Varizes e sobrepeso: uma relação que exige atenção à saúde vascular

 

As varizes costumam ser associadas ao envelhecimento, à predisposição genética e às alterações hormonais. No entanto, um fator frequentemente negligenciado tem impacto decisivo sobre a saúde vascular: o excesso de peso. A relação entre sobrepeso e insuficiência venosa é bem documentada pela literatura médica e ajuda a explicar por que tantas mulheres convivem com pernas pesadas, inchaço e desconforto persistente ao longo dos anos.

O sistema venoso dos membros inferiores depende de um delicado mecanismo para garantir o retorno do sangue ao coração. As veias contam com válvulas que impedem o refluxo sanguíneo e trabalham em conjunto com a musculatura das pernas, especialmente a panturrilha, conhecida como a “segunda bomba cardíaca”. Quando esse sistema é submetido a uma pressão excessiva e contínua, surgem as condições favoráveis ao aparecimento e à progressão das varizes.

O excesso de peso exerce justamente esse efeito. O aumento da gordura corporal, sobretudo na região abdominal, eleva a pressão intra-abdominal e dificulta o retorno venoso. Como consequência, o sangue tende a permanecer por mais tempo nas veias das pernas, aumentando sua dilatação e comprometendo o funcionamento das válvulas. Com o passar do tempo, instala-se um quadro de insuficiência venosa que pode evoluir de simples vasinhos para varizes mais extensas e sintomáticas.

Além do componente mecânico, existe também um aspecto metabólico. O tecido adiposo não é apenas um reservatório de energia. Ele funciona como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias inflamatórias que afetam diretamente a saúde dos vasos sanguíneos. Essa inflamação crônica de baixo grau contribui para o enfraquecimento das paredes venosas e reduz sua capacidade de adaptação às pressões do dia a dia.

Os efeitos do sobrepeso sobre a circulação tornam-se ainda mais evidentes após os 45 anos. Nesse período, muitas mulheres enfrentam alterações hormonais relacionadas à menopausa, que favorecem o acúmulo de gordura abdominal e a redução da massa muscular. Trata-se de uma combinação particularmente desfavorável para a circulação venosa, pois aumenta a pressão sobre os vasos ao mesmo tempo em que enfraquece a musculatura responsável por impulsionar o sangue de volta ao coração.

O problema não se limita ao aspecto estético. Dor, sensação de peso, câimbras, inchaço e fadiga nas pernas podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Em muitos casos, esses sintomas acabam desencadeando um ciclo difícil de romper. O desconforto reduz a disposição para a prática de atividades físicas, o sedentarismo favorece o ganho de peso e o aumento do peso agrava ainda mais os sintomas vasculares.

Por isso, o tratamento das varizes não pode ser visto de forma isolada. O controle do peso corporal deve fazer parte de qualquer estratégia voltada à preservação da saúde venosa. Não se trata apenas de emagrecer, mas de promover mudanças sustentáveis nos hábitos de vida.

A alimentação desempenha papel central nesse processo. Dietas ricas em frutas, vegetais, leguminosas, peixes e oleaginosas oferecem nutrientes importantes para a integridade dos vasos sanguíneos e ajudam a controlar processos inflamatórios. Ao mesmo tempo, a redução do consumo excessivo de sódio e alimentos ultraprocessados contribui para diminuir a retenção de líquidos e o inchaço.

A atividade física regular também merece destaque. Caminhadas, ciclismo, hidroginástica e natação estimulam a circulação sem impor sobrecarga excessiva às articulações. O fortalecimento da musculatura das pernas melhora o funcionamento da bomba muscular da panturrilha e favorece o retorno venoso. Mesmo exercícios de intensidade moderada podem produzir benefícios relevantes quando realizados de forma consistente.

É importante destacar que não existe solução única para o problema. O cuidado vascular exige uma abordagem integrada, envolvendo alimentação equilibrada, controle do peso, prática regular de exercícios, acompanhamento médico e, quando indicado, tratamentos específicos para insuficiência venosa.

Em uma sociedade que convive com índices crescentes de sobrepeso e obesidade, compreender a ligação entre excesso de peso e saúde vascular torna-se cada vez mais necessário. As varizes não são apenas uma questão estética. Elas representam um sinal de que a circulação está sob pressão. E, muitas vezes, a melhor forma de cuidar das pernas começa por cuidar do organismo como um todo.

 

Vanessa Oliveira é biomédica e doutoranda em Neurociências, com atuação voltada à bioquímica, toxicologia, envelhecimento celular e saúde preventiva e atua na Lushe Cosmetics.

 




O Pasquim São Paulo, finalmente digitalizado

 

 

Crédito: Alice Markun

Semanário que circulou entre julho de 1986 e agosto de 1987 pode agora ser acessado na íntegra; foi um ano em que o Brasil redemocratizava, debatia e ainda ia às bancas comprar jornal 

m meados de 1986, o cartunista Jaguar me fez uma proposta que parecia impossível recusar: comandar uma franquia paulista de O Pasquim. A sugestão vinha de Fernando Gasparian, meu ex-chefe no Opinião. Para quem crescera lendo o histórico tabloide carioca, dizer não estava fora de cogitação.Assim nasceu o Pasquim São Paulo, tendo Dante Mattiussi, então chefe na TV Record e meu sócio numa produtora a bordo também. Na prática, quem tocou o jornal no dia a dia foi o jornalista gaúcho Manoel Canabarro, meu cunhado, porque Dante e eu seguimos em nossos empregos. O semanário circulou por 56 semanas, entre 3 de julho de 1986 e 6 de agosto de 1987.

