Sobrecarga de trabalho afasta 405 mil professoras paulistas do rastreamento de câncer de mama

Com jornadas duplas e rotinas pedagógicas exaustivas, maioria feminina das salas de aula do Estado enfrenta dificuldade para realizar mamografias preventivas

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O Centro do Professorado Paulista (CPP), associação de classe que representa os professores e atua no fortalecimento da educação, iniciou uma mobilização junto às escolas estaduais para cobrar flexibilidade na jornada de trabalho e garantir que as mais de 405 mil professoras da Educação Básica consigam realizar exames preventivos de câncer de mama durante o Outubro Rosa. A ofensiva da entidade ocorre após dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica revelarem que as mulheres representam 80,9% de todo o magistério paulista (de um total de 500.006 docentes), contingente que hoje enfrenta dificuldades práticas para conciliar a sobrecarga pedagógica com consultas e mamografias na rede de saúde.

O descompasso ocorre em um momento em que a rede pública estadual dispõe de capacidade de diagnóstico, mas sem horários compatíveis com a grade escolar. Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, os serviços públicos de saúde em São Paulo realizaram mais de 4,8 milhões de mamografias, com 779.189 exames concentrados apenas nos primeiros sete meses deste ano.

No entanto, postos fixos e unidades móveis do programa Mulheres de Peito (Carretas da Mamografia), responsáveis por 34.625 exames de janeiro a julho, funcionam prioritariamente em horário comercial, período em que as educadoras estão em sala de aula e temem sofrer penalidades ou descontos em folha caso se ausentem.

Para a professora Lisete de Fátima Oliveira, terceira vice-presidente do CPP, a sobrecarga de trabalho e a dedicação integral à formação dos alunos acabam empurrando o cuidado pessoal para segundo plano. “A rotina de quem leciona não se encerra quando o sinal toca; ela continua noite adentro com correções, preparação de aulas e exigências burocráticas que consomem o tempo que a educadora deveria destinar a si mesma. A professora passa o ano inteiro priorizando o aprendizado dos estudantes e acaba negligenciando sinais do próprio corpo e adiando seus exames anuais. O Outubro Rosa precisa ser um choque de realidade: para cuidar do outro e manter a escola viva, a professora precisa, antes de tudo, estar viva e com a saúde amparada”, alerta a dirigente.

Já o presidente do CPP, Alessandro Soares, o combate ao diagnóstico tardio no ambiente escolar exige integrar a saúde preventiva às discussões de carreira e condições de trabalho. “Uma categoria formada majoritariamente por mulheres exige que também estejamos atentos às questões relacionadas à saúde feminina. Valorizar o professor não é apenas discutir remuneração e carreira. É oferecer condições para que esses profissionais possam cuidar da própria saúde, buscar atendimento e realizar seus exames preventivos sem que isso seja tratado como algo secundário”, defende Soares.

Rotina escolar e a urgência do diagnóstico precoce

O adiamento sistemático das consultas de rastreamento reduz as chances de detecção inicial da doença. Quando identificado em estágio precoce, com nódulos inferiores a um centímetro, o câncer de mama atinge índices de cura superiores a 95%, demandando tratamentos menos invasivos e preservando a qualidade de vida da paciente. Por outro lado, a falta de acompanhamento periódico eleva o risco de intervenções cirúrgicas agressivas.

“Nenhuma pendência burocrática da escola ou prazo de fechamento de notas pode valer mais do que a realização de uma mamografia ou ultrassonografia mamária. Nosso recado direto a cada colega educadora é que pare, olhe para sua agenda e mantenha suas consultas preventivas em dia. O autocuidado não é falta de compromisso com a escola, é um dever de preservação da vida”, reforça Lisete de Fátima Oliveira.

A terceira vice-presidente do CPP enfatiza ainda que garantir condições dignas de saúde para o magistério repercute em toda a sociedade. “A sala de aula é o maior polo multiplicador de conscientização do país. Quando uma professora é respaldada para cuidar de sua saúde, ela transforma a própria comunidade escolar, servindo de espelho para suas alunas, mães e famílias. Cuidar da mulher educadora é proteger o próprio futuro da educação pública em São Paulo”, finaliza Lisete.

Sobre o CPP

O Centro do Professorado Paulista (CPP), fundado em 1930, é uma associação de classe que representa mais de 75 mil professores em todo o estado de São Paulo. Desde sua criação, atua na defesa dos direitos do magistério e na valorização da educação pública, conquistando importantes avanços para a categoria.

Com dezenas de sedes espalhadas pelo estado, sendo quatro na capital, o CPP oferece uma ampla rede de apoio aos educadores. A entidade mantém duas pousadas e oito colônias de férias, além de promover cursos e formações pelo Instituto “Sud Mennucci”, que contribuem para a atualização e o desenvolvimento profissional dos docentes.

Com forte atuação jurídica, o CPP tem se destacado na defesa dos direitos dos professores, conduzindo ações coletivas e individuais que garantem conquistas significativas. Também oferece atendimento jurídico, médico e odontológico, e incentiva o bem-estar dos associados com atividades de lazer, clubes e alojamentos.

O CPP mantém ainda uma importante atuação cultural e editorial, com eventos e publicações voltados à valorização da educação e do papel do professor. Mais do que uma associação de classe, é um espaço de representatividade, acolhimento e luta pela melhoria das condições de trabalho e pelo fortalecimento da carreira docente.

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