| A empresária Andreia Vieira Gaspar, de 51 anos, saiu da Espanha para realizar uma cirurgia plástica no Brasil. Segundo relato da família ao UOL, ela buscava procedimentos faciais em Goiânia e passou por uma operação que teria incluído ritidoplastia profunda, frontoplastia, mentoplastia óssea, blefaroplastia, lipoaspiração e enxertia de gordura no rosto. A cirurgia começou pela manhã, terminou no fim da tarde e durou mais de oito horas. Na madrugada seguinte, Andreia teve uma parada cardiorrespiratória e morreu. O caso é investigado, e a família alega negligência no pré e no pós-operatório. O hospital e o médico afirmam que seguiram os protocolos e que prestarão esclarecimentos às autoridades competentes.
O caso chocou não apenas pelo desfecho, mas pelo que ele expõe: a cirurgia plástica estética, cada vez mais desejada, divulgada e naturalizada nas redes sociais, continua sendo um ato médico complexo. E quando vários procedimentos são concentrados em uma única operação longa, o que parecia conveniência pode se transformar em aumento de risco.
Poucos dias antes, outro episódio também acendeu o alerta, em Fortaleza, o empresário João Victor Batista Pinheiro, de 45 anos, morreu durante um procedimento estético de lifting facial em uma clínica. O caso é investigado pela Polícia Civil do Ceará, e a defesa da família afirma que a clínica não teria equipamentos de ressuscitação no momento da intercorrência; a responsável pelo espaço disse que seguiu os protocolos e aguarda o laudo oficial.
Para o cirurgião plástico Dr. Luiz Anizio Wanna, os episódios não devem ser usados para espalhar pânico, mas precisam provocar uma discussão urgente: a banalização das cirurgias longas, combinadas e vendidas como “transformação completa”.
“Cirurgia plástica não é uma sequência de desejos que o paciente vai colocando em uma lista. É um ato médico. Envolve anestesia, tempo cirúrgico, risco trombótico, resposta inflamatória, perda sanguínea e capacidade real do corpo de suportar aquela intervenção”, afirma.
A sedução perigosa do “já que vou operar, faço tudo”
A lógica parece atraente, uma única anestesia, uma única internação, um único pós-operatório e vários resultados ao mesmo tempo. Abdômen, mamas, lipoaspiração, face, pálpebras, pescoço, enxertia de gordura. Nas redes sociais, esse tipo de associação ganhou nomes leves, quase comerciais: “combo cirúrgico”, “pacote de transformação”, “mommy makeover”.
Mas o corpo não entende a cirurgia como promoção. Ele responde ao trauma. Quanto maior o tempo operatório e maior o número de áreas manipuladas, maior tende a ser a complexidade do controle anestésico, circulatório, respiratório e pós-operatório. Não se trata apenas de somar procedimentos; trata-se de somar impactos fisiológicos.
“O perigo começa quando a pergunta deixa de ser ‘o que é mais seguro?’ e passa a ser ‘o que dá para aproveitar e fazer junto?’. Nem tudo que pode ser feito deve ser feito no mesmo dia”, alerta o Dr. Luiz Wanna. |