O jornal nasceu num instante raro. O governo Sarney vivia o auge do Plano Cruzado, o Brasil se preparava para eleger a Assembleia Nacional Constituinte e respirava os primeiros ares da redemocratização após 21 anos de ditadura. Não criamos uma “patota” coesa como a do original carioca, mas garimpamos elenco de respeito: Alberto Dines, Augusto Nunes, Fernando Morais, Mino Carta, Audálio Dantas, os cartunistas Angeli, Laerte e Jaguar, o compositor Aldir Blanc, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo e o músico Roger do Ultraje a Rigor, entre muitos outros.

A capa premonitória

A edição número 4, de 24 a 31 de julho de 1986, foi das mais marcantes. A capa era de Laerte — que à época ainda não havia iniciado sua transição de gênero. O cartum mostrava um galo de calça comprida segurando um pintinho na palma da mão: “Meu pinto, meu tesouro.” A manchete anunciava “Omem sem H”, e a dupla central trazia o Manifesto Masculinista, apresentado como obra da fictícia “Movimentação Masculinista Nordestina”, mas criação da própria Laerte. O texto propunha o “Masculinismo” como crítica aos modelos rígidos de masculinidade, com reivindicações avançadas para 1986: licença-paternidade, “liberação da lágrima masculina”, igualdade nas tarefas domésticas. Releio aquele texto hoje e não consigo deixar de vê-lo como duplamente premonitório — pela pauta que antecipava e pela trajetória de quem o escreveu.

 

A guerra e o fim

O incidente mais ruidoso foi a briga entre Alberto Dines e Fernando Morais em torno das eleições para governador. Dines apoiava Ermírio de Moraes; Morais, Quércia. A troca de farpas escalou até o ponto em que decidimos não publicar nova réplica — e registramos no editorial, sem ironia: “Censura no Pasquim”. Dines nos processou. Ganhamos.

Comercialmente, o balanço foi agridoce. A Dinap chegou a nos informar que superávamos a Veja nas bancas em certas semanas. Mesmo assim, não alcançamos o ponto de equilíbrio. Uma festa de aniversário na danceteria da moda Avenida Club e a venda de uma edição encadernada com os exemplares de 1986 permitiram encerrar as contas sem grande estrago.

A última edição trazia uma única palavra na capa, em letras garrafais vermelhas: “ADEUS!”. No balão do mascote Sig: “O Pasquim São Paulo para por aqui. No Pasquim não tem acordo com o FMI.”

Quase quatro décadas depois, o acervo digitalizado devolve à memória um Brasil que redemocratizava, elegia sua Constituinte, enfrentava a inflação — e ainda ia às bancas comprar jornal de humor e opinião.

 

Paulo Markun é jornalista, escritor e documentarista, tendo atuado nos principais veículos e entidades da imprensa nacional. Entre 1986 e 87, foi diretor da franquia paulista d’O Pasquim 

 

 




Emendas parlamentares, ONGs e o dever de rastrear o dinheiro público

 

A destinação de recursos públicos por meio de emendas parlamentares tornou-se um dos principais instrumentos de execução orçamentária no Brasil contemporâneo. Trata-se de mecanismo legítimo, previsto constitucionalmente e capaz de atender demandas relevantes da sociedade. Contudo, justamente por envolver a transferência de verbas públicas para entes privados e organizações da sociedade civil, exige níveis elevados de transparência, controle e prestação de contas. Quando esses requisitos falham, surgem dúvidas que ultrapassam o campo administrativo e alcançam o terreno da responsabilidade política, civil e eventualmente penal.

A recente reportagem publicada pelo UOL acerca da destinação de R$ 1 milhão em emenda parlamentar indicada pelo deputado federal Mario Frias ao Instituto Conhecer Brasil reacendeu um debate que vai muito além dos personagens envolvidos. A questão central não é ideológica nem partidária. Trata-se de saber se o dinheiro público chegou efetivamente ao destinatário social prometido ou se foi absorvido por uma estrutura incapaz de demonstrar, de forma clara e objetiva, a execução da finalidade anunciada.

Segundo a reportagem, os recursos foram destinados à execução do projeto Jovens Empreendedores, voltado ao letramento digital e ao empreendedorismo para estudantes da rede pública municipal de Pirassununga, no interior de São Paulo. Entretanto, diretores de escolas, moradores, responsáveis técnicos e até mesmo a administração municipal teriam informado desconhecer a realização das atividades descritas no plano de trabalho. Se confirmadas, tais informações revelam um cenário preocupante, pois uma política pública voltada à educação básica deveria deixar registros concretos, verificáveis e facilmente identificáveis pelos beneficiários diretos.

