PERDEMOS MUITO QUANDO NÃO SABEMOS VER

Diocese de Assis

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Há uma sutil violência que não sangra e não faz barulho, mas corrói por dentro: a intolerância que nasce do medo, o ciúme que se alimenta da insegurança, a inveja que não suporta ver o outro florescer. São feridas antigas, às vezes tão enraizadas que confundimos com nossa própria identidade. Mas não são. São camadas que escondem o que realmente somos.

A intolerância raramente se apresenta como ódio declarado. Ela aparece disfarçada de julgamento rápido, de comentário ácido, de silêncio hostil. O ciúme se veste de cuidado. A inveja, de crítica legítima. E a rivalidade se apresenta como competição saudável — mas não é. No fundo, todas essas atitudes nascem do mesmo lugar: o medo de não ser suficiente, o pavor de ser esquecido, de não ter valor. E quando nos sentimos insuficientes, o outro vira ameaça.

O problema é que ao transformarmos pessoas em rivais ou inimigos, perdemos muito mais do que imaginamos. Perdemos a possibilidade do encontro verdadeiro. Perdemos a chance de aprender com quem é diferente. Perdemos energia que poderia ser usada para criar, amar e crescer — e a gastamos defendendo territórios que, na maioria das vezes, nem existem de verdade. Saímos dessa guerra invisível exaustos e mais vazios do que entramos.

Existe, porém, um outro caminho. Ele começa com uma pergunta simples: Quem sou eu, afinal?

Cada pessoa carrega dons únicos — talentos que não foram dados para competir com os do vizinho, mas para compor algo maior, junto com ele. Quando descobrimos isso com honestidade, o olhar muda. O sucesso do outro deixa de ser uma ameaça e passa a ser um sinal de que a vida é generosa o suficiente para todos. A conquista alheia não me diminui — ela me inspira.

Ver os próprios dons com clareza é um ato de coragem. Não se trata de arrogância, mas de reconhecimento honesto: sou capaz, tenho algo a oferecer, tenho um lugar nesse mundo. E justamente porque tenho, não preciso diminuir ninguém para me sentir inteiro.

A fraternidade não é um ideal distante e romantizado. É uma escolha que se faz no cotidiano — na fila, no trabalho, em casa, nas redes sociais. É decidir, a cada dia, que o outro não é meu concorrente, mas meu companheiro de caminho. Alguém cujos talentos complementam os meus, cujas fraquezas me convidam à compaixão e cujas conquistas me lembram que crescer junto é não só possível, mas necessário.

Ainda dá tempo de recomeçar. De largar a rivalidade que cansa e abraçar a fraternidade que liberta. O mundo não precisa de mais competidores — precisa de mais pessoas dispostas a caminhar juntas.

 Pe. Edvaldo Pereira dos Santos

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