Redação do Enem: professor reúne dicas para evitar erros e buscar a nota 1000 na reta final
Educador reúne orientações para organizar a argumentação e aproveitar os últimos dias de preparação antes da prova

Barueri, 04 de novembro de 2026 – Faltando poucos dias para o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que acontece nos próximos domingos, 8 e 15 de novembro, muitos estudantes concentram os esforços na revisão dos conteúdos, mas também precisam estar atentos a uma etapa que pode fazer diferença significativa no resultado final: a redação é um texto dissertativo-argumentativo, em até 30 linhas, focado em um assunto de relevância social, cultural, científica ou política.
A produção textual exige mais do que uma tese bem construída: o estudante precisa mobilizar repertório sociocultural pertinente e apresentar uma proposta de intervenção detalhada, que respeite os direitos humanos. Avaliado em cinco competências e com pontuação máxima de 1.000 pontos, o texto cobra domínio da língua, capacidade argumentativa e compreensão do problema proposto. Na última edição, apenas 10 dos 3,37 milhões de participantes alcançaram a nota máxima.
Segundo o professor de Língua Portuguesa e Redação da Escola Internacional de Alphaville (EIA), Thiago Silvério Barbosa, uma boa redação precisa ser planejada antes mesmo de o estudante começar a escrever. Mais do que tentar adivinhar o tema ou decorar repertórios na última semana, o momento é de reforçar a estrutura do texto, revisar erros recorrentes e treinar a leitura cuidadosa da proposta.
“Na reta final, não é hora de tentar transformar completamente a maneira como o aluno escreve. O mais importante é identificar os pontos que ainda podem comprometer a redação e criar um procedimento seguro para o dia da prova: compreender exatamente o tema, definir uma tese, selecionar argumentos que realmente sustentem esse ponto de vista e revisar o texto antes de entregá-lo”, explica.
Antes de escrever, entenda exatamente o que está sendo pedido
Um dos erros mais prejudiciais é começar a redação imediatamente após ler o tema. Antes de pensar nos argumentos, o candidato deve compreender o recorte proposto e identificar qual é o problema que precisa ser discutido.
“Uma palavra ou expressão do tema pode mudar completamente o direcionamento da redação. Por isso, o estudante precisa ler a proposta com calma, observar os textos motivadores e se perguntar: qual é exatamente o problema apresentado? Qual é o recorte que preciso desenvolver? A partir daí, fica mais fácil construir uma tese que responda à proposta”, orienta Thiago.
O professor recomenda ainda evitar a tentativa de encaixar um texto previamente decorado no tema apresentado. Os textos motivadores devem ser utilizados para compreender a discussão proposta, mas o candidato precisa construir sua própria argumentação.
Defina a tese antes de começar a desenvolver os argumentos
Depois de compreender o tema, o estudante deve estabelecer com clareza qual será o ponto de vista defendido. Essa decisão funciona como um “norte” para o restante do texto e ajuda a evitar que os parágrafos de desenvolvimento apresentem ideias desconectadas.
“A tese não precisa ser uma frase sofisticada. Ela precisa ser clara e permitir que o leitor entenda qual posição será defendida ao longo da redação. Se o aluno não consegue explicar para si mesmo qual é a sua tese, provavelmente ainda não está pronto para começar a argumentação”, afirma o professor.
A partir dela, a recomendação é selecionar dois argumentos capazes de sustentar o ponto de vista. Em vez de acumular muitas referências, o candidato deve priorizar argumentos que consiga explicar e relacionar ao problema apresentado.
O repertório precisa estar relacionado ao argumento
Filósofos, acontecimentos históricos, obras literárias, pesquisas e conceitos de diferentes áreas do conhecimento podem contribuir para a redação, mas apenas quando ajudam efetivamente a desenvolver a discussão.
“Um repertório sociocultural só faz sentido quando estabelece uma relação clara com aquilo que o estudante está defendendo. Citar um filósofo famoso apenas para demonstrar conhecimento não fortalece necessariamente a argumentação. O repertório precisa ser explicado e conectado ao argumento”, destaca Thiago.
Na reta final, portanto, vale mais revisar referências que o estudante realmente domina do que tentar memorizar uma grande quantidade de citações.
Desenvolvimento: explique o argumento, não apenas apresente uma ideia
Outro ponto de atenção está nos parágrafos de desenvolvimento. Segundo o professor, é comum o candidato apresentar uma afirmação e acreditar que ela, por si só, constitui uma argumentação.
“O desenvolvimento precisa mostrar ao leitor por que aquele argumento é válido. O estudante pode pensar em uma sequência simples: qual é a ideia que estou defendendo? Por que ela acontece? Quais são suas consequências? Como ela se relaciona com o problema apresentado? Esse encadeamento transforma uma opinião em uma argumentação mais consistente”, explica.