Em matéria de gestão pública, a simples existência de notas fiscais ou documentos formais não é suficiente para demonstrar a correta aplicação dos recursos. O princípio da eficiência exige a comprovação do resultado. A Administração Pública não remunera apenas despesas; remunera a entrega efetiva do objeto contratado. Quando um projeto educacional não é reconhecido pelas escolas que supostamente deveriam recebê-lo, surge uma incompatibilidade relevante entre a finalidade declarada e a execução comprovada.

A situação torna-se ainda mais delicada diante das informações de que parte dos recursos teria sido destinada a empresas contratadas pelo instituto, incluindo uma empresa pertencente ao advogado do parlamentar responsável pela indicação da emenda. Evidentemente, a mera existência dessa relação não constitui prova de irregularidade. Contratações privadas podem ser legítimas e compatíveis com a execução de projetos financiados por recursos públicos. Entretanto, quando há vínculos pessoais ou profissionais entre os envolvidos, o grau de escrutínio deve ser proporcionalmente ampliado.

O problema não reside apenas na eventual legalidade formal da contratação. O ponto central é a necessidade de demonstrar que os serviços foram efetivamente prestados, que possuíam pertinência com o objeto financiado e que não serviram como mecanismo indireto de favorecimento. Em um Estado Democrático de Direito, a confiança pública depende não apenas da ausência de ilegalidades, mas também da capacidade de afastar dúvidas razoáveis sobre a correta destinação dos recursos.

A Constituição Federal estabelece que a Administração Pública deve observar os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Esses princípios não são conceitos abstratos. Funcionam como critérios concretos de avaliação da legitimidade dos atos administrativos. Quando surgem lacunas documentais, ausência de comprovação material e contradições sobre a execução de um projeto custeado com dinheiro público, o dever de fiscalização não apenas se justifica como se impõe.

É importante registrar que a existência de suspeitas ou indícios não equivale a condenação. O ordenamento jurídico brasileiro consagra a presunção de inocência e exige prova robusta para qualquer responsabilização. Acusações de corrupção demandam demonstração de dolo, vantagem indevida e participação consciente dos agentes envolvidos. Nenhum desses elementos pode ser presumido. Eles devem ser apurados pelos órgãos competentes e comprovados dentro do devido processo legal.

Todavia, a cautela jurídica não pode servir de pretexto para a inércia institucional. A ausência de condenação não elimina o dever de investigar. Ao contrário, é justamente a presença de indícios relevantes que legitima a atuação dos órgãos de controle, do Ministério Público, dos tribunais de contas e do Poder Judiciário. A transparência não é um favor concedido ao contribuinte. É obrigação inerente a qualquer agente que administra recursos públicos.

O episódio ganha dimensão ainda maior porque ocorre em um contexto nacional marcado por sucessivos debates sobre o controle das emendas parlamentares. Nos últimos anos, o país testemunhou controvérsias envolvendo critérios de distribuição, rastreabilidade dos recursos e mecanismos de fiscalização. Em um ambiente institucional que busca aperfeiçoar a governança dessas verbas, casos como esse reforçam a necessidade de ampliar a capacidade de monitoramento da execução financeira e da entrega efetiva dos resultados prometidos à população.

No fim das contas, a pergunta mais importante permanece sem resposta definitiva. O dinheiro público financiou o projeto educacional apresentado à sociedade ou acabou beneficiando uma rede de interesses privados incapaz de demonstrar de forma inequívoca a execução da finalidade anunciada? A resposta dependerá das investigações em curso e da qualidade das provas produzidas.

Enquanto isso, uma conclusão já se impõe. Em uma democracia madura, não basta autorizar o gasto. É preciso acompanhar o percurso de cada recurso público até o seu destino final. O dever de prestar contas não se encerra na emissão de notas fiscais nem na apresentação de relatórios formais. Ele exige comprovação material, transparência integral e rastreabilidade completa. Afinal, quando se trata de dinheiro do contribuinte, a verdadeira prestação de contas começa exatamente onde termina a transferência dos recursos.

 

Marcelo Aith é advogado criminalista. Doutorando Estado de Derecho y Gobernanza Global pela Universidad de Salamanca – ESP. Mestre em Direito Penal pela PUC-SP. Latin Legum Magister (LL.M) em Direito Penal Econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa – IDP. Especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidad de Salamanca.

 

 




Sem eufemismo: PCC e CV serão enfim chamados pelo que de fato são

 

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reações previsíveis. Houve quem comemorasse, quem criticasse e quem tentasse reduzir a medida à polarização política. Mas o debate, caro leitor, não é tão simples assim!

Durante mais de duas décadas de atuação como jornalista, acompanhei de perto a expansão do crime organizado no estado de São Paulo. Cobri operações policiais em comunidades dominadas pelo tráfico, rebeliões em presídios, apreensões de grandes carregamentos de drogas e a árdua rotina de profissionais da Segurança Pública no enfrentamento de uma das estruturas criminosas mais poderosas do continente.

