FÉ EM TEMPOS DE DIVISÃO: O DESAFIO DE DIALOGAR
Diocese de Assis
Sustentar a fé em meio às diversidades nunca foi tarefa simples, mas tornou-se ainda mais desafiador no tempo presente.
Vivemos em uma sociedade plural, rica em diferenças culturais, religiosas, políticas e sociais. Em tese, esse cenário deveria favorecer o encontro, o aprendizado mútuo e o crescimento coletivo. No entanto, o que se observa é o avanço de uma polarização que, pouco a pouco, vai substituindo o diálogo pela desconfiança, e a convivência pelo confronto.
A fé, que deveria ser ponte, muitas vezes tem sido usada como muro. Em nome de convicções pessoais, cresce a intolerância, o discurso de ódio, as agressões verbais e até a violência.
O partidarismo cego e o radicalismo estreitam a visão, impedem a escuta e sufocam qualquer possibilidade de encontro verdadeiro. O resultado disso é visível: relações fragilizadas, famílias divididas, amizades rompidas e uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde o outro passa a ser visto como ameaça, e não como irmão.
Diante desse cenário, a pergunta que ecoa é inevitável: o que faremos? Como interromper essa espiral de desentendimento que atinge até os gestos mais simples do cotidiano? Como reconstruir pontes quando tantos se acostumaram a erguer muros?
Talvez o primeiro passo seja resgatar o sentido mais profundo da fé: ela não existe para excluir, mas para humanizar. Quem crê de verdade não teme o diferente, mas se aproxima dele com respeito e abertura sincera.
O diálogo, nesse contexto, não é sinal de fraqueza ou relativismo, mas de maturidade e sabedoria. É no encontro com o outro que reafirmamos nossas convicções de forma mais consciente, sem perder a ternura nem a firmeza.
Superar a divisão exige coragem. Coragem para ouvir sem julgar, para falar sem ferir, para discordar sem destruir. Exige também humildade para reconhecer que ninguém é dono absoluto da verdade.
A convivência saudável não nasce da uniformidade, mas da capacidade de harmonizar diferenças e valorizar o que nos une.
Ora, se quisermos um futuro mais justo e pacífico, precisamos começar agora, no pequeno: na conversa em casa, no respeito no trabalho, na paciência no trânsito, na responsabilidade nas redes sociais e na maneira como tratamos quem pensa diferente de nós. A transformação do mundo passa, inevitavelmente, pela conversão do coração.
A pergunta permanece: o que faremos? A resposta, ainda que desafiadora, está ao nosso alcance. Escolher o diálogo é escolher a vida. Escolher o respeito é sustentar a fé de forma autêntica. E talvez seja exatamente disso que mais precisamos hoje: menos ruído e mais encontro, menos imposição e mais escuta, menos divisão e mais humanidade.
PE. EDVALDO PEREIRA DOS SANTOS







