QUEM VAI QUERER SER PROFESSOR NO BRASIL?
Todos os anos, quando chega outubro, o professor ganha maior espaço nas homenagens, nas escolas e no debate público. É um reconhecimento necessário. Mas, diante do cenário que estamos construindo para o magistério, acredito que precisamos aproveitar esse momento também para fazer uma pergunta: quem vai querer ser professor no Brasil nos próximos anos?
Não faço essa pergunta para diminuir a importância ou o compromisso de quem escolhe a profissão hoje.
Faço porque os números mostram uma mudança que merece nossa atenção. Estudo recente do Instituto Semesp aponta que, entre 2015 e 2025, o número de professores de até 24 anos no Ensino Médio caiu 31,1%, enquanto o contingente de profissionais com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. Hoje, para cada três professores que se aposentam, apenas um novo profissional ingressa na carreira.
Ter professores experientes em sala de aula é uma riqueza para a educação. São profissionais que acumularam conhecimento, vivências e aprendizados que não podem ser substituídos simplesmente pela passagem do tempo. O problema está em não conseguirmos construir, na mesma velocidade, uma nova geração disposta a seguir esse caminho.
Durante muito tempo, tratamos a escolha pelo magistério quase exclusivamente como uma questão de vocação. É claro que identificação com a educação importa. Mas nenhuma profissão pode depender apenas da disposição individual de seus profissionais para superar dificuldades. O professor também precisa encontrar uma carreira que lhe permita planejar o futuro, desenvolver-se profissionalmente e exercer seu trabalho com dignidade.
Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2026 ajudam a dimensionar essa questão. Nas redes estaduais, os professores temporários passaram de 35,6% do quadro em 2015 para 48,6% em 2025. Em São Paulo, o movimento foi ainda mais expressivo: os temporários representavam 17,9% dos docentes da rede estadual em 2015 e chegaram a 47,6% dez anos depois.
O que estamos dizendo a um jovem quando apresentamos uma profissão em que a instabilidade ocupa espaço cada vez maior? Como convencê-lo a construir uma trajetória no magistério se ele não consegue enxergar com clareza as possibilidades de ingresso, permanência e evolução na carreira?
A remuneração é parte fundamental dessa discussão, mas valorização não se resume ao salário. Ela passa por jornada adequada, formação continuada, segurança dentro das escolas, infraestrutura, autonomia, apoio institucional e redução de uma sobrecarga burocrática que muitas vezes afasta o professor justamente de sua principal função: ensinar.
Também precisamos olhar para a porta de entrada. O Anuário mostra que, entre os estudantes que ingressaram nas licenciaturas em 2024 e haviam realizado o Enem no ano anterior, apenas 14,7% estavam entre os 20% de maior desempenho no exame. Em 2018, eram 23,9%.
Isso não significa, evidentemente, que a nota de uma prova determine quem será um bom professor. O dado importa porque ajuda a revelar o quanto as licenciaturas conseguem, ou não, disputar a escolha dos jovens.
Não podemos esperar que essa realidade mude apenas com campanhas para estimular estudantes a cursarem licenciaturas. Antes de perguntar por que um jovem não quer ser professor, precisamos perguntar o que temos feito para que ele queira.
Esse debate também não pode colocar gerações em lados opostos. Precisamos valorizar os profissionais que dedicaram décadas à educação e, ao mesmo tempo, criar condições para que seus conhecimentos encontrem continuidade em uma nova geração de docentes. Renovar o magistério não significa substituir experiência por juventude. Significa garantir continuidade.
É por isso que valorização e futuro são temas inseparáveis. Se queremos professores preparados e comprometidos daqui a dez, vinte ou trinta anos, precisamos construir hoje uma carreira que faça sentido para quem está começando e para quem já dedicou a vida à escola.
Neste mês em que celebramos os professores, o reconhecimento mais importante que podemos oferecer não está apenas nas homenagens. Está na construção de condições concretas para que ensinar seja uma escolha profissional respeitada, sustentável e capaz de oferecer futuro.
Porque a pergunta sobre quem vai querer ser professor amanhã começa pela forma como tratamos quem ensina hoje.
Alessandro Soares é advogado, pedagogo e presidente do CPP, com atuação desde 1998 na defesa da educação e na valorização dos profissionais da docência.