Em 2009, grávida do meu segundo filho, fui acordada em meio à madrugada para cobrir mais um episódio da ofensiva do PCC contra as Forças de Segurança na Baixada Santista. Enquanto policiais eram executados e Delegacias, atacadas, agentes públicos viravam alvos de uma organização que buscava e ainda busca demonstrar força e desafiar o Estado.

O objetivo de tais ofensivas nunca foi apenas financeiro. O lucro alimenta a estrutura, é claro, mas o instrumento de poder é a imposição pelo medo, que subjuga e silencia comunidades, restringe a circulação de pessoas, dificulta denúncias e cria regras paralelas de convivência. É o temor às facções que permite a ocupação de territórios e enfraquece a presença do poder público.

Esta lógica, com o tempo, só ganhou mais força, espaço e ramificações. Em 2024, durante a campanha municipal, uma carta atribuída ao PCC foi divulgada com ataques à minha candidatura à prefeita de Santos-SP. O lamentável fato expôs a crescente capacidade das organizações criminosas de interferirem no debate público, de produzirem intimidação e de buscarem influência para além dos territórios dominados pelo crime.

Nos últimos anos, estas facções ampliaram a capacidade financeira, diversificaram atividades ilícitas e fortaleceram conexões internacionais. Segundo autoridades norte-americanas, PCC, que surgiu em São Paulo, e CV, originado no Rio de Janeiro, deixaram de ser organizações restritas ao território brasileiro e passaram a atuar em redes criminosas transnacionais com insofismável alcance internacional.

Hoje, estas organizações movimentam recursos em escala global, infiltram-se em cadeias logísticas complexas e desafiam instituições, inclusive as da seara da Justiça. Ignorar esta transformação, ampliação meteórica e poder de infiltração, portanto, é erro estratégico.

A classificação definida pelos Estados Unidos, em vigor, oficialmente, a partir de 6/6, não resolverá, sozinha, os problemas da Segurança Pública brasileira, mas terá capacidade de ampliar a cooperação internacional, de fortalecer instrumentos de rastreamento financeiro e de aumentar a pressão sobre redes que dependem da circulação global de recursos.

Como deputada federal em segundo mandato, em Brasília-DF, nos últimos anos, destinei um sem-número de aportes às Forças de Segurança da Baixada Santista e de outras cidades do estado de São Paulo, para a aquisição de embarcações blindadas, de drones, de viaturas, de equipamentos e de Tecnologias de Inteligência Policial.

Segurança Pública, por conseguinte, não é pauta abstrata para mim. É causa cristalizada a partir de experiências que vivi nas ruas, ouvindo vítimas e observando a violência e os impactos que facções produzem sobre famílias inteiras.

Muito além dos debates diplomáticos sobre soberania nacional e cooperação internacional, e no quanto tal medida por parte dos Estados Unidos pode impactar o sistema financeiro brasileiro, é necessário admitir que as ações até agora instituídas pelo País no enfrentamento do crime organizado não foram e nem são suficientes.

É preciso, de alguma maneira, dar um basta em quem espalha o terror pelas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e de armas, e empodera milícias. E, para tanto, pouco importa o idioma e a coloração partidária. O que está em jogo é o combate intrépido ao crime organizado e a instituição de paz.

 

Rosana Valle é deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1” e “Rota do Sol 2”

 




Estados Unidos e as organizações terroristas brasileiras

 

Depois de muitas ameaças, enfim, os Estados Unidos classificaram as duas principais organizações do crime organizado brasileiro como terroristas. Isso causou um alvoroço no Brasil político.

Especialistas de toda ordem passaram a ser ouvidos por emissoras de televisão, rádios, plataformas de streaming, jornais, revistas e demais veículos de comunicação, indignados com essa interferência americana. As alegações fundamentam-se, sobretudo, no medo de que, uma vez classificadas como terroristas, essas organizações sirvam de justificativa para que os Estados Unidos adentrem o território nacional, prendam seus integrantes e os levem para aquele país.

O Brasil, que não consegue prender ninguém do alto comando das facções, ficou assustado com a possibilidade de vê-los presos e levados por um país estrangeiro, como se fizesse diferença para quem vive subjugado por essas organizações se a retirada dos criminosos e a libertação dessas vítimas viessem de forças nacionais ou internacionais.

Outro argumento apresentado é o da possível interferência econômica ou financeira. Nunca fica muito claro o motivo dessa interferência. Trata-se de um argumento vazio, utilizado para reforçar a defesa de que não se deve atribuir a classificação de terroristas a essas organizações quase “filantrópicas”, segundo alguns discursos.

Não se debruçam sequer sobre uma comparação superficial dos prejuízos financeiros causados por elas ao Estado brasileiro. Essas organizações não pagam impostos sobre os serviços que prestam em substituição aos comerciantes regulares. Não recolhem um centavo de tributo pelo gás, pela internet ou pelos comércios alugados de forma forçada, que tomaram para si sem qualquer resistência efetiva do Estado brasileiro.

E a unanimidade fixa-se na teoria da defesa da soberania nacional. Argumenta-se que o Estado brasileiro não aceita nenhuma interferência estrangeira, mas divide tranquilamente essa soberania com as organizações criminosas, que talvez já dominem mais território do que o próprio Estado brasileiro.

