Os males do nacionalismo cristão

O dia 8 de janeiro de 2023 ficará marcado como o pior dia da democracia brasileira desde a redemocratização. Nas filmagens é possível observar que parte dos extremistas oravam e carregavam Bíblias, o que faz crer que são evangélicos, base eleitoral importante do ex-presidente. É a extrema-direita religiosa em ação.

Este fenômeno não é novo, mas é crescente. Trata-se de uma forma de nacionalismo religioso que se concentra na promoção e proteção da religião cristã evangélica em uma determinada nação. Isso pode incluir a implementação de leis e políticas baseadas no evangelicalismo, a promoção de programas educacionais e culturais, e a defesa de práticas e costumes evangélicos. Mas, tudo isso, desprezando os valores da democracia liberal.

É fruto de uma leitura errônea do conceito de “nação cristã” ou “nação escolhida”. A ideia de “nação escolhida” é uma expressão bíblica que se refere ao povo de Israel, que conforme a tradição judaica e cristã, foi escolhido por Deus para ser um povo especial e receber a graça de Deus. Segundo a Bíblia, Deus escolheu o povo de Israel para ser um exemplo para outras nações.

Mas, conforme as Escrituras, apenas Israel serviu a Deus como nação escolhida. Depois de Israel, não houve, não há e nem haverá nação escolhida. Qualquer leitura que faça em qualquer país usurpa o papel da Igreja como nação escolhida. A Igreja não é nacional, mas transnacional; não é parte de uma cultura, mas abarca todas as culturas. Os nacionalistas cristãos querem fazer de sua nação um novo Israel, mas o novo Israel é a Igreja de Jesus Cristo.

O nacionalismo evangélico é também sedutor para muitos pastores e líderes da Igreja. Afinal, é uma forma de exercer poder. Mas, como todo tipo de poder, está envolto em vários perigos: 

1) Falta de humildade: geralmente produz arrogância e superioridade religiosa, contrária aos ensinamentos bíblicos de humildade e amor ao próximo. 

2) Desvio da missão: desvia a missão cristã e da mensagem do Evangelho a todas as pessoas e foca na defesa de interesses nacionais e eleitorais.

3) A polarização: leva a uma polarização religiosa e política na sociedade, prejudica a unidade e o diálogo entre diferentes grupos. Além disso, a polarização namora as obras da carne ao cultivar dissensão, ira e sectarismo.

4) Foco na política em vez da espiritualidade: o radicalismo leva os evangélicos a se concentrarem mais na política e no poder terreno do que na vida espiritual e no amor ao próximo. É excessivamente ativista e pouco piedoso; é engajado, mas nada generoso; é transtornador, mas nada transformador. 

5) Perigo de misturar religião e política: leva a conflitos e violência, e que os evangélicos devem se concentrar em praticar sua fé de forma pacífica e respeitosa. Embora seja impossível cultivar uma religião neutra politicamente, é necessário separar Igreja e Estado, fé e política. Separar não é divorciar completamente, mas é saber discernir quando a aproximação é saudável ou não.

6) Dependência da cultura do medo e teorias conspiratórias: o nacionalismo cristão, como todo nacionalismo, precisa de inimigos, nem que sejam inimigos imaginários inventados em teorias conspiratórias.  Em sua guerra cultural, os nacionalistas respiram ameaças e vivem em um mundo binário de constante estado de conflito. 

Vários extremistas depredaram o patrimônio público enquanto oravam. Esse tipo de ato é sacrilégio da fé. Jesus elogiou os pacificadores. Paulo disse que a nossa luta não é contra carne e sangue. O cristianismo nos ensinou que o amor é mais forte do que o poder das armas. O dia 8 de janeiro é uma vergonha para a democracia brasileira, mas também para parte da Igreja que esqueceu o Evangelho.

Gutierres Fernandes Siqueira é teólogo e jornalista; autor do livro “Quem tem medo dos evangélicos?” (Editora Mundo Cristão)




As consequências penais dos ataques ocorridos em Brasília

 

Não vislumbro enquadrar os manifestantes de Brasília-DF por terrorismo. Afinal, a lei estipula como atos de terrorismo quando o emprego da violência se dá em razão de xenofobia, de discriminação ou de preconceito de raça, de cor, de etnia e de religião. 

Não há o que se falar em ato terrorista quando a violência é empregada por motivação ideológica ou política, ou por ausência dos atos ao tipo penal do terrorismo, por ausência do dolo específico.  

