O que fazer após o diagnóstico de esclerose múltipla?

 

Receber o diagnóstico de esclerose múltipla (EM) costuma ser um momento marcado por dúvidas, inseguranças e pela necessidade de compreender como a doença pode impactar a rotina. Nesse momento, o acesso à informação de qualidade e o diálogo com a equipe de saúde são fundamentais para que o paciente participe das decisões sobre seu tratamento e sinta mais segurança nessa jornada que se inicia.

Para esclarecer as principais dúvidas que surgem após o diagnóstico, especialistas em esclerose múltipla e doenças neuroimunológicas respondem às perguntas mais frequentes sobre tratamento, acompanhamento médico, qualidade de vida e convivência com a doença.

1.Recebi o diagnóstico de esclerose múltipla. E agora? Existem tratamentos eficazes para a doença? A doença pode progredir? 

Dr. Caio Disserol, Neurologista e Neuroimunologista pelo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP: Receber o diagnóstico de esclerose múltipla costuma despertar dúvidas e preocupações. Muitas pessoas ainda associam a doença à perda de autonomia ou ao uso de cadeira de rodas, mas essa não é a realidade da maioria dos pacientes atualmente. Embora a doença ainda não tenha cura, os avanços das últimas décadas transformaram seu tratamento. Hoje existem diversas terapias de alta eficácia capazes de controlar a atividade da doença, reduzir o número de surtos e retardar significativamente sua progressão.

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória que acomete o sistema nervoso central, incluindo cérebro, medula espinhal e nervos ópticos. Ela pode se manifestar por surtos, como alterações visuais, perda de sensibilidade, fraqueza, desequilíbrio e visão dupla. Mesmo quando não há sintomas aparentes, a doença pode continuar ativa, o que reforça a importância do acompanhamento periódico e da realização de exames, como a ressonância magnética.

As terapias modificadoras da doença atuam reduzindo surtos, novas lesões e o risco de incapacidade ao longo do tempo. Existem medicamentos orais, injetáveis via subcutânea e intravenosa, e a escolha deve ser individualizada, levando em consideração características da doença, exames, outras condições de saúde, planejamento familiar, estilo de vida e preferências do paciente.

Hoje sabemos que iniciar o tratamento precocemente é um dos principais fatores para melhorar o prognóstico.  O objetivo não deve ser apenas tratar os sintomas quando eles aparecem, mas prevenir novos danos ao sistema nervoso. Em determinadas situações, especialmente quando a doença apresenta sinais de maior atividade, pode ser indicada desde o início uma medicação de alta eficácia. Essa decisão deve ser compartilhada entre o paciente e o neurologista, após uma discussão transparente sobre os benefícios, os riscos e a necessidade de monitoramento de cada opção.

A doença pode progredir? Sim, essa possibilidade existe. A piora pode ocorrer em consequência de surtos com recuperação incompleta ou de forma gradual, mesmo sem novos surtos aparentes. No entanto, a evolução varia de pessoa para pessoa e não pode ser prevista apenas com base no diagnóstico. Com tratamento adequado e acompanhamento regular, muitos pacientes conseguem controlar a doença e reduzir significativamente o risco de progressão.

Além das medicações, hábitos saudáveis, atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada e o cuidado com a saúde mental fazem parte do tratamento. A esclerose múltipla passa a fazer parte da vida do paciente, mas não precisa definir seu futuro. Com acompanhamento adequado, é possível preservar a autonomia e manter uma vida ativa.

2.Como saber qual é o tratamento mais adequado?

Dra. Laura F. Parolin, Neurologista da Neurovie – Neurologia e Saúde em Joinville: O tratamento da esclerose múltipla é individualizado. A escolha da terapia considera fatores como a atividade da doença, o número e a localização das lesões, sinais de progressão, outras condições de saúde, planejamento familiar, rotina e preferências do paciente.

Atualmente, as práticas clínicas mostram que, quando indicado, iniciar precocemente uma terapia de alta eficácia pode modificar a evolução da doença e reduzir o risco de incapacidade futura. Ainda assim, o tratamento deve ser constantemente reavaliado, pois pode ser necessário ajustá-lo ao longo do acompanhamento para garantir eficácia, segurança e qualidade de vida.

