Dia Mundial de Conscientização do Autismo: é possível diagnosticar o TEA na fase adulta?
São Paulo, abril de 2025 – O dia 2 de abril é marcado pelo Dia Mundial da Conscientização do Autismo. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas, tem como objetivo compartilhar informações sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e promover a inclusão e o respeito. Além disso, é um importante lembrete da necessidade de desmistificar o autismo, especialmente na fase adulta, quando o diagnóstico tardio ainda é uma realidade para muitos.
Embora o TEA seja um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta desde a infância, muitos adultos passam a vida sem saber que possuem a condição. Isso pode ocorrer devido a diversos fatores, como o preconceito, o estigma social e a falta de informação. Outro ponto é que muitos indivíduos desenvolvem “comportamentos compensatórios” para mascarar seus sintomas e se adequar às expectativas sociais.
“Ao longo do desenvolvimento do indivíduo com TEA, a pessoa pode camuflar alguns sintomas, nem sempre de maneira consciente, mas como forma de enfrentar as dificuldades do dia a dia”, explica Helen Batista de Figueiredo, Neuropsicóloga no Centro Especializado em Reabilitação II (CER) Girassol, gerenciado pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
Diagnóstico tardio
Apesar dos desafios, é possível diagnosticar o TEA na fase adulta. No entanto, esse processo exige uma avaliação minuciosa e o uso de instrumentos padronizados que possibilitem distinguir entre o Transtorno do Espectro Autista e outras condições com sintomas semelhantes, como ansiedade, fobia social e transtorno obsessivo compulsivo.
“O profissional deve estar atento à importância de realizar um diagnóstico diferencial, que é um processo que exige uma avaliação minuciosa e o uso de instrumentos padronizados que possibilitem distinguir entre condições com sintomas semelhantes, evitando, assim, diagnósticos errôneos e, consequentemente, tratamentos inadequados”, afirma Helen.
Os critérios diagnósticos para o TEA são os mesmos para crianças e adultos, mas as manifestações dos sintomas podem variar ao longo do desenvolvimento. No entanto, em adultos, esses sinais podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais ultrapassem as capacidades do indivíduo.
“Embora os critérios de diagnóstico sejam os mesmos, as manifestações dos sintomas variam entre crianças e adultos, já que esses sintomas podem mudar ao longo do desenvolvimento. Nos adultos, frequentemente, os sinais são camuflados, e os critérios podem ser preenchidos com base em informações retrospectivas. Contudo, é necessário que a apresentação atual cause prejuízo significativo ao indivíduo”, pontua a especialista.
Critérios de avaliação
O diagnóstico é realizado por um psiquiatra ou neurologista, mas Helen alerta: “É importante entender que, por se tratar de um diagnóstico clínico fundamentado na observação do comportamento, entrevistas e aplicação de instrumentos padronizados, é fundamental o envolvimento de uma equipe multiprofissional.”
Existem diversos sinais e comportamentos que podem indicar a presença do TEA em adultos. A manifestação dos sintomas é diversa e individual, embora compartilhe alguns sinais clínicos comuns que indicam um desenvolvimento atípico.
Segundo a especialista, os principais sinais são: déficits persistentes na comunicação e interação social, manifestando-se em dificuldades para estabelecer conversas e relacionamentos; problemas em interagir com outros indivíduos e disfunção na cognição social, que se traduz na dificuldade em compreender e responder às intenções, ações e emoções alheias; assim como se autorregular diante de situações ou regras sociais. Em adultos com linguagem fluente, há a possibilidade de existir, ainda, uma “linguagem corporal” rígida ou exagerada.
Adicionalmente, pessoas com TEA podem apresentar estereotipias motoras simples, rigidez nas rotinas, sofrimento diante de pequenas mudanças, padrões rígidos de pensamento e interesses incomuns e repetitivos por aspectos sensoriais, como respostas excessivas a sons e texturas, ou aparente indiferença à dor, calor ou frio.
Além disso, muitos adultos com TEA apresentam comorbidades psiquiátricas, como ansiedade, depressão e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Tais patologias podem influenciar o diagnóstico e o tratamento, tornando o manejo clínico mais complexo.
Tratamento e qualidade de vida
O tratamento do transtorno em adultos visa aprimorar as habilidades sociais, promover a regulação emocional e assegurar a habilitação e a reabilitação, contribuindo para a melhora na qualidade de vida. Nesse contexto, as atuações da fisiatria e da neuropsicologia se mostram essenciais.