Por vezes, indivíduos tentam se aproveitar de situações como a que ocorreu no domingo (8/1), para criarem narrativas falaciosas e incitarem seu público, aproveitando, inclusive, da falta de conhecimento jurídico de muitos – e, porque não dizer, da maioria.  

Em tese, a tipificação dos manifestantes poderia ser a de Abolição Violenta do Estado Democrático de Direito (artigo 359-L do Código Penal). A pena varia de quatro a oito anos de reclusão. Ou, ainda, poderiam ser enquadrados em Golpe de Estado (artigo 359-M, também do Código Penal). A punição é de no mínimo quatro anos. A máxima, de 12 anos. 

Fora os crimes citados nas linhas acima, os manifestantes que tomaram a Praça dos Três Poderes também poderão responder por dano qualificado, dano em coisa de valor artístico e/ou histórico, furto qualificado e lesão corporal, em razão do que foi registrado no domingo no que reside aos ataques de vandalismo a prédios públicos e a símbolos da Nação.  

Reforço, novamente, que ideologias não legitimam crimes e, também, não legitimam tratamento degradante, cruel ou desumano a qualquer preso. As cenas que vimos na Imprensa sobre a “detenção” de manifestantes em Brasília é o subsolo do abismo. 

O que se vê hoje é um Brasil virado ao avesso, perdido entre o que é certo e o errado, e isso entre abusos e excessos, e pseudos heróis e vilões.  

 

Raquel Gallinati é delegada de polícia; pós-graduada em Ciências Penais, em Direito de Polícia Judiciária, e em Processo Penal; mestre em Filosofia e diretora da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) do Brasil. 

 

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Como fazer um blog para ganhar dinheiro?

A internet possibilitou a criação de diversas fontes de renda. Sendo assim, quem quer trabalhar em casa pode contar com várias opções de serviços disponíveis, como é o caso dos sites e blogs. Para isso, é importante conhecer como fazer um blog para ganhar dinheiro.

Dessa forma, você pode ter um blog e escrever sobre conteúdos que possui afinidade e ainda conseguir um bom dinheiro publicando esses conteúdos na internet. A partir disso, surge o questionamento: Como fazer um blog para ganhar dinheiro?

Se essa também é a sua dúvida, saiba que está no lugar certo. Pois, no texto a seguir, você vai aprender como fazer um blog para ganhar dinheiro passo a passo. Portanto, para conhecer o nosso tutorial, continue lendo o texto abaixo e saiba mais.

Passo a passo de como fazer um blog para ganhar dinheiro

A partir de agora, você confere o passo a passo de como fazer um blog para ganhar dinheiro. Vale destacar que o processo é mais simples do que você imagina e em pouco tempo, a sua página já estará disponível na internet. Confira a seguir:

Defina o tema e registre o domínio

O primeiro passo de como fazer um blog para ganhar dinheiro consiste em definir o tema e logo após fazer o registro do domínio.

Em outras palavras, você precisa definir o nome do seu site e quais serão os tipos de publicações. Por exemplo: um site sobre futebol e o nome “Jogo do Bicho” e posta diariamente o resultado Deu no Poste

Após escolher o nome e o tema das publicações, o próximo passo consiste em registrar o domínio. Para entender melhor, o domínio consiste na url da sua página, ou seja, se o nome do seu site é “Jogo do Bicho”, a URL será algo do tipo “jogodobicho + .com”. 

Para registrar este domínio, você pode utilizar o site Registro BR. É necessário pagar o valor de R$40 por ano para manter o seu domínio ativo.

Escolha a plataforma onde o blog será criado

Se você ainda não tem experiência de como fazer um blog para ganhar dinheiro, o mais recomendado é utilizar a plataforma disponibilizada pelo próprio Google, chamada Blogger.

Ela é totalmente gratuita, simples de ser usada e em pouco tempo a sua página já estará no ar.

Para criar o seu blog nessa plataforma, siga os passos abaixo:

  1. Faça o login na sua conta do Google e em seguida entre na plataforma do Blogger;
  2. no lado esquerdo, clique na seta que aponta para baixo;
  3. Selecione a opção “novo blog”;
  4. Coloque o nome que você escolheu para o seu blog;
  5. Clique em próximo;
  6. Coloque a url que você definiu anteriormente;
  7. Clique na opção salvar.

A partir disso, o seu blog já está pronto e você já pode realizar as configurações necessárias, como definir a aparência, o design, instalar plugins e muito mais.

Vale destacar ainda que você precisa seguir as políticas de conteúdo e os termos de serviço do Google.

