Refúgios climáticos
Costumava chamar de “refúgios climáticos” as áreas verdes tão escassas na maior parte de nossas cidades, condenadas à desertificação. A poderosa indústria da construção civil não leva em consideração o fator verde, essencial para a saúde física e mental dos futuros moradores desses milionários empreendimentos. Mas o “politicamente correto” me advertia de que não é bom falar em “refúgio”. Assim como é proibido hoje falar em “covas”, aquelas aberturas no solo para receber novas árvores. Deve-se falar em “berços”.
Mas Lisboa mostra que falar em “refúgio climático” é mais apropriado do que outra denominação qualquer. Com o agravamento da crise climática, as pessoas precisam mesmo é de refúgios. De lugar de acolhimento, para que não pereçam em virtude das temperaturas elevadas, silenciosas ceifadeiras de vida. O calor mata mais do que o frio.
Os lisboetas separaram cinquenta bilhões para adaptar a cidade para eventos extremos até 2030. No começo deste ano, cinco tempestades, em três semanas, assolaram a capital portuguesa. Eles também dispõem de um PDGL – Plano Geral de Drenagem de Lisboa, obra orçada em 250 milhões de euros, ou algo como um bilhão e meio de reais. Enquanto São Paulo tem um PlanClima, o Plano de Ação Climática para a maior cidade brasileira, Lisboa tem um Contrato Climático da Cidade – o CCC. É um plano que prevê a redução de 80% das emissões de gases de efeito estufa até 2030.
Para isso, reabilitarão edifícios e praças e criarão áreas verdes, para honrar o título de Capital Verde da Europa, outorgado pela Comissão Europeia em 2020, a primeira cidade do sul do continente a receber a honraria. Como São Paulo, em Lisboa os automóveis são o maior vilão na emissão dos gases venenosos. Não é fácil seguir o exemplo de Copenhague, que conseguiu substituir carros pelas bicicletas e o de Paris, que reduziu drasticamente a circulação de veículos no centro histórico.
O que é preciso saber: todas as cidades do mundo estão preocupadas com as emergências climáticas e essa preocupação tem de chegar a todos os lares, pois cada pessoa pode e deve fazer algo para melhorar as condições existenciais de sua casa, de sua rua, de seu bairro, de sua cidade, de seu país e do único mundo de que dispomos para viver.
José Renato Nalini é reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.