / altura2). Se o resultado dessa fórmula ficar entre 18,5 e 24,9 kg/m2, o peso é considerado normal. Entre 25,0 e 29,9 kg/m2, é situação de sobrepeso. Acima deste valor, a pessoa é considerada portadora de obesidade, isso tudo segundo métrica padrão utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Considerando a atual expectativa de vida do brasileiro, 80 anos para mulheres e 73 para homens, o IMC é um indicativo importante. Se, aos 70 anos, o IMC for normal, há 80% de chances de a pessoa atingir essa expectativa média, se não passar dela. Já se o IMC ficar entre 35-40, esse índice cai para 60%, o que nos dá mais um alerta de cuidado com a obesidade.
É importante frisar que a obesidade é fator de risco para doenças cardiovasculares, que são as que atualmente possuem maior mortalidade no Brasil e no mundo, como a aterosclerose, hipertensão arterial, doenças coronárias e insuficiência cardíaca, além do acidente vascular encefálico.
Com o objetivo de motivar as pessoas a tratar a obesidade, existe um grupo de profissionais de saúde que formam uma equipe multidisciplinar com olhar cuidadoso: cardiologistas, endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos. Todos esses especialistas podem ajudar a pessoa que sofre de obesidade a mudar o estilo de vida, o que poderá contribuir para a perda de peso. Atualmente, novos medicamentos também auxiliam neste tratamento. Em outros casos, a cirurgia bariátrica é a melhor alternativa. Porém, isso depende de uma avaliação médica acurada e multidisciplinar para que o procedimento funcione e atenda ao propósito.
A obesidade é um problema sério e nós, profissionais da saúde, juntamente com a sociedade, precisamos combater essa doença se quisermos mudar as estimativas. Cuide-se e não tenha receio em procurar um médico que possa ajudar você nessa jornada, porque ela não é fácil, mas os resultados serão os melhores. Sua saúde agradece!
Rafaela Penalva é cardiologista, PhD em Ciências e professora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro – Unisa