Crie conteúdos de qualidade

Após criar o seu blog, está na hora de produzir conteúdos de qualidade para o público que visitar a sua página. Essa é uma das partes mais importantes para quem busca descobrir como fazer um blog para ganhar dinheiro.

Pois, é o conteúdo que irá fazer com que o público se apaixone pelo seu blog e sempre que precisarem tirar uma dúvida ou buscar algo, se dirigirem primeiramente a sua página antes das demais.

Dessa forma, você ganha autoridade e posicionamento. Assim, contribui positivamente para que o seu blog apareça nos primeiros resultados dos mecanismos de busca da internet, como Yahoo, Google e muito mais.

Portanto, podemos dizer que um dos pontos mais importantes de como fazer um Blog para ganhar dinheiro é criar conteúdo adequado, de qualidade, capaz de resolver os problemas do seu público.

Se cadastre no Google AdSense

O segredo para quem quer aprender como fazer um Blog para ganhar dinheiro é obter lucros com publicidade. É assim que as pessoas ganham dinheiro na internet, divulgando produtos de anunciantes e recebendo parte da comissão.

O mesmo funciona com o blog. Nesse caso, você precisa fazer o cadastro na plataforma Google AdSense. Essa plataforma exibe anúncios no seu blog e o remunera cada vez que o seu público visualiza esses anúncios e clica neles.

Sendo assim, sempre que alguém visualizar um anúncio na sua página e clicar nele, você recebe uma determinada quantia em dinheiro paga pelo Google. Esse dinheiro se origina dos anunciantes, que pagam o Google para que o Google exiba anúncios.

Na sequência, o Google paga os blogueiros para exibir esses anúncios em suas páginas. Assim, cria-se uma cadeia onde todos ganham com publicidade. Mas, você precisa estar cadastrado no Google AdSense para isso.

Invista na aquisição de tráfego 

Por fim, a nossa última dica de como fazer um Blog para ganhar dinheiro consiste em investir em diferentes fontes de tráfego para a sua página. 

Pense comigo: se você é remunerado cada vez que as pessoas visualizam e clicam em um anúncio, quanto mais pessoas fizerem isso, mais dinheiro você ganha.

Assim sendo, trazer o maior número de pessoas para visitar a sua página faz com que o dinheiro obtido cresça de forma significativa. Logo, você precisa investir em variadas fontes de tráfego.

Alguns exemplos que você pode utilizar são: tráfego pago, tráfego orgânico oriundo de redes sociais como Facebook, Instagram, Pinterest, LinkedIn, entre outros, tráfego de backlinks é muito mais.

Cada uma dessas opções são poderosas fontes de tráfego para sua página na internet. Portanto, aproveitei para trazer o maior número de pessoas possível. Dessa forma, você sabe como fazer um blog para ganhar dinheiro.

Assim, finalizamos o nosso texto. Agora, você já sabe como fazer um Blog para ganhar dinheiro. Se gostou do conteúdo, não se esqueça de compartilhar nas redes e se inscrever em nosso site para receber novos conteúdos todos os dias.

Álvaro Lordêlo
E-mail: [email protected]




Invasões em Brasília: crônica de uma morte anunciada

Dois anos após a invasão ao Capitólio nos Estados Unidos por apoiadores do ex-presidente Donald Trump, Brasília assiste a uma barbárie comandada por bolsonaristas desvairados. Conseguiram invadir sem muito esforço o Congresso Nacional, Palácio do Planalto (local de trabalho do Presidente) e o Supremo Tribunal Federal.

Os vândalos quebraram o patrimônio público e vilipendiaram o Estado Democrático de Direito debaixo das barbas da força policial da capital brasileira. Não se pode esquecer que o comando das forças policiais de Brasília está com o ex-Ministro da Justiça Anderson Torres. Forças essas que estavam monitorando os movimentos dos vândalos, mas foram “capazes” de realizar a contenção das invasões. Vergonhosa a condução do governador do DF e do secretário de segurança, que foram flagrantemente lenientes no combate aos atos criminosos. Era uma crônica de uma morte anunciada.

O Governador Ibanhez Rocha e o Secretário de Segurança Anderson Torres devem ser responsabilizados diante da cegueira deliberada. A Teoria da Cegueira Deliberada é uma construção jurisprudencial originada no direito anglo-saxônico que preconiza a possibilidade de punição do indivíduo que deliberadamente se mantém em estado de ignorância em relação à natureza ilícita de seus atos. Sabiam da intenção dos golpistas e fizeram vistas grossas. A Procuradoria da República tem que tomar providências no sentido de apurar os fatos e, se demonstrada a deliberada negligência, denunciá-los pelos crimes cometidos. Além disso, a situação demanda medidas de intervenção na segurança pública de Brasília, tal como ocorreu no Rio de Janeiro em 2018.

