Reforma, construção e valorização: por que o imóvel passou a ser visto como um ativo financeiro?

 

Durante muito tempo, o imóvel foi visto pelos brasileiros como um bem de moradia ou uma reserva patrimonial. Hoje, essa percepção começa a mudar. Em um cenário marcado por juros ainda elevados, maior seletividade na concessão de crédito e consumidores mais atentos à gestão do patrimônio, cresce a visão de que o imóvel também pode ser um ativo financeiro capaz de gerar valor ao longo do tempo.

Essa mudança acontece por uma razão simples: um imóvel não é um patrimônio estático. Assim como outros ativos, ele pode ser valorizado por investimentos estratégicos, principalmente quando reformas, ampliações e melhorias aumentam sua atratividade e seu preço de mercado.

Segundo levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o mercado imobiliário manteve trajetória de crescimento nos últimos anos, impulsionado pela demanda por imóveis de melhor qualidade e pelo interesse crescente em propriedades com maior eficiência energética, plantas funcionais e infraestrutura atualizada. Ao mesmo tempo, índices como o FipeZAP mostram que os preços dos imóveis residenciais continuam apresentando valorização em diversas capitais brasileiras, reforçando o potencial do patrimônio imobiliário como ativo de longo prazo.

Mas valorizar um imóvel não significa simplesmente gastar mais dinheiro com uma reforma. O retorno do investimento depende da capacidade de realizar melhorias que aumentem efetivamente o valor percebido pelo mercado. Modernização de cozinhas e banheiros, melhorias na eficiência energética, atualização das instalações elétricas e hidráulicas, ampliação de ambientes e adequação às novas necessidades de uso costumam oferecer maior potencial de valorização do que intervenções voltadas apenas ao aspecto estético.

Essa lógica aproxima o mercado imobiliário do conceito de gestão patrimonial. Antes de iniciar qualquer obra, o proprietário deve avaliar qual será o impacto daquele investimento sobre o valor futuro do imóvel e se existe potencial para recuperar o capital empregado em uma eventual venda ou locação.

É justamente nesse contexto que o crédito pode exercer um papel estratégico. Historicamente, muitas pessoas associaram empréstimos apenas ao financiamento do consumo ou à solução de emergências financeiras. No entanto, quando utilizado para financiar melhorias que aumentam o valor de um ativo, o crédito passa a desempenhar outra função, antecipar um investimento capaz de gerar retorno patrimonial.

Dados internos do Banco Bari ajudam a ilustrar esse movimento. No primeiro semestre de 2026, os contratos de empréstimo com garantia de imóvel cresceram 79,8% nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Entre os principais destinos dos recursos aparecem justamente construção e reforma (16,6%), atrás apenas da reorganização financeira por meio da quitação de dívidas (37,3%).

O dado revela uma mudança importante no comportamento do consumidor. O imóvel deixa de ser apenas a garantia da operação de crédito e passa a ser também o destino do investimento realizado com os recursos obtidos. Naturalmente, isso não significa que qualquer reforma justificará uma operação de crédito. A decisão deve partir de uma análise financeira cuidadosa.

O primeiro passo é comparar o custo do financiamento com o potencial de valorização do imóvel. Em modalidades como o empréstimo com garantia, que costumam oferecer juros inferiores aos praticados em linhas de crédito pessoal e prazos que podem chegar a 20 anos , o proprietário consegue distribuir o investimento ao longo do tempo e preservar seu fluxo de caixa. Ainda assim, o retorno esperado precisa ser suficiente para justificar o custo da operação.

Outro aspecto importante é compreender que patrimônio e liquidez caminham juntos. Um imóvel mais valorizado amplia as possibilidades do proprietário, seja para venda, locação, utilização em futuras operações de crédito ou sucessão patrimonial. Em outras palavras, investir no imóvel não significa apenas melhorar sua aparência, mas fortalecer um dos principais ativos financeiros das famílias brasileiras.

Essa discussão ganha ainda mais relevância em um país em que boa parte da riqueza das famílias está concentrada no patrimônio imobiliário. Enquanto aplicações financeiras costumam receber atenção constante, imóveis frequentemente passam anos sem qualquer investimento que preserve ou amplie seu valor de mercado.

Enxergar o imóvel sob uma perspectiva patrimonial significa mudar essa lógica. Reformas deixam de ser vistas apenas como despesas e passam a integrar uma estratégia de valorização de ativos. Da mesma forma, o crédito deixa de ser um instrumento exclusivamente voltado ao consumo e passa a funcionar como um mecanismo para antecipar investimentos capazes de fortalecer o patrimônio no longo prazo.

O desafio, portanto, não é decidir entre reformar ou não. É compreender quando a reforma representa um investimento e quando ela é apenas um gasto. Essa diferença é o que transforma um imóvel em um ativo financeiro verdadeiramente estratégico.

 

Gustavo Caciatori, diretor de operações do Banco Bari