O vazio existencial no labirinto digital

Diocese de Assis

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Neste mês de novembro, dentro de uma série de 4 artigos, quero dialogar com você, leitor, alguns elementos de discussão que põem em questão o Humanismo do Encontro e a Crise do Século XXI.

Nosso olhar é o contexto do tempo presente, que mostra a perda de sentido da vida, a banalização da violência, a indiferença social, a polarização político-econômica-cultural, a cultura do descarte e o crescente descompromisso ético frente à urgente afirmação dos direitos e dignidade humana, da solidariedade, da justiça e da paz, para um humanismo cristão.

Vamos começar a jornada!?

 

1. O Vazio Existencial no Labirinto Digital: A Globalização da Indiferença

O nosso século, paradoxalmente chamado de “Era da Comunicação”, testemunha a mais profunda e silenciosa das crises: a perda de sentido para a vida. Enquanto a tecnologia nos oferece a ilusão de conexão instantânea, o indivíduo moderno se afoga em um mar de superficialidade, onde a busca por significado foi substituída pela ânsia por gratificação imediata e entretenimento incessante. O silêncio, espaço vital para a introspecção e a descoberta do sentido, é preenchido pelo ruído algorítmico.

O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em sua análise da “Modernidade Líquida”, descreveu essa realidade com precisão. A solidez das referências éticas e sociais do passado esvaiu-se, deixando o indivíduo flutuando em incertezas, obrigado a reconstruir sua identidade a cada novo like ou a cada nova tendência de consumo. Sem âncoras sólidas, a vida corre o risco de se tornar um mero inventário de bens e experiências efêmeras.

A consequência mais trágica desse vazio é a indiferença social, que o Papa Francisco qualificou como a “globalização da indiferença”. O sofrimento alheio é enquadrado, rapidamente consumido nas manchetes e logo descartado, como se fosse um produto com prazo de validade. As pessoas se tornam capazes de desviar o olhar do mendigo na calçada ou do refugiado no noticiário, pois tratar o outro como não-próximo é a maneira mais fácil de evitar a responsabilidade. O psicólogo austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da Logoterapia, afirmava que a busca primária do ser humano não é por prazer, mas pela descoberta de um sentido. E esse sentido, em sua essência, está sempre orientado para algo ou alguém que não somos nós mesmos.

O Humanismo Cristão responde a essa crise reafirmando o valor absoluto da vida e propondo o Humanismo do Encontro. O Evangelho nos chama a uma atitude radical de presença: a presença de Deus em nós e a presença concreta no sofrimento do outro. Como nos recorda a Escritura: “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade.” (1 Jo 3, 18). Romper com a indiferença é um ato de fé e de coragem; é entender que o sentido só é pleno quando é doado no serviço e na partilha. É nesse ser-para-o-outro que o cristão encontra a solidez de que a sociedade líquida carece.

Se a tecnologia nos oferece a miragem da plenitude no individual, o Humanismo Cristão nos convida a desativar as notificações da alma. O verdadeiro sentido não está na tela, mas na atitude de nos fazermos próximos, resgatando a nossa própria humanidade ao reconhecermos e acolhermos a dor do irmão.

 

PE. EDIVALDO PEREIRA DOS SANTOS

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