Pois bem, voltando à cena do crime, as forças policiais de Brasília têm a obrigação de recompor imediatamente a ordem pública e prender em flagrante todos os invasores pelo crime de “Abolição violenta do Estado Democrático de Direito” e “Golpe de Estado”, previstos, respectivamente, nos artigos 359-L e 359-M, ambos do Código Penal, que dispõe: “Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais” e “Tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído”.

Democracia é o regime de governo cuja origem do poder vem do povo. Em um governo democrático, todos os cidadãos possuem o mesmo estatuto e têm garantido o direito à participação política. No entanto, devem respeitar os comandos constitucionais e legais, não sendo autorizado, sob qualquer pretexto, a utilização da força contra as instituições públicas.

A investigação sobre esses atos deve ser exauriente e todos os envolvidos severamente punidos, quer pela ação, quer pela omissão (negligência estatal), quer ainda pela incitação. O ex-presidente Bolsonaro e a cúpula do seu governo devem ser investigados e apurada a responsabilidade pela instigação, punidos severamente.

Oxalá não haja uma tragédia maior como aconteceu no capitólio, com mortes dos invasores, agentes de segurança e civis.

 

Marcelo Aith é advogado, latin legum magister (LL.M) em direito penal econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa – IDP, especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidade de Salamanca, mestrando em Direito Penal pela PUC-SP, e presidente da Comissão Estadual de Direito Penal Econômico da ABRACRIM-SP

 




O novo decreto sobre o armamento no Brasil e o papel do delegado de Polícia como cumpridor da lei 

O primeiro dia do novo ano foi marcado pela publicação do decreto 11.366/2023, que suspende os registros para a aquisição e a transferência de armas e de munições de uso restrito por parte de caçadores, colecionadores, atiradores e particulares. Assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o texto também restringe os quantitativos de aquisição de armas e de munições de uso permitido, suspende a concessão de novos registros de clubes e de escolas de tiro, e suspende a concessão de novos registros de colecionadores, de atiradores e de caçadores.  

O decreto ainda institui grupo de trabalho para apresentar nova regulamentação à lei 10.826, de 22 de dezembro de 2003, que trata de armamento no Brasil.  

Não obstante todas as polêmicas que envolvem o tema, merece destaque o disposto no artigo 27: “serão cassadas as autorizações de posse e de porte de arma de fogo do titular que responda a inquérito policial, ou a ação penal por crime doloso. § 2º A cassação a que se refere o caput será determinada a partir do indiciamento do investigado no inquérito policial, ou do recebimento da denúncia ou da queixa pelo juiz”.  

O indiciamento é o ato pelo qual o delegado de Polícia manifesta sua convicção jurídica motivada a imputar a uma pessoa a condição de provável autor ou de partícipe da infração penal investigada no inquérito. Até o momento do indiciamento, o sujeito é tratado como investigado, ou seja, mero suspeito ou averiguado, ou apenas como parte envolvida. Formalizado o ato, o indivíduo passa a ser designado indiciado e, na concepção técnico-jurídica justificada da autoridade policial presidente do inquérito, figura como provável autor do fato objeto da investigação criminal. Trata-se, assim, da transposição de um juízo de possibilidade (mera suspeita) para outro de probabilidade (fundada suspeita), conforme bem lembra em artigo o delegado Rafael Francisco Marcondes de Moraes (www.adpf.org.br/adpf/admin/painelcontrole/materia/materia_portal.wsp?tmp.edt.materia_codigo=6366#.Y7Lz1nbMKUk). 

O decreto de Lula ainda destaca a atuação das Polícias Civil e Federal ao dispor, no parágrafo § 4º, que “a apreensão da arma de fogo é de responsabilidade da Polícia Judiciária competente para a investigação do crime motivador da cassação.” Por fim, o texto também abarca preocupação com a violência contra a mulher no País. Destaca a atuação das delegadas e dos delegados de Polícia que atuam neste segmento ao prever no parágrafo § 5º que “nos casos de ação penal ou de inquérito policial que envolva violência doméstica e familiar contra a mulher, a arma será apreendida imediatamente pela autoridade competente, nos termos do inciso IV do caput do artigo 18 da lei 11.340, de 7 de agosto de 2006.” 