O procurador Lincoln Gakiya afirmou recentemente que mais de 30 milhões de pessoas, no Brasil, vivem sob o jugo dessas organizações criminosas.

O Primeiro Comando da Capital (PCC) teve início com oito membros em uma cadeia pública, instituição sob responsabilidade do Estado, número menor do que o de países em que está infiltrado atualmente. Já se passaram três décadas. Há vinte anos, em 2006, essa organização já demonstrava sua força ao colocar o governo de São Paulo de joelhos, quando paralisou a capital e quase paralisou todo o Estado. Está tão infiltrada nos Poderes Públicos que se paga uma passagem e não se sabe se parte do valor vai para o PCC; coloca-se gasolina no carro e não se sabe se se está financiando o PCC; compra-se uma casa e não há certeza de que ela não esteja vinculada aos interesses da organização. Compra-se e vende-se até sentença judicial, sem que se saiba se o PCC não está por trás desse comércio extremamente rentável. Faz-se uma chamada para a Polícia Militar ou registra-se uma ocorrência em uma delegacia com o receio de quantos agentes possam estar a serviço do PCC.

O Comando Vermelho domina o Estado do Rio de Janeiro há ainda mais tempo e de forma mais abrangente do que o PCC domina São Paulo.

Um dia antes de os Estados Unidos classificarem o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, em entrevista a uma jornalista da GloboNews, o governador do Rio de Janeiro afirmou que não há solução para a criminalidade e para o domínio das comunidades pelas facções, ao declarar que as ruas estreitas impossibilitam as ações policiais de combate. Também repetiu o discurso adotado por autoridades há muitas décadas, segundo o qual são necessárias ações de infraestrutura, saúde e a famosa presença social do Estado. No entanto, as populações dessas comunidades só aumentam com o passar dos anos, enquanto o discurso permanece o mesmo. Reitera-se, ainda, que apenas ações policiais não resolverão o problema. Isso equivale a afirmar que as populações dos territórios dominados já não podem sequer alimentar esperança, pois as ações policiais só ocorrerão quando houver permissão das facções.

Como o maior temor do Brasil seria uma interferência na soberania nacional, tão exaltada quanto compartilhada com essas organizações, as autoridades brasileiras sempre sustentaram que os comandantes dessas facções estariam na Faria Lima e em condomínios de luxo. Portanto, se houver a busca por esses líderes em território nacional, os moradores das comunidades estariam isentos de qualquer risco.

Pode-se afirmar, com absoluta tranquilidade, que a inércia das autoridades brasileiras pariu essas organizações e as quase cem facções criminosas atualmente em atividade no país. Elas convivem e atuam livremente, tanto que, em operações policiais, prendem-se mais de cem integrantes de classes mais humildes, mas quase nunca prendem os chefes, que sempre conseguem fugir. Conseguem mesmo fugir?

As autoridades brasileiras assistem inertes, desde 1997, a mais de 40 mil assassinatos por ano, ininterruptamente, sem reação efetiva. Nem do Executivo, muito menos do Legislativo e menos ainda do Judiciário, que apresenta baixíssimo índice de esclarecimento de homicídios e demora uma eternidade para julgar os processos. Ainda assim, há autoridades que se sentem em condições de criticar genocídios em outros países.

Não se sabe se essa mudança de classificação trará algum benefício concreto, mas, para poucos observadores, pior do que está a situação dificilmente poderá ficar.

 

Pedro Cardoso da Costa

Interlagos – SP




BOM ÂNIMO     

     

Perante os palcos do mundo sempre a oferecer espetáculos dantescos de injustiças, discórdias, corrupção e violência…

Diante da tua própria vida muitas vezes conturbada por acontecimentos tão inesperados, que chegam a merecer de ti a interpretação errônea de que são indevidos..

Ante a expectativa que te assola, aguardando que os dias porvindouros cheguem repletos de sonhos realizados…

Quando questionares Deus para saberes se o grupo familiar em que te encontras é o exato que mereces…

Quando te assolar a intemperança, a tristeza tentar burlar a vigilância da tua alma…

Não te permitas arrebatar por qualquer sentimento que te distancie da fé ou te imponha qualquer ato que não esteja associado ao bem.

Cobra de ti mesmo que tenhas bom ânimo, que é a realidade do verdadeiro cristão, aquele que, mesmo em meio às intempéries, não se permitiu afastar de Deus.

Maria do Rosário del Pilar

Do livro: “A Melhor Vida” – Psicografia: Eulália Bueno Editora EME

USE  INTERMUNICIPAL  DE  ASSIS

ÓRGÃO  DA  UNIÃO  DAS  SOCIEDADES  ESPÍRITAS  DO  ESTADO  DE  SÃO  PAULO




Educar para o campo, não para a bola

 

A tensão entre Irã e EUA na Copa de 2026 ensina que devemos ir além do conteúdo técnico para formar estudantes capazes de decifrar as complexas tramas da geopolítica e da subjetividade humana

Nelson Rodrigues, um dos maiores observadores da alma humana, escreveu que, no futebol, “o pior cego é o que só vê a bola”. Essa frase encerra uma lição pedagógica profunda: a realidade nunca é um ponto isolado, mas um campo vasto de interações, que acontecem em múltiplas dimensões. Na educação, o desafio contemporâneo é justamente este: formar cidadãos que não fiquem apenas hipnotizados pela “bola” dos fatos imediatos e do conteúdo técnico, mas que consigam enxergar a complexidade de todo o “campo” ao redor.