3.O que devo perguntar ao médico nas primeiras consultas?

Dr. Flavio Vieira Marques Filho, Neuroimunologista pela USP-SP: É natural sair da primeira consulta com muitas informações e esquecer parte das orientações recebidas. Uma boa estratégia é levar uma lista de perguntas para aproveitar melhor esse momento e participar das decisões sobre o tratamento.

  • “Que tipo de esclerose múltipla eu tenho e como você chegou a esse diagnóstico?” Peça para o médico explicar os exames (ressonância, líquor) e por que outras doenças foram descartadas.
  • “Quais são as opções de tratamento para o meu caso e por que você recomenda essa opção?” A decisão deve ser conjunta. O tratamento deve se adaptar à vida do paciente (sua rotina, planos de gravidez, vacinas), e não o contrário. É preciso entender os riscos, benefícios e efeitos colaterais.
  • “Como eu sei que estou tendo um surto e o que fazer se tiver um sintoma novo?” Entender que um surto típico dura mais de 24 horas e ocorre sem febre ou infecção evita pânico e ajuda a buscar atendimento no momento certo.
  • “Além do remédio, o que eu posso fazer por mim?” Questione sobre o papel do sono, exercícios, reabilitação, controle da fadiga, alimentação, vitamina D e saúde emocional no seu tratamento.
  • “Qual é o nosso plano daqui para a frente?” Pergunte quando deve voltar e quais exames de rotina precisará repetir.
  • Uma dica de ouro: Ao final, faça sempre uma última pergunta: “Doutor, o que eu ainda não perguntei que você acha importante eu saber?”

4.Por que o acompanhamento de diferentes profissionais de saúde é importante?

Dr. João Pedro Izidoro, Neurologista e Neuroimunologista, Médico Assistente dos Serviços de Neuroimunologia dos Hospital das Clínicas da FMRP-USP (Riberião Preto-SP) e da UFTM (Uberaba – MG): O tratamento da esclerose múltipla vai além da medicação. O objetivo do tratamento é cuidar da pessoa como um todo, preservar sua autonomia, sua qualidade de vida e seus projetos para o futuro. Ela pode se manifestar de muitas formas, muitas vezes invisíveis aos olhos de terceiros, e só o paciente é capaz de sentir. Cada um desses desafios merece o cuidado de um profissional específico:

  • Neurologista: coordena o diagnóstico e a terapia modificadora de doença, fundamental para reduzir surtos e retardar a progressão.
  • Fisioterapeuta e Educador Físico: trabalham força, equilíbrio e condicionamento. O exercício deixou de ser apenas recomendável e passou a fazer parte do tratamento, melhorando a fadiga, a mobilidade e o humor, sem qualquer aumento de risco de surto.
  • Terapeuta Ocupacional: preserva a autonomia no dia a dia e no trabalho, adaptando e tornando as tarefas mais seguras e menos cansativas.
  • Psicólogo: é essencial, pois a depressão e a ansiedade são comorbidades frequentes na esclerose múltipla e impactam diretamente a qualidade de vida e a adesão ao tratamento, além de poder auxiliar na reabilitação cognitiva.
  • Enfermeiro: educa sobre a medicação.
  • Nutricionista: educa sobre hábitos alimentares mais nutritivos e com potencial anti-inflamatório, como a dieta mediterrânea.
  • Urologistas e Ginecologistas: auxiliam nas queixas urinárias e também na qualidade da vida sexual.

5.É possível continuar trabalhando, estudando e mantendo uma vida ativa após o diagnóstico?

Dr. João Pedro Izidoro: Sim. O prognóstico da esclerose múltipla mudou significativamente nas últimas décadas graças ao diagnóstico mais precoce e ao desenvolvimento de terapias cada vez mais eficazes.

Na prática, isso significa que o diagnóstico não é mais sinônimo de interromper a carreira, largar a faculdade ou desistir de projetos. A maioria dos pacientes segue trabalhando, estudando, praticando esporte, viajando, tendo filhos e construindo famílias. Existem desafios, claro, mas a esclerose múltipla é uma condição crônica, tratável, que não merece ser interpretada como uma sentença, e sim como um diagnóstico. Afinal, viver bem com ela é regra, e não é exceção.