Diante do exposto, fica clara, mais uma vez, a figura do delegado de Polícia como peça fundamental para a concretização no Brasil de diversos direitos sociais e fundamentais, inclusive cumprindo o papel que a população espera.  

Mesmo numa situação de relativização de direitos, a restrição às armas deve ser pautada em nosso País por indícios oriundos de investigação respaldada legalmente. 

 

Jacqueline Valadares é delegada de Polícia; graduada em Direito, pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO); especialista em Direito Penal, em Processo Penal, e em Inteligência Policial; e presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) 

 




A reforma da Reforma Trabalhista

As questões estão postas. O novo Ministro do Trabalho assume o compromisso de reformar a Reforma Trabalhista. Alega que precisa haver uma “revisão” daquilo que entende ser prejudicial ao trabalhador. Aponta três temas que serão “revistos”. 

O primeiro é o trabalho intermitente. A pergunta que se faz é: Como este modelo de trabalho prejudica o trabalhador se, antes do trabalho intermitente, estes trabalhadores exerciam estas atividades 100% na informalidade, sem direito algum? Quem dignificou o trabalho intermitente, concedendo a estes trabalhadores todos os direitos da CLT foi justamente a Reforma Trabalhista. Mas alguém pode alegar que, se o trabalhador intermitente trabalhar menos do que o valor correspondente ao salário mínimo, ele terá que pagar sua contribuição previdenciária. Para corrigir esta disfunção legal, há que se fazer o ajuste na lei previdenciária, e não na trabalhista, ou seja, não na Lei 13.467/17. Esta é a lei que beneficiou o trabalhador intermitente. Então, insisto: Como o trabalho intermitente prejudica o trabalhador para justificar a “revisão” deste tema? 

O segundo tema que o governo pondera que trouxe prejuízos para o trabalhador é a ultratividade. A Reforma Trabalhista determinou que, a cada dois anos, as partes, por meio de negociação coletiva, devem negociar novos direitos. Com isso, não permitiu a perpetuação destes direitos, que é o que a ultratividade fazia. Com o fim da ultratividade, sindicatos laborais e de empregadores podem negociar novos direitos e, quando entendem que a negociação é prejudicial ao trabalhador, simplesmente não negociam. A perpetuação de direitos só estava fazendo com que houvesse restrição nas negociações: era impossível negociar novos direitos protetivos para os empregados justamente porque a ultratividade os perpetuava. Quem deseja negociar “o que negociado está” para sempre? O fim da ultratividade trouxe benefícios para o trabalhador e, por este motivo, não haveria por que se falar em “revisão” deste tópico. 

O terceiro e último ponto se refere ao fato de a Reforma Trabalhista ter extinguido a contribuição sindical obrigatória. Em outras palavras, a partir da Lei 13.467/17, os sindicatos podem se sustentar, desde que trabalhadores e empresas contribuam espontaneamente para seus respectivos sindicatos. Com isso, a Reforma Trabalhista corrigiu uma anomalia que só existia no Brasil: um sistema de custeio obrigatório para sindicatos, com desconto de um dia de salário do trabalhador e um porcentual do faturamento da empresa. Alguns alegam que o fim da contribuição sindical obrigatória foi prejudicial para os sindicatos. A pergunta que se tem que fazer é: Se hoje é possível se contribuir voluntariamente para os sindicatos, e não são poucos os empregados e empresas que não desejam contribuir espontaneamente para os sindicatos, este problema é da Lei 13.467/17 ou dos sindicatos? Então, não há por que colocar na conta da Reforma Trabalhista a desorganização do sistema sindical. Não bastasse este argumento, há um estudo do Professor Hélio Zylberstajn mostrando que, desde 2017, as entidades sindicais, buscando novas fontes de custeio, implementaram outras modalidades de contribuição e fizeram-nas constar dos acordos e convenções coletivas. São contribuições estas que superam o valor da antiga contribuição sindical obrigatória (Hélio Zylberstajn, Avaliação da reforma trabalhista, São Paulo: Informações FIPE, Temas de economia aplicada, 2022).  

Se estes são os três principais pontos que o atual governo pretende discutir para “revisar” o conteúdo da Reforma Trabalhista, então ele precisa inicialmente apontar o motivo pelo qual deseja fazê-lo. E, ainda que assim se concretizasse, o sistema de negociação que o governo deseja implementar para discutir o que pode ser “melhorado” na Reforma Trabalhista – o sistema tripartite, em que de um lado se sentam o governo e sindicatos e de outro, as empresas –, significa que as empresas serão sempre voto vencido, uma vez que governo e sindicatos representam o mesmo interesse. O sistema de tripartismo é assimétrico.  