Um exemplo atual que exige essa visão sistêmica são as questões que envolvem a participação do Irã na Copa do Mundo de 2026, sediada pelos Estados Unidos, México e Canadá. Para quem “só vê a bola”, trata-se apenas de um evento esportivo em que se enfrentarão seleções de diferentes países. Entretanto, para quem foi ensinado a estabelecer conexões, o jogo é o ponto de encontro de uma rede de tensões globais que demanda uma análise que contemple múltiplas camadas.

Sob as lentes histórica, política e econômica, a possibilidade da presença iraniana em solo norte-americano traz à luz uma história marcada por disputas geopolíticas no Oriente Médio que colocam em confronto, há décadas, diferentes perspectivas e, consequentemente, modos antagônicos de ser e estar no mundo. A análise escolar não deve buscar um veredicto sobre qual lado está certo, mas apresentar como esses contextos e suas consequências moldam os movimentos do presente.

Para além do olhar “isto ou aquilo”, para o país A ou para o país B, uma análise sistêmica real considera um terceiro elemento fundamental: o sujeito e a sua subjetividade.

O foco na subjetividade humana é o que impede a desumanização do conhecimento. Por trás das bandeiras e das decisões, existe o indivíduo: o atleta que treinou uma vida inteira, o torcedor que vê no esporte sua identidade cultural e o cidadão comum, atravessado pela violência dos conflitos que não escolheu. A escola cumpre seu papel ao mostrar que, além dos dados estatísticos, existe a experiência humana — um elemento que traz nuances e contradições que nenhuma fórmula simplista consegue explicar.

O papel da educação, portanto, é garantir que o estudante não sofra da “cegueira” a que alude a máxima de Nelson Rodrigues. Ensinar a enxergar apenas a “bola” pode ser suficiente para acompanhar o jogo; ensinar a compreender o “campo” em sua totalidade é mostrar que futebol, política e economia são fios de um mesmo tecido social. Ao abordar o cenário entre Irã e EUA sem juízos de valor, mas com foco na complexidade e na subjetividade dos sujeitos, a escola ajuda o estudante a compreender que nada acontece de forma isolada.

Em tempos de leituras rápidas e posicionamentos imediatos, educar para a complexidade não é apenas uma escolha pedagógica; é uma necessidade. Precisamos ensinar nossos jovens a olhar para além da bola e a compreender a imensidão do campo — e das pessoas que nos cercam.

Miriã Salles é diretora do Colégio Santo Ivo.

 




Dignidade não tem preço

Analisando as atuais escolhas políticas de nossos “hermanos” argentinos, podemos vislumbrar um alerta sombrio e urgente. Sob a justificativa de combater “desperdícios”, “fraudes” e de promover a desburocratização do Estado, o governo de Javier Milei avançou sua política de austeridade implacável contra uma das parcelas mais vulnerabilizadas da sociedade: as pessoas com deficiência.

O congelamento de repasses a programas de atendimento e a ameaça de corte em massa nas pensões por invalidez revelam a crueldade de um projeto que coloca o superávit fiscal acima da vida humana.

Quando o Estado recua de suas obrigações fundamentais, o impacto desaba sobre os ombros de quem já vive no limite da exaustão. A supressão de benefícios e serviços essenciais não atinge apenas a pessoa com deficiência: desestrutura por completo a sua rede de cuidado.

Vamos dar nome e gênero a essa rede? Segundo o IBGE, mais de 2,5 milhões de mulheres no Brasil estão fora do mercado de trabalho exclusivamente para cuidar de familiares ou dos afazeres domésticos. As brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao cuidado e à casa – quase o dobro do tempo gasto pelos homens (11,7 horas). Quando o Estado corta a assistência, ele empurra essas mães, irmãs e avós para um abismo de sobrecarga e pobreza.

A tesoura que corta o orçamento é a mesma que corta os laços de dignidade e a autonomia financeira dessas famílias.

Aqui no Brasil, precisamos olhar para o cenário argentino com extrema cautela e senso crítico aguçado. O Censo 2022 revelou que somos 14,4 milhões de pessoas com deficiência – 7,3% da população, segundo a metodologia censitária, que mede impedimentos funcionais severos. A PNAD Contínua, que utiliza critério mais amplo de aferição, aponta para 18,6 milhões. Independentemente da metodologia, estamos falando de uma parcela imensa da nossa nação que depende de políticas públicas sólidas.

No entanto, o canto da sereia da “eficiência absoluta” e do “corte de gastos a qualquer preço” é frequentemente entoado por candidatos à presidência e ao parlamento, embalado pelo pânico retórico da “trajetória explosiva da dívida pública”. É imperativo questionar: quem paga a conta dessa austeridade?

