Diocese de Assis

MEU NOME É LÁZARO

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          Interessante observar na parábola do rico e o pobre, contada em Lucas, 16,10-31, que somente o pobre tem seu nome revelado, enquanto o rico permanece um ilustre desconhecido. É a única parábola em que Jesus cita um nome. Interessante também é a coincidência do nome, o mesmo do amigo ressuscitado por Jesus, Lázaro, que etimologicamente também significa aquele que sofre de lepras, morfético…Mesmo assim, Jesus o dignifica, colocando-o num patamar capaz de fazer inveja aos mais afortunados dessa vida. Olhando para os dias atuais, a parábola tem muito a nos ensinar.

          O conflito social é latente. Não exclui regime político, nem religioso. Sequer nações poderosas ou mesmo subdesenvolvidas. As diferenças de classes estão em qualquer sociedade humana. Mesmo assim, a fé cristã ainda prega a igualdade e a fraternidade como pilares de sustentação do mundo novo que sonhamos. Não se vá esperar a morte, o julgamento final, para se concluir que as desigualdades entre nós são fatores dos muitos conflitos que desestabilizam nossas relações pessoais. O rico da parábola percebeu tardiamente a desgraça que seu egoísmo lhe proporcionou na eternidade. Nosso problema é exatamente esse. Demoramos a enxergar a realidade do outro lado e, quando nos damos conta, clamamos por misericórdia, suplicando até mesmo a caridade dos lazarentos que um dia ignoramos ao redor de nossos pretensos palácios, nossa arrogância existencial. Os pedestais que construímos em vida tornar-se-ão os abismos a nos separar na realidade das graças celestiais. O que aqui plantamos, lá colheremos.

          São muitos os Lázaros ao nosso redor. Pagam o preço da nossa possível salvação, pois são eles os instrumentos que Deus enviou para nos ajudar na redenção humana e no nosso aprimoramento espiritual. Não podemos ignorá-los. Nem os condenar. Lázaros hoje caminham conosco numa mesma calçada, adentram nossas igrejas, prédios públicos ou áreas de lazer, à cata de nossas sobras. Integram movimentos sociais na esperança de mudanças. Gritam por igualdade em muitas de nossas ruas ou praças. Agitam suas bandeiras em passeatas ou entregam suas esperanças no uso de drogas e vícios que anestesiam suas dores e decepções. Lázaros também ocupam cargos políticos e religiosos, na tentativa de nos despertar. Lázaros estão nas trincheiras dos muitos conflitos entre povos e nações… sentem o cheiro mórbido da pólvora nos canhões e visualizam o clarão insano de nossas armas nucleares. Lázaro pode ser eu ou você, um dia…

          O perigo das riquezas é o pecado por omissão. Ou seja: não é o fator riqueza que condena, mas a negligência do rico com relação à pobreza que grassa ao redor de sua mesa, sua casa, suas posses… O rico da parábola, tardiamente, se deu conta dessa sua omissão. Desejou avisar aos seus, alertá-los quanto a esse perigo, mas já era tarde. Cada qual deveria prestar contas segundo o alerta que lhes fora dado em vida, pela lei, pelos profetas, pela palavra que lhes fora proclamada… A consciência dos deveres estava embutida em suas vidas pelo conhecimento da Palavra. E isto lhes era suficiente, se quisessem realmente agradar a Deus. Simplesmente cumprir seus desejos de solidariedade, fraternidade, responsabilidade social. Eis aqui o único e fatal perigo que o mau uso das riquezas é capaz de proporcionar. Quem faz de seus bens instrumentos de opressão e humilhação aos menos favorecidos despreza um privilégio que poucos conseguem: ser útil no processo de crescimento de muitos que rodeiam nossa vida, nosso trabalho, nossa profissão neste mundo.

          O crescimento das virtudes é a multiplicação das verdadeiras riquezas. Essas, necessariamente, não exaltam o nome do rico, mas dá-lhe dignidade na medida que dignifica os Lázaros que o cercam. Serão eles que exaltarão e revelarão esse nome na presença de Deus. Que o nosso seja um destes.

WAGNER PEDRO MENEZES [email protected]

 

 

 

         

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