Por fim, o lugar adequado para se discutir mudança de lei é o parlamento.  

 José Eduardo Gibello Pastore é advogado, consultor de relações trabalhistas e sócio do Pastore Advogados

 




PARABÉNS A TV APARECIDA

Bem vindos são os meios de Comunicação católicos em uma época em que a Igreja mais necessita de um jornalismo que evangelize de verdade.  Entre outras a TV Aparecida vem batendo todos os recordes de audiência nas missas e outras solenidades religiosas.  Do Brasil de norte a sul a audiência espetacular dessa emissora de televisão está colocando TVs tradicionais em segundo plano. Em vários horários diários, as  missas das 10 da manhã e das 18 horas, bem como a Consagração a Nossa Senhora Aparecida  diariamente às 15,  seu poder de Comunicação  vem batendo todos os recordes de audiência no Brasil inteiro. Mesmo assim são milhares de peregrinos a visitar o maior Santuário mariano do mundo.

Tive o privilégio de conhecer o fundador da TV Aparecida, o padre Cesar Moreira Miguel com quem trabalhei junto na extinta Rádio Globo quando ele morava em São Paulo. No plano religioso, na visita à casa da Mãe a gente se sente como se estivesse na casa de nossa mãe biológica que tanto nos faz falta quando esta já  não está mais entre nós. Naquele vale encantado de paz e de bênçãos, você depara de um lado os picos verdejantes da serra da Bocaina e de outro lado os contrafortes azulados da serra da Mantiqueira e ao fundo o atual e maior santuário mariano do mundo.  Foi neste cenário que a Virgem Maria apareceu para os brasileiros no formato de uma simples imagem negra, encontrada nas águas do rio Paraíba em 1717. Foi o tempo da escravidão, quando negros eram caçados e perseguidos.

Nossa Senhora Aparecida é a figura da mãe, a imagem da Virgem Maria, a Imaculada Conceição, a mãe de Jesus, que assim quis se manifestar ao povo brasileiro. Está na bíblia. Foi a pedido da Virgem Maria que Jesus antecipou sua vida pública, realizando o primeiro de seus milagres. Foi em um casamento em Caná da Galiléia. Maria percebeu que os noivos não tinham mais vinho e intercedeu junto a Jesus. Embora respondendo que ainda não havia chegado a sua hora, Ele a atendeu e transformou a água no melhor vinho. Maria se encarrega de levar nossas aflições até Jesus. Para estarmos sempre com Ele ela nos deixou um conselho naquela ocasião: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. (João – 2, 1 a 12).

Parabéns à TV APARECIDA uma televisão católica que mostra também um belo sistema jornalístico com noticiário nacional e internacional com um lado altamente positivo nesta época em que falta muito para desenvolver um jornalismo coerente como uma grandiosa contribuição para a Igreja no Brasil.

Alcindo Garcia é jornalista – e-mail: [email protected]




Férias: tempo de viajar, conhecer e rever lugares que nos fazem bem

O período de férias é uma grande oportunidade para conhecer lugares novos, revisitar locais em que possuímos ligações afetivas, e buscar lugares que nos conectam com o sagrado,  como uma viagem de peregrinação.

 

Uma boa opção é a Região Turística da Fé, que se destaca como uma das mais belas do país, localizada no eixo Rio de Janeiro – São Paulo, entre as serras da Mantiqueira, da Bocaina e do Mar, no Vale do Paraíba Paulista, integrando onze cidades, entre as quais Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá.

 

Criada definitivamente em 2017, por meio de Legislação federal, estadual e municipal, a Região Turística da Fé registra, atualmente, um fluxo ascendente de 16 milhões de pessoas ao ano, envolvendo inclusive a população regional.

 

Além da linda paisagem de serras e rios, com os mais variados tipos de turismo e seus atrativos, tais como: ecoturismo, turismo rural, cultural, de esportes, de aventura, de negócios, náutico e gastronômico, a região se destaca pelo turismo religioso, com um grande número de santuários, proporcionando uma rica experiência de fé a quem passa por aqui.

 

O Santuário Nacional, carinhosamente chamado de “Casa da Mãe Aparecida”, acolhe os peregrinos que participam das celebrações, visitam a Sala das Promessas, a Cúpula da Basílica, e podem contemplar o revestimento das paredes externas com lindas passagens bíblicas, retratadas com muita arte e realismo.