O acompanhamento com psiquiatra e/ou neurologista, é fundamental para desvendar o funcionamento cognitivo e comportamental dos indivíduos com o transtorno. “A avaliação neuropsicológica e multiprofissional não tem a intenção de rotular ou limitar o indivíduo, mas sim de apoiar o diagnóstico médico, identificar as facilidades e dificuldades cognitivas e comportamentais, e direcionar as intervenções necessárias, com o objetivo primordial de melhorar a qualidade de vida”, ressalta a neuropsicóloga.
Através da avaliação, é possível identificar as áreas de força e fraqueza de cada um, planejar o tratamento de forma individualizada e implementar intervenções eficazes para melhorar a atenção, a memória, a linguagem e outras funções cognitivas, além de auxiliar no desenvolvimento de estratégias para lidar com comportamentos desafiadores.
É nesse cenário que, muitas vezes, torna-se imprescindível a atuação de uma equipe interdisciplinar, liderada por um médico especialista em reabilitação, para a elaboração do diagnóstico e, posteriormente, do projeto terapêutico singular (PTS). “É aqui que surge a figura do médico fisiatra. Trata-se de um médico especialista no processo de reabilitação nas diversas fases da vida e qualificado para coordenação do cuidado interdisciplinar”, enfatiza o Dr. Filipe Eustáquio, fisiatra no CER II Girassol.
“O objetivo do fisiatra é favorecer a restauração da função das pessoas, atuando na prevenção, diagnóstico e tratamento não-cirúrgico de distúrbios associados a doenças e problemas que comprometem o movimento, a força e a funcionalidade do corpo”, completa o especialista.
O trabalho, em conjunto com a equipe interdisciplinar na construção do PTS, visa fornecer suporte emocional, auxiliar no desenvolvimento de aspectos comportamentais e sensoriais, e promover a reabilitação e habitação do paciente.
Linha de Tratamento CER II Girassol
O CER – Centro Especializado em Reabilitação é um serviço de atenção especializada que compõe a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Atuando de maneira articulada aos demais pontos da rede, o CER Girassol, sob gestão do CEJAM, oferece um diferencial crucial no tratamento de pessoas com TEA ao integrar uma equipe multidisciplinar composta por neuropsicólogo, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, fisioterapeutas, enfermeiros, médicos neurologistas e fisiatras.
A equipe trabalha de forma coordenada, proporcionando uma abordagem mais holística e individualizada, permitindo que as diferentes dimensões do TEA sejam tratadas simultaneamente, com estratégias complementares que se ajustam às necessidades específicas do indivíduo.
“Somos um serviço de referência no cuidado e proteção aos usuários, familiares e acompanhantes que necessitam de reabilitação física e intelectual”, completa Erica Lavoura, gerente da unidade.
Para obter atendimento no CER, o paciente deve ser encaminhado pela Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua residência, onde será consultada a disponibilidade e, após a liberação da vaga, a UBS entrará em contato com as orientações para a primeira avaliação no local.
Para a gerente, cada desafio enfrentado contribui para o crescimento e aprimoramento dos serviços, com uma sensação de recompensa ao ver os resultados positivos. “No fim, o sentimento é de compromisso renovado e uma satisfação profunda por fazer parte de um trabalho tão relevante e transformador”, finaliza Erica.
Sobre o CEJAM
O CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos. Fundada em 1991, a Instituição atua em parceria com o poder público no gerenciamento de serviços e programas de saúde em São Paulo, Rio de Janeiro, Mogi das Cruzes, Campinas, Carapicuíba, Franco da Rocha, Guarulhos, Itu, Santos, São Roque, Ribeirão Preto, Lins, Assis, Ferraz de Vasconcelos, Pariquera-Açu, Itapevi, Peruíbe e São José dos Campos.
A organização faz parte do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (IBROSS), e tem a missão de ser instrumento transformador da vida das pessoas por meio de ações de promoção, prevenção e assistência à saúde.
O CEJAM é considerado uma Instituição de excelência no apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS). O seu nome é uma homenagem ao Dr. João Amorim, médico obstetra e um dos fundadores da Instituição.
No ano de 2025, a organização lança a campanha “365 novos dias de saúde, inovação e solidariedade”, reforçando seu compromisso com os princípios de ESG (Ambiental, Social e Governança).
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