A relação entre as ideias também deve ser observada. Conectivos como “portanto”, “além disso”, “por outro lado”, “nesse sentido” e “consequentemente” ajudam a explicitar a relação entre os períodos e os parágrafos, mas devem ser utilizados de maneira coerente, sem repetição automática
A proposta de intervenção precisa ser concreta
Na conclusão, um dos principais cuidados é evitar propostas genéricas. A redação do Enem exige que o estudante apresente uma proposta de intervenção para o problema discutido, respeitando os direitos humanos.
Para o educador, uma boa estratégia é verificar se a proposta responde a perguntas básicas: quem deve agir, o que deve ser feito, como a ação será realizada e com qual finalidade. “Dizer apenas que ‘o governo deve criar políticas públicas’ é muito genérico. O estudante precisa mostrar que compreendeu o problema e consegue propor uma ação relacionada a ele. Quanto mais claramente os elementos da intervenção estiverem apresentados, mais consistente será a conclusão”, afirma.
Reserve alguns minutos para revisar antes de passar a limpo
A revisão final não deve ser tratada como uma etapa opcional. Depois de terminar o texto, o candidato deve reler a redação procurando não apenas erros ortográficos, mas também problemas de sentido e de estrutura.
A sugestão é fazer uma revisão em diferentes etapas: primeiro, verificar se o texto realmente responde ao tema; depois, observar se a tese foi desenvolvida e se os argumentos estão relacionados a ela; por fim, conferir concordância, regência, pontuação, repetição de palavras e possíveis erros de grafia.
“Quando o aluno termina de escrever, ele tende a enxergar aquilo que pretendia dizer, e não necessariamente aquilo que está efetivamente escrito. Por isso, a revisão precisa ser uma leitura crítica do texto. É o momento de perguntar se cada parágrafo cumpre sua função e se existe alguma frase que pode ser melhorada ou corrigida”, explica Thiago.
Checklist para a redação do Enem
Para os últimos dias antes da prova, o professor recomenda que o estudante utilize um checklist simples durante os treinos:
- Tema: respondi exatamente ao recorte proposto?
- Tese: meu ponto de vista está claro?
- Argumentação: meus argumentos sustentam a tese?
- Repertório: as referências utilizadas estão relacionadas ao que estou defendendo?
- Coesão: as ideias estão conectadas de maneira lógica?
- Intervenção: minha proposta enfrenta o problema discutido e apresenta elementos concretos?
- Linguagem: revisei os principais erros de gramática e pontuação?
- Revisão: li o texto integralmente antes de passá-lo a limpo?
“Uma redação de alto nível não depende de uma fórmula mágica. Ela é resultado da combinação entre leitura atenta da proposta, planejamento, argumentação consistente, domínio da escrita e revisão. Na semana da prova, o melhor que o estudante pode fazer é transformar esses procedimentos em um hábito para chegar ao exame sabendo exatamente como começar, desenvolver e revisar seu texto”, conclui Silvério.
O ENEM
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi instituído em 1998 e tornou-se a principal porta de entrada para a universidade no Brasil. A prova permite o acesso a programas públicos educacionais como o Prouni (Programa Universidade para Todos), Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e Fies (Fundo de Financiamento Estudantil); além de muitas universidades privadas, inclusive no exterior, usarem os resultados do exame em substituição aos vestibulares tradicionais.
O Enem é aplicado em dois domingos seguidos em locais de aplicação por todos as regiões do território nacional. Em 2026, as provas acontecem em 8 e 15 de novembro. Foram registrados para esta edição 5.055.818 de inscritos, alta de 5,08% em relação a 2025, e maior número de participantes confirmados desde 2020.
No primeiro dia, os candidatos farão as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (45 questões de Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira/Inglês ou Espanhol, Artes e Educação Física), Ciências Humanas e suas Tecnologias (45 questões de História, Geografia, Filosofia e Sociologia) e a Redação. No segundo dia, é a vez das provas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias (45 questões de Biologia, Química e Física) e Matemática e suas Tecnologias (45 questões de Matemática).
Podem participar do Enem pessoas que estejam cursando (como “treineiros”), que já concluíram, ou que estejam concluindo o Ensino Médio. É possível ainda usar o resultado do Enem para obter o certificado de conclusão dos estudos, contanto que o participante tenha 18 anos completos na data da primeira prova, e alcançar ao menos 450 pontos em cada área do conhecimento e 500 pontos na redação.
O especialista: Thiago Silvério Barbosa é doutorando e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde atuou como bolsista CAPES, e graduado em Letras pela mesma instituição. Com 16 anos de experiência docente, atualmente leciona Língua Portuguesa e Convivência Ética na Escola Internacional de Alphaville. Sua trajetória é marcada pela versatilidade pedagógica, incluindo passagens por cursos pré-vestibulares e preparatórios para o Enem. No campo da pesquisa, integra o grupo “Psicanálise e Teoria Crítica: Teorias da Subjetivação” (CEBRAP/Núcleo Direito e Democracia). Complementando sua formação interdisciplinar, possui especialização em Psicanálise e Análise do Cotidiano pela PUC-SP, além de formação clínica em Psicanálise.