A resposta, invariavelmente, encontra-se nas margens da sociedade. A obsessão por superávits fiscais a qualquer custo funciona, na prática, como uma armadilha que esconde o desmonte sistemático das políticas públicas. Quando se fala em “enxugar o Estado”, o que frequentemente entra na mira são pilares civilizatórios como o Sistema Único de Saúde, os programas de segurança alimentar e a assistência social – a exemplo do Benefício de Prestação Continuada (BPC), garantido pelo art. 203 da Constituição Federal como direito fundamental da pessoa com deficiência sem meios de prover sua própria manutenção.

O próprio IBGE nos alerta para o tamanho do abismo que ainda precisamos cruzar: 1 em cada 5 pessoas com deficiência no Brasil é analfabeta. Cortar investimentos em educação pública inclusiva ou em assistência é perpetuação de uma violência histórica.

A lógica privatista indiscriminada segue a mesma direção. Para uma família que cuida de uma pessoa com deficiência severa numa comunidade periférica, a precarização de serviços essenciais – saúde, transporte, reabilitação – é uma ameaça direta à vida. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) e o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) garantem o direito à saúde, à reabilitação, ao transporte acessível e à assistência social. O Decreto nº 6.949/2009, que incorporou a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência com força de Emenda Constitucional, obriga o Estado brasileiro a adotar medidas progressivas – nunca regressivas – na proteção desses direitos. Cortar é inconstitucional. É também desumano.

Como defensor público federal e economista, vivencio diariamente a tensão entre a escassez de recursos e a urgência da vida. A responsabilidade fiscal é, sem dúvida, um princípio importante da administração pública – mas ela deve ser uma responsabilidade fiscal solidária. A verdade é que o Brasil não gasta muito; gasta mal. É preciso combater desvios, desperdícios, fraudes e privilégios. Mas há uma diferença fundamental entre racionalizar o gasto público e desmontar direitos constitucionais.

Um orçamento público é a tradução financeira das prioridades éticas de uma Nação. O Orçamento Público deve ser desenhado à luz das prioridades da Constituição Federal. Um superávit alcançado mediante a negação de fraldas, medicamentos, terapias ou transporte adaptado para uma pessoa com deficiência não é uma vitória econômica. Pelo contrário, é um fracasso jurídico e civilizatório. O povo precisa estar no centro do Erário.

A economia política nos ensina que as dinâmicas de poder determinam a alocação de recursos. Grupos historicamente fragilizados e invisibilizados são sempre os primeiros alvos dos cortes, pois têm menos força para defender seus interesses nos corredores do poder. Por isso, a pauta da dívida pública e a defesa da dignidade das pessoas com deficiência estão intimamente vinculadas. Não se pode debater macroeconomia ignorando o impacto microeconômico na mesa, na saúde e na exaustão das famílias brasileiras.

É preciso desconfiar profundamente de posturas que disfarçam a insensibilidade de pragmatismo técnico. A verdadeira eficiência estatal não reside em abandonar os vulneráveis à própria sorte, reside em construir estruturas que garantam autonomia, inclusão real e protagonismo. O cuidado não é um “gasto” a ser eliminado; é o investimento de uma sociedade em sua própria coesão e humanidade.

As pessoas com deficiência, suas famílias e toda a sociedade civil devem permanecer vigilantes. Nas próximas escolhas políticas, o critério não pode ser apenas quem promete planilhas mais enxutas, deve ser quem demonstra compromisso inegociável com a dignidade humana.

A verdadeira medida da grandeza de um país não é o tamanho de seu superávit, mas a forma como ele trata e protege aqueles que mais precisam de sua mão estendida.

André Naves é defensor público federal especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política, comendador cultural, escritor e professor. Saiba mais em www.andrenaves.com ou em suas redes sociais @andrenaves.def.




Corpus Christi: a transformação que nasce da Eucaristia

 

A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, popularmente conhecida como Corpus Christi, celebrada nesta quinta-feira, está intimamente ligada à Quinta-Feira Santa, quando a Igreja celebra a instituição da Eucaristia por Jesus na Última Ceia. Neste dia, Jesus, no Santíssimo Sacramento, passeia pelas ruas e, como Igreja, o adoramos publicamente, Ele que conduz a humanidade ao Reino dos Céus. Este é o nosso “para que”, o motivo mais profundo da nossa existência: a eternidade com o Ressuscitado.

No ato de confeccionar o tapete, há o encontro com a arte e a beleza que, segundo Platão (Livro X, 2006), despertam-nos para um mundo mais elevado. Nós nos reconhecemos como “corpo”, no qual cada um, desde crianças a idosos, dá o seu contributo para que, através da beleza, os corações sejam tocados e rendam louvores ao grande dono da festa.

Na homilia de 23 de junho de 2011, o então Papa Bento XVI afirmou que a Eucaristia, como dom universal, nos permite tocar a realidade de que o amor de Cristo não é destinado apenas a alguns, mas a toda a humanidade. Ademais, o pão e o vinho consagrados podem nos renovar, já que, na Última Ceia, Jesus se entregou por completo em um grande gesto de amor.

