O CORAÇÃO QUE AINDA SENTE

Diocese de Assis

image_pdfimage_print

 

Tem uma coisa que a gente vai perdendo sem perceber. Não é dinheiro, não é saúde, não é tempo — é mais sutil que tudo isso. É a capacidade de se deixar tocar. De olhar para o outro e sentir alguma coisa. De parar diante de uma dor que não é sua e deixar que ela entre. De verdade. Sem escapar para o celular, sem mudar de assunto, sem fingir que não viu nada.

A gente chama isso de compaixão. E ela está ficando cada vez mais rara neste mundo apressado.

Vivemos num tempo acelerado, cheio de notícias, cheio de imagens de sofrimento ao redor — tanta coisa que o coração aprende a se defender. Vai criando casca. Vai ficando espesso. Não por maldade, mas por sobrevivência. Ver demais sem poder fazer nada machuca. E então a gente para de ver. Para de sentir. Para de se importar de verdade com o que acontece ao redor.

Mas existe uma diferença enorme entre um coração cansado e um coração fechado. O coração cansado ainda sente — só precisa de descanso e de cuidado. O coração fechado parou de arriscar. Parou de se deixar mover. E aí, sem perceber, a vida vai ficando mais estreita, mais fria, mais só.

O amor verdadeiro não é um sentimento bonito que aparece só nos dias bons. É uma decisão de continuar enxergando o outro mesmo quando é difícil. É escolher perguntar como você está e realmente esperar pela resposta. É sentar do lado de quem chora sem tentar resolver tudo — só estar presente, só fazer companhia na dor, só segurar a mão sem ter pressa alguma de ir embora.

Compaixão, no fundo, é isso: sofrer junto. A palavra vem do latim e carrega exatamente esse significado — padecer junto com o outro. Não é pena. Pena olha de cima, mantém distância e se protege. Compaixão desce, chega perto, coloca a mão no ombro e fica. Sem julgamento. Sem pressa nenhuma de resolver.

A história humana guarda os nomes de quem soube fazer isso. As mães que ficaram. Os amigos que apareceram nas horas piores. Os desconhecidos que pararam quando todo mundo passou direto. O mundo não foi salvo por grandes discursos — foi sustentado por gestos pequenos, feitos com o coração aberto e as mãos estendidas para quem precisava.

Você ainda tem esse coração. Ele está aí, às vezes enterrado embaixo do cansaço, da pressa e das decepções, mas está. Basta uma coisa simples para acordá-lo: parar. Respirar fundo. Olhar de verdade para quem está do seu lado. E deixar que o que você vê chegue até você.

O coração que ainda sente é o maior sinal de que você está vivo — de verdade.

 

PE. EDVALDO PEREIRA DOS SANTOS

Botão Voltar ao topo