NINGUÉM CABE EM UM INSTANTE
Diocese de Assis
Vivemos com tanta pressa que até nossos julgamentos parecem precisar ser instantâneos. Vemos uma atitude, ouvimos uma frase, recebemos uma mensagem e, em poucos segundos, já temos uma opinião sobre alguém. Como se conhecer uma pessoa fosse tão simples quanto interpretar um acontecimento.
O problema é que ninguém cabe em um instante. Nenhuma pessoa pode ser reduzida ao que fez, disse ou deixou de fazer em determinado momento. Há sempre uma história maior acontecendo por trás daquilo que conseguimos enxergar.
Cada pessoa carrega uma história que não vemos inteira. Há preocupações escondidas, perdas ainda doloridas, medos que não foram contados, noites difíceis, responsabilidades silenciosas e batalhas que acontecem longe dos nossos olhos. Muitas vezes, conhecemos apenas um gesto e acreditamos conhecer a pessoa que o realizou.
Quantas vezes julgamos alguém sem saber o que estava acontecendo dentro daquela vida?
Talvez uma resposta tenha sido mais curta porque aquela pessoa estava exausta. Talvez um afastamento tenha sido uma tentativa de se proteger. Talvez uma atitude que nos pareceu fria tenha sido apenas o jeito encontrado para atravessar um dia difícil.
Isso não significa justificar tudo. Há erros que precisam ser reconhecidos, atitudes que precisam ser questionadas e limites que precisam ser estabelecidos. Mas discernir não é o mesmo que condenar. Podemos discordar de uma atitude sem transformar aquela atitude na identidade de uma pessoa.
A maturidade talvez esteja justamente em aprender a deixar algum espaço entre o que vemos e aquilo que concluímos.
Nesse espaço pode nascer uma pergunta: “Será que existe alguma coisa que eu ainda não sei?”
Essa pequena pergunta pode mudar muita coisa.
Ela nos impede de transformar impressão em certeza. Faz com que a curiosidade substitua a suspeita e que a escuta tenha oportunidade de chegar antes do julgamento. Nem sempre descobriremos uma explicação capaz de mudar nossa opinião. Mas teremos oferecido ao outro algo que todos nós precisamos: a oportunidade de sermos compreendidos antes de sermos definidos.
A vida já é difícil demais para acrescentarmos uns aos outros o peso de julgamentos apressados.
Talvez não possamos conhecer toda a história de ninguém. Mas podemos escolher não inventar o que desconhecemos. Podemos esperar um pouco mais, perguntar antes de concluir, ouvir antes de responder e olhar novamente antes de fechar uma porta.
No fundo, a maturidade não está em nunca julgar. Está em reconhecer que nosso olhar é limitado.
Entre o que aconteceu e aquilo que pensamos sobre o que aconteceu existe um espaço. E é justamente ali, quando a pressa diminui, que a compreensão pode começar.
Talvez seja por isso que algumas pessoas precisem menos de um julgamento e mais de alguém disposto a olhar uma segunda vez.
PE. EDVALDO PEREIRA DOS SANTOS








