O PROFETISMO DA PÁSCOA PARA AS NEGAÇÕES DA VIDA

Diocese de Assis

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O mundo não está bem. E quem ainda tem coragem de olhar para isso sabe que não se trata de pessimismo — trata-se de honestidade.

Guerras que não terminam. Crianças que morrem antes de aprender a sonhar. Povos inteiros empurrados para as margens da história enquanto outros debatem frivolidades em salões climatizados. A indiferença virou estilo de vida. A injustiça ganhou nome técnico para parecer inevitável. E a mentira, repetida vezes suficientes, passou a disputar espaço com a verdade como se fossem iguais.

Em meio a tudo isso, a Páscoa chega. E ela não chega em silêncio.

A Páscoa é, em sua essência mais radical, um ato profético. Não no sentido de prever o futuro, mas no sentido mais antigo e mais verdadeiro da palavra: dizer a verdade que o poder não quer ouvir. Confrontar o que está errado. Anunciar que o mundo pode — e deve — ser diferente.

Jesus não foi crucificado por acaso. Ele foi eliminado porque incomodava. Porque curava quem o sistema descartava. Porque sentava à mesa com quem a sociedade excluía. Porque dizia, com palavras e com gestos, que a dignidade humana não é privilégio de poucos — é direito de todos. Isso era demais para os que tinham interesse em manter tudo como estava. E continua sendo.

A ressurreição, então, não é apenas um milagre de ordem espiritual. É uma declaração política, social e humana: o último recurso dos que detêm o poder — o silêncio definitivo — não funcionou. A vida venceu. A verdade resistiu. E o projeto de um mundo mais justo e mais humano não foi enterrado junto com aquele corpo na pedra fria de um sepulcro em Jerusalém.

Esse é o profetismo da Páscoa. E ele fala diretamente ao nosso tempo. Fala para quem naturaliza a guerra como se fosse inevitável — e lembra que a paz é possível e que lutar por ela é sagrado. Fala para quem desviou os olhos da miséria alheia por cansaço ou por conforto — e provoca: a indiferença também é uma escolha. Fala para quem acredita que uma voz sozinha não muda nada — e lembra que tudo que existe de bom no mundo começou com alguém que decidiu não se calar.

A Páscoa não é uma festa para quem está satisfeito com o estado das coisas. Ela é um chamado para quem ainda se incomoda. Para quem ainda sente aquela inquietação no peito diante da injustiça. Para quem ainda acredita, contra todas as evidências do cinismo, que o amor é uma força capaz de mover a história.

O mundo nega, mas a Páscoa afirma; nega a dignidade e a Páscoa a restaura; nega a esperança e a Páscoa a ressuscita; nega o futuro e a Páscoa o abre de par em par.

Celebrar a Páscoa, hoje, é um ato de resistência. É recusar o fatalismo. É anunciar, com a vida e não apenas com palavras, que outro mundo é possível — porque já foi prometido, já foi inaugurado e já não pode mais ser desfeito.

Avante! Que a páscoa nos faça profetas do tempo em que vivemos.

 

PE. Edvaldo Pereira dos Santos

 

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