Fora dos muros, o “Trem do Devoto” é uma opção de transporte e lazer para os visitantes. O veículo, réplica de uma locomotiva “Maria Fumaça”, faz a ligação entre o Santuário Nacional e o Porto Itaguaçu, local do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, onde tem o passeio de balsa pelas águas do rio Paraíba do Sul.

A pouco mais de 33 quilômetros, o Santuário do Pai das Misericórdias, na Canção Nova, em Cachoeira Paulista, é outro local de visitação, para momentos de oração, celebrações e espiritualidade, durante todo o dia. Na parede atrás do altar, há o mosaico que representa a Parábola do Filho Pródigo e, ao lado, uma réplica da Pietà, Nossa Senhoras das Dores, originalmente esculpida por Michelangelo. Em espaço anexo ao Santuário, o peregrino tem a possibilidade de visitar o túmulo do fundador da Comunidade Canção Nova, Mons. Jonas Abib, falecido no dia 12 de dezembro de 2022.

 

Os eventos de fim de semana e os diversos pontos de peregrinação dentro da Canção Nova também atraem muitos fiéis no decorrer do ano. Para aqueles que gostam de acampar, há uma estrutura com três áreas de camping: familiar, feminina e masculina.

Em Guaratinguetá, destaca-se o Santuário Arquidiocesano de Frei Galvão, dedicado ao primeiro santo brasileiro, conhecido como santo da paz e da caridade.

“Como eu não sei rezar, só queria mostrar. Meu olhar, meu olhar, meu olhar…” (Renato Teixeira). Com esse verso tão simples e de profundo significado, convido você a viajar comigo nessa ideia de aproveitar o período de férias escolares ou do trabalho, para visitar espaços sagrados de peregrinação.

 

José Expedito da Silva é jornalista na assessoria de imprensa, com participação especial no Jornal Café da Manhã, pela Rádio Canção Nova de Cachoeira Paulista.




Os aprendizados do Natal

 

 

O primeiro aprendizado é o de que a pobreza que priva do necessário não é um destino sem dono, mas uma invenção de homens sem escrúpulos. A pobreza da família de Jesus era fruto de uma terra dominada e explorada, de um poder sem natureza e que se sustentava pelo medo e pela violência. Daí a fuga, porque o rei tão poderoso era, ao mesmo tempo, tão fraco diante da possibilidade de perder o que não lhe cabia. E, diante disso, não hesitou em mandar matar crianças, centenas delas, pela simples hipótese de que uma pudesse reivindicar o que ele havia furtado para si, sem qualquer merecimento.

O segundo aprendizado é o da sobrevivência em condições extremas. A família de Jesus viveu dias terríveis, mas não temia por eles próprios e sim pela ameaça que pairava sobre aquele que estava por vir. E era preciso proteger aquele que ainda sequer havia tido a chance de experimentar esse mundo. E em meio a essa fuga, em um lugar ermo, junto aos animais em uma estrebaria, nasceu o menino. Seu primeiro choro, seu primeiro grito, foi a vitória decisiva sobre seus algozes.

O terceiro aprendizado é o do amor de José. O filho não era seu mas ele acreditara nas palavras de Maria. O amor é isso: acreditar. E José foi pai desde o primeiro momento, aceitando e protegendo, e depois dando o exemplo de sua existência honesta e amando a criança sem se sentir iludido ou enganado. O amor é isso: envolvimento. O homem mais velho, carpinteiro, viu a criança crescer com um destino sobre o qual ele sabia que não poderia intervir. Mas poderia, sim, oferecer o espelho de si mesmo para que Jesus soubesse o que um pai é: aquele que está sempre ao alcance do seu apelo. Ser pai não é um poder, porque o poder quer sempre dominar, tornar o sujeito súdito. Ser pai é ser o amparo da criança que vira sujeito, constrói-se a si mesmo, sabendo que haverá sempre um abraço sem explicações, um beijo sem motivos, à sua espera.

O quarto aprendizado é o de Maria, que deu seu sangue a Jesus e ensinou, pelo exemplo, a dar seu sangue àqueles que se ama. O sangue é a vida e as mães fazem isso para seus filhos desde sempre. O segredo da criação é a percepção de que todo o milagre da vida se dá no ventre da mulher que escolhe virar mãe e esse poder é o único capaz de se chamar milagre. Por isso, o medo atávico que os homens fracos têm das mulheres, o esforço brutal de reduzi-las, de confiná-las, como o medo do rei que tem um poder  que não lhe cabe e o exerce com o rosto crispado de pavor. Maria é a chave do cristianismo. O anjo vagaria tonto pelo deserto sem uma mulher para aceitar a incumbência de criar um ato de amor como herança para o futuro.

O quinto aprendizado é o milagre da festa. Jesus de Maria e de José escolhe um encontro alegre, a união de duas pessoas que se amavam e que queriam  dividir esse amor com seus amigos e conhecidos e desejavam que todos relaxassem e deixassem a alma vagar um pouquinho para além do corpo cansado da labuta diária para realizar seu primeiro milagre, e esse milagre foi feito de vinho. Porque Jesus compreendeu que sem a festa, sem o descanso, sem o relaxamento, sem o abandono temporário dos afazeres, sem a suspensão das preocupações, sem congraçar (que é o compartilhamento da graça), como medir o valor da vida? Pois que haja vinho! E também risos e dança e abraços e beijos e esse suspiro de satisfação e esse brilho diferente nos olhos de quem compartilha seu tempo com seus queridos e queridas.

O sexto aprendizado foi o da multiplicação dos pães e dos peixes. Pois não há como pedir para ser crente para quem não tem condições de ser gente. E gente precisa se alimentar. Não somente, mas para começar. É tão fácil ser o rei Herodes e julgar quem nada tem, ditando-lhes regras sobre honestidade e esforço para alcançar algo. É tão cômodo dizer que é preciso ensinar a pescar ao invés de prover a fome, principalmente para quem herdou barcos e mares. Jesus não deu ouvidos a esses falsos moralistas, ditadores de regras. Jesus, que nasceu sob o olhar de amor de seus pais, que se tornou adulto entre os que o amavam e cresciam em admiração, sabia que a semente que deve vingar na terra é a que pode ser colhida por todos. Esse é o maior aprendizado: o Filho foi maior do que o Pai. No mundo de Jesus, ninguém seria expulso do Paraíso por provar o fruto do conhecimento. Ao contrário, essa é a única porta de entrada para ele.

Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo.
@profdanielmedeiros




Ainda se come lixo

  Inconcebível para a nação que se funda sobre uma Constituição democrática e avançada, conviver com seres humanos que se alimentam a partir daquilo que conseguem recuperar em lixões.

            O lixo do Brasil é um dos mais ricos do planeta. Tanto que alguns especialistas defendem que ele deva ser vendido e não que o povo pague por sua coleta. Um dos cruéis paradoxos desta República é a simultaneidade de dois opostos: o celeiro do mundo tem mais de trinta e três milhões de pessoas que passam fome todos os dias. Os famintos são os excluídos. Situam-se às margens da vida. Estão espalhados, mas um número considerável é de moradores em favelas.

            Muito se fala em favela, mas esta entidade é pouco estudada e conhecida. Há necessidade de elaboração de diagnóstico integrado propositivo, em que se leve em consideração uma pesquisa histórica, as questões ambiental e social, antes de oferecer uma proposta de solução.

            A cultura ESG pode ajudar o tratamento de um problema que parece insolúvel, como esse da fome crônica. Nada é impossível. Em tempos de extermínio da natureza, é preciso pensar em bioeconomia, estratégia de salvação da floresta e, principalmente, de salvação do povo que vive na floresta.

            É preciso enfrentar com coragem os inúmeros desafios postos pelo abandono a que o Estado condenou os excluídos. Há startups que podem ajudar a criar tecnologias importantes para corrigir distorções que permanecem diante da inércia do poder público e insensibilidade da população. O agro é pop, o agro é tudo, então onde está o agro diante da fome?

            Fala-se bastante em ODS, os objetivos de desenvolvimento sustentável, mas tais bandeiras estão no discurso e não na ação. Tudo deve começar na cidade. É nela que as pessoas moram. Não faz sentido deixar que essas habitações toscas e vulneráveis se multipliquem, ampliando as chagas abertas nesta sociedade complexa: aparentemente emotiva e fanatizada quanto a alguns assuntos, mas também cruel ao deixar de lado a obrigação de mudar o inaceitável ambiente social à vista de todos nós.

            Nenhum brasileiro deveria dormir tranquilo, enquanto houver um semelhante a passar fome e a remexer lixo para suprir suas necessidades vitais. O que você está fazendo para saciar a fome de seu irmão?

 

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da pós-graduação da UNINOVE e autor de “Ética Ambiental”.