“Eis onde o amor tem sua fonte: que benevolência resplandece ali! Que ações de graças e louvores te são devidos por isso! Como é salutar e proveitoso teu desígnio de instituir a Eucaristia! Como é doce e agradável o festim em que te deste como alimento! Como é admirável tua obra, Senhor! Como é poderosa tua força e infalível tua verdade! Disseste, e tudo foi feito (Sl 32,9). E o que foi feito foi o que tu mesmo ordenaste” (A Imitação de Cristo – Livro IV).

A ressurreição de Jesus revela que o amor de Deus feito homem é mais forte do que a morte. Seu Corpo e Sangue tornam-se alimento para a nossa alma, aproximando-nos de Deus e também dos irmãos. Quando recebemos a comunhão, entramos na vida de Cristo e somos transformados por Ele. Como dizia Santo Agostinho, “é Cristo quem nos assimila a si”.

Essa experiência não pode permanecer apenas em nós, é necessário que transcenda. À medida que reconhecemos Jesus na Eucaristia, devemos percebê-lo também no próximo, especialmente nos que sofrem e naqueles que ainda não fizeram uma verdadeira experiência de amor com Jesus. Esse é o compromisso do cristão diante de uma sociedade marcada pela falta de fé, pelo vazio espiritual e por ideologias anticristãs que afastam o homem da esperança no Reino dos Céus.

Caros irmãos em Cristo, os atalhos nunca serão a resposta para uma vida integral e magnânima. Não há como fugir da cruz, das dores e dos martírios de cada dia, pois é a partir deles que somos forjados e convocados a responder à vida através das nossas escolhas.

Caminhemos rumo “aos céus novos e à terra nova”, conforme Apocalipse capítulo 21, versículo 1. Não percamos de vista que é na Eucaristia que somos sustentados, fortalecidos e conduzidos pelo próprio Cristo no caminho da salvação.

 

Laercio Teixeira é teólogo e missionário da Comunidade Canção Nova.




Intoxicação ideológica, ou de algum outro tipo 

 

O destempero verbal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao atacar o senador Flávio Bolsonaro por defender a inclusão de facções criminosas brasileiras na lista de organizações terroristas revela um comportamento incompatível com a liturgia do cargo e preocupante sob o ponto de vista institucional. 

Pode-se discordar da proposta. Pode-se argumentar juridicamente contra ela. Pode-se sustentar que a legislação internacional reserva a tipificação de terrorismo para circunstâncias específicas. Tudo isso faz parte do debate democrático. O que não se espera de um chefe de Estado é uma reação emocional, agressiva e descontrolada diante de uma posição política divergente. 

O presidente da República não é um comentarista de redes sociais. Não é um militante partidário em assembleia estudantil. Sua palavra possui peso institucional e impacto direto sobre a estabilidade política do país. Quando Lula abandona a serenidade e passa a atacar adversários de maneira impulsiva, transmite a imagem de um governante dominado pelo ressentimento e pela irritação. 

A fala presidencial causa ainda mais estranheza porque o tema em debate é extremamente sério. As facções criminosas brasileiras expandiram-se para além do tráfico de drogas tradicional. Hoje controlam territórios, movimentam bilhões, executam rivais, intimidam autoridades, infiltram-se em estruturas públicas e mantêm conexões internacionais. O avanço dessas organizações constitui uma ameaça concreta à segurança nacional. 

Diante desse cenário, discutir mecanismos jurídicos mais duros para enfrentá-las deveria ser considerado legítimo. Em vez disso, Lula reagiu como se a simples sugestão fosse uma afronta pessoal ou ideológica. O tom utilizado não demonstrou equilíbrio nem capacidade de liderança. Demonstrou irritação, intolerância e um preocupante desequilíbrio retórico. 

A insistência do presidente em transformar qualquer divergência em confronto moral absoluto aprofunda a polarização política brasileira. Um estadista busca reduzir tensões. Lula parece frequentemente interessado em ampliá-las. Seu discurso recente transmite a sensação de alguém emocionalmente capturado pela lógica do embate permanente. 

Não é exagero afirmar que episódios assim levantam dúvidas sobre o estado emocional do presidente. O excesso de agressividade verbal, a perda de compostura e a incapacidade de responder com racionalidade sugerem um quadro de crescente desgaste político e psicológico. Governar exige firmeza, mas também autocontrole. Sem isso, a autoridade presidencial se degrada em mera impulsividade. 

O Brasil atravessa desafios econômicos, fiscais e sociais profundos. A sociedade espera de seu presidente lucidez, equilíbrio e maturidade institucional. Espera alguém capaz de enfrentar temas difíceis com sobriedade e racionalidade. Não alguém que reaja com ataques destemperados sempre que confrontado por opiniões divergentes. 

A democracia exige debate. Exige pluralidade. Exige civilidade. Quando o presidente abandona esses princípios e substitui argumentos por explosões emocionais, não enfraquece apenas seus adversários. Enfraquece a própria dignidade da Presidência da República. 

 

Doutor em Economia por Harvard, Marcos